Por exemplo, o Instituto Pedro Pires para a Liderança (IPP) publicou esta terça-feira (10) esta imagem para interagir com o público no mundo virtual e promover seu evento do V Diálogo Estratégico. Porém, após uma leitura rápida da mensagem, imagética e escrita, grande parte das pessoas que viram a publicação reagiram de forma negativa em relação ao conteúdo apresentado. Principalmente com esta frase que acompanha a imagem:

 “Educar um menino é educar uma pessoa; Educar uma menina é educar uma família e toda uma nação”

Este é um provérbio que estará dentro daquilo que se aponta como parte da sagacidade filosófica africana, como nos explica Henry Oruka, na sua obra “Filosofia sábia” (1994). Um provérbio antigo que faz parte do leque de informações que nos chegam através da passagem de tradições primordialmente pela via oral (principalmente nas sociedades da África Subsaariana, de que Cabo Verde faz parte) e que agora ganha expressão nesta peça comunicacional publicada no Facebook e com rápida repercussão pela força da Internet.

Apesar das críticas que recebe pelo seu uso no cartaz, é preciso levar em conta que esta frase traz implícita na linguagem valores e práticas em Cabo Verde, tal como o valor cultural atribuído aos filhos. Apenas uma referência rápida para lembrar a música intitulada “Sema Lopi”, cantada pela Lura no álbum “Herança” (2015), ou cantada pelo grupo ‘Bulimundo’ no álbum “Djan Brancu Dja” (1981). Para quem não se lembra, aqui vai parte da letra diz assim:

“Bo ki pari matxu, ba sirbi rei; bo ki pari fêmea ba sirbi mundo”. Numa tradução literal seria:

“Tu que pariste menino vais servir o rei; [Educar um menino é educar uma pessoa]

tu que pariste menina vais servir o mundo”. [Educar uma menina é educar uma família e toda uma nação]

Poderia significar que nós já temos este provérbio incorporado no nosso folclore – que pode ser identificado em várias outras produções criativas e discursivas - e a transmitimos no ideário criativo, cabendo a esta geração a responsabilidade da sua desconstrução.

Deve-se notar que, os provérbios, na maioria das vezes, nascem pela observação da realidade, refletindo-a ou exprimindo a historicidade desta realidade, mas nem sempre com a intenção de a modificar. Pode-se dizer que esta imagem usada pelo IPP reflete o modelo de família monoparental com ausência do homem na educação da criança. Reflete a realidade num país quando em 2015 os dados do INE apontavam para 40,6% das crianças a viverem só com a Mãe. [Curiosamente, em termos estatísticos, em Cabo Verde os agregados familiares são na sua maioria representados por homens (52,4%). No entanto, é de realçar que o representante do agregado é indigitado pelo agregado]. Pode-se também apontar que a imagem reflete uma historicidade da nossa realidade, já que, na maioria, as regras sociais são transmitidas pela Mãe (49,4%) ou pelos Avôs (24,9%). Contudo, refletir a realidade não é o mesmo que questioná-la ou apresentar propostas de mudanças. Às vezes é apenas perpetua-la ou legitimá-la, mesmo que de forma inconsciente.

Ainda, nesta publicação no Facebook, o provérbio quando faz a distinção entre menino e menina traz outra discussão importante: a questão de ‘pessoa’. Isso se levarmos em conta a pessoa como uma entidade com vários atributos adquiridos e que lhe estão associados logo à nascença. A ‘pessoa’ então nasceria com esses privilégios morais, sociais e institucionais. Na frase “Educar um menino é educar uma pessoa” pode-se entender que o menino é uma pessoa (ou seja, alguém com interesses individuais, particulares). Porém, no caso “Educar uma menina é educar uma família e toda uma nação”, a ‘pessoa’ da menina já se torna um coletivo, uma entidade difusa, sem destaque para a realização da menina como singularidade. E, certamente, não é esta a educação que se quer promover atualmente, num Cabo Verde que luta pela igualdade de oportunidades.

Por sua vez, com toda a reação menos boa provocada pela publicação na sua página do Facebook, o IPP mostra-se incompreendido e tenta explicar a ideia por detrás da imagem alvo de críticas. Assim, em reação aos comentários negativos, o IPP defende-se com estes três pontos:

“Tomamos os comentários em devida conta, contudo temos pena de ter sido incompreendidos e cumpre-nos, por isso, esclarecer que a ideia é essencialmente: 

  1. Representar a força de uma mulher africana empoderada, não obstante os obstáculos sociais e culturais, e o fardo que recai sobre ela;
  2. Reconhecer o contributo das mulheres no desenvolvimento progressista das sociedades, sem nunca pretender desmerecer o papel do homem;
  3. Reconhecer na educação das mulheres um papel verdadeiramente transformador, pelo seu efeito comprovadamente multiplicador, recorrendo a símbolos, ícones e a um provérbio legitimado internacionalmente.”

Pelo que lemos nestes três pontos o IPP tinha um objetivo diferente daquele que foi percecionado pelo público. O lado bom é que provoca a discussão sobre a igualdade de oportunidades e a educação dispensadas às quase 175 mil criança (menores de 17 anos) - meninas e meninos - em Cabo Verde. Contudo, as reações são imprevisíveis (especialmente nas redes sociais) e estar na rede é estar sujeito às crises de comunicação. O outro lado bom é que provoca a interação e aumenta o alcance da página com um conteúdo viral, dentro da nossa realidade, claro.

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