Penso nos mais novos, os pequeninos seres enclausurados em apartamentos e casas, em salas e varandas, espaços exíguos para extravasarem tanta energia. Por estes dias e por outros tantos que se seguem, não há mais o pátio da escola ou do prédio, não mais o parquinho com os amiguinhos, nem a praia aos domingos, apenas um espaço que não lhes basta. Tudo porque tem que ser, porque para o bem deles - e nosso também - nos foi interditada a rua, os amigos, os gestos de afetos, a alegria de um encontro com os amiguinhos ou familiares próximos.

Penso nas histórias que poderia escrever com base nas coisas que vejo e oiço. Para elas, as crianças. Hoje é um dia bom para escrever-lhes historias. Há 53 anos que se comemora, todos os dias 2 de abril, o dia do livro infanto juvenil, em homenagem a Hans Christian Andersen, o escritor de conhecidas histórias infantis como O patinho feio, o soldadinho de chumbo ou A pequena sereia. Uma data para relembrar a importância da leitura e das histórias no processo de desenvolvimento e formação da criança e, mais tarde, dos adolescentes.

Este ano, a escolha do tema não poderia ser mais feliz e acertada: Fome de palavras. É isso, temos todos fome de palavras porque o tempo não nos vinha permitindo fazer muito uso delas, agarrados que estávamos a outras formas de passar o tempo e de verbalizar quase tudo. E tal como os adultos, ou até mais, as crianças têm fome de palavras. E nada como uma boa estória para sacia-las o apetite.

Do real à ficção
Dizia que pus-me a pensar nas estórias que poderia contar. E lembrei-me de algumas coisas baseadas nas coias que observei e ouvi e que dariam, como já disse antes, belas estórias para contarmos aos mais novos.

Contou-me há dias, um amigo, da sua intenção de criar uma rede de voluntários para ajudar pessoas, que nesse momento excecional, muitos precisam da solidariedade de outras pessoas. Porque são tempos complicados para quem pouco ou nada tem e vive numa quase solidão. Aquilo ficou-me na cabeça. E pensei que se uma história fosse escrever para os mais novos, contar-lhes-ia que era uma vez um menino que foi herói, não desses que vemos na TV, vestidos de capa vermelha ou preta, que soltam teias e trepam prédios, nem voam, nem têm força inesgotável, mas que ainda assim foi um herói que os tempos reais e atuais precisam; um herói sim, porque com o seu gesto, e juntamente com os seus amigos, num grande djunta mon, fez a diferença na vida de muitas pessoas. E no fim lhes diria que todos, naquela história, viveram felizes para sempre. Ele, o menino-herói, porque sentiu que a sua vida ganhou maior sentido, por ajudar o próximo; as pessoas que ele e os amigos ajudaram, também felizes, por sentirem menos sós.

Uma outra circunstância vem-me à memória. Uma mãe amiga relata-me, um pouco triste, da angústia da filha por não poder ver o pai porque em tempos de confinamento, há que se confinar também as saudades e distanciar-se dos afetos. E com as crianças todo o cuidado é pouco. A mãe confidencia-me que a filha pergunta, ansiosa, quando é que o pai vem vê-la. Já é visível a ansiedade da pequena. Sim, são dias difíceis até para as crianças que julgamos levarem tudo na normalidade. E as que vivem só com um dos progenitores, e que por estes dias estão impedidas de estarem com eles, a ansiedade, calculo, deverá ser maior. A mãe também acusa aflição. Vai colmatando a ausência com videochamadas ao telemóvel, mas a pequenita ainda assim reclama. Que aquilo não lhe basta. Já tem as suas rotinas com o pai, quase sempre coisas divertidas que incluem passeios e guloseimas. Aquilo tocou-me. Como explicar a uma criança de quatro anos que terá que ficar separada do pai, que todos os dias ia busca-la a escola, dava-lhe beijinhos e abraços e tinha sempre uma coisa sabi para ela?

Penso nas historias que poderia escrever. Era uma vez uma menina que vivia muito feliz e era muito amada pelos pais. Um dia, surgiu um bichinho mau que fazia muito mal às pessoas. Então, para lutar contra esse bichinho-vilão, e não deixa-lo vencer, era preciso que todas as pessoas se unissem contra o bicho. Uma das armas poderosas seria o distanciamento, cada um na sua casa. As pessoas que estavam sempre juntas e se viam todos os dias teriam que ficar, por um tempo, separadas. É que quanto mais separadas ficassem mais os poderes do bichinho-vilão enfraqueciam, até ele desaparecer. Então, bastava que os humanos, miúdos e graúdos, fossem corajosos, bravos e pacientes para fazerem o bichinho desaparecer. Mesmo daqueles de quem gostamos muito, muito, como o papá e os avós, a Luna, a Nayara e o Mikael? Sim, mesmo esses.  Mas no fim, haveria uma grande recompensa para os mais valentes. No fim, iriam todos comer uma grande pizza, e para terminar, haveria gelados, beijinhos e abraços. Naquela noite, a menina dormiu feliz por saber que estava sendo uma brava heroína, que fazia a sua parte para não deixar o bichinho mau vencer a batalha.

E no fim, todos viveram. Felizes ou não, viveram.

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Natacha Magalhães é escritora de livros infantis e promotora do projeto de promoção e incentivo à leitura Mala de Contos

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