Não sei se é coisa da idade, mas dei-me conta no último par de anos de como amo a água. Amo bebê-la - sou aguólatra  capaz de beber 3 litros por dia - vê-la, banhar-me nela, senti-la nas mãos, no rosto, cercando-me por todo o lado... Doce ou salgada. Ilhéu que sou, e tendo adoptado a prática de banhos matinais frequentes numa das praias da cidade, dói-me  enormemente a interdição de acesso decretada. Protestei, convencida de que era medida local e exagerada, aqui onde sequer estamos em quarentena domiciliar oficialmente  decretada. Mas afinal é geral, é nacional. Reflicto, revejo a minha posição e abraço com mais senso a medida. Sigo, no entanto, sem histeria e pânico.

Em 1995, Cabo Verde, e particularmente  a cidade da Praia, foi fustigado por uma epidemia de Cólera. Foi terrível. Lembro-me da visão dantesca de pessoas deitadas no chão dos corredores e varandas do HAN, borradas ou com poças de vómito ao lado. Lembro-me das minhas irmãs mais velhas a lavarem com lixívia toda a loiça e roupas, a limpar com intensidade portas, janelas e paredes. Ontem vi-me a repetir os seus gestos, usando ao invés um desinfetante hospitalar que comprei numa loja de produtos americanos, com discritivo a dizer ser bactericida, fungicida, germicida e... virucida. Não contente com a purga dentro de casa, passei o produto por todas as superfícies do espaço comum do prédio passíveis de serem tocadas com as mãos, a começar pela porta de entrada. Paranóia?

Acusaram-me disso há uns dias, por recomendar a não partilha de telemóveis e a contenção de abraços e beijos. Mas é a recomendação das autoridades da Saúde e todos temos a responsabilidade de nos protegermos e não colocar os outros em risco. Os estudantes é que fazem orelhas moucas a isso. Mesmo depois da notícia do primeiro caso positivo no p aís,  numa breve saída para ir entregar um medicamento, vejo-os em grupos próximos, abraçados e de mãos dadas...

Reflectindo no como os mais jovens estarão a encarar tudo isto, vem-me à memória o alarmismo das conversas dos adultos quando, tinha eu 9 ou 10 anos, se deu a Guerra do Golfo. Na minha cabeça de criança a ideia de fim do mundo, propalada por alguns adultos sem qualquer cuidado, tornou-se por algum tempo real. Vivi durante alguns dias em silencioso terror. Daí o cuidado que tenho tido de conversar com a minha filha, informá-la e esclarece-la sobre os cuidados a ter, sem histerismo e pânico. Felizmente a sua sensata professora adoptou o mesmo tom e ela chegou da escola para a interrupção das aulas consciente do que se passa mas calma.

Quanto às perspectivas de fim deste cenário distópico - a fazer lembrar "A Peste" de Albert Camus ou "Ensaio Sobre a Cegueira" de Saramago - esforço-me por manter pensamento positivo e acreditar que brevemente as coisas começarão a melhorar

Estamos desde ontem em isolamento social voluntário. Fizemos juntas um bolo. Fizemos um vídeo a animar uma pessoa amiga que está há uma semana em quarentena domiciliar por ter regressado de um país atingido. Jogamos ao UNO  e aconchegamo-nos juntas no sofá, cada uma a ler o seu livro e a ver filmes. Hoje ela perguntou se podia ir brincar à casa de uma amiga. Expliquei-lhe porque não podia ser, e prometi-lhe um breve passeio no calçadão da orla mais logo, num horário de pouca frequência. Desopilar é preciso, a mente também se quer saudável.

Estes são tempos desafiadores, onde nos interrogamos sobre o futuro próximo. Para quem como eu é trabalhador independente, única fonte de sustento do lar e sem uma família financeiramente abonada, são tempos de alguma angústia. Esforçamo-nos por manter o pensamento positivo e acreditar que vamos conseguir encontrar soluções. Sento-me ao computador e esboço planos, possibilidades, propostas...

Quanto às perspectivas de fim deste cenário distópico - a fazer lembrar "A Peste" de Albert Camus ou "Ensaio Sobre a Cegueira" de Saramago - esforço-me por manter pensamento positivo e acreditar que brevemente as coisas começarão a melhorar. A pesar da tristeza que me fazem a maioria das notícias, encontro e apego-me àquelas que nos falam de zero casos novos, de maioria de positivos a curarem-se, de vacinas já em teste.

Cada um de nós deve lavar as mãos sempre que sair rua e voltar da rua, evitar beijos e abraços e levar as mãos à cara. Descobrir utilidade nos nossos cotovelos...

Eu, agnóstica, oro às energias que regem o mundo e faço em voz baixa afirmações positivas: vai passar, vai passar, vai passar. Para isso, cada um de nós é chamado a cumprir com as medidas de prevenção e de contenção. Cada um de nós deve lavar as mãos sempre que sair rua e voltar da rua, evitar beijos e abraços e levar as mãos à cara. Descobrir utilidade nos nossos cotovelos...

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