Estaremos perante mais um assumido “milagre” africano, poupados da severidade da doença ou, devemos manter a vigilância e preparar para o pior?

Para analisar esta questão devemos observar as diferenças entre a severidade e mortalidade da doença em diferentes locais.

Globalmente, taxa de mortalidade estimada da doença é de aproximadamente 7%. Isso significa que, em 100 pessoas infetadas, seriam esperadas 7 mortes, em 200 casos seriam esperados 14 óbitos e assim sucessivamente.

No entanto, se verificarmos os dados em Cabo Verde, com um óbito, podemos estimar uma taxa de mortalidade de aproximadamente 0. 88% que, é muito aquém da taxa global.

Outros países também divergem da taxa global e, para além disso, a taxa de mortalidade pode variar dependendo da data.

Por exemplo, na Alemanha a taxa de mortalidade subiu de 0.74% para 3.88%, entre 29 de março e 29 de abril. No mesmo período, a taxa de mortalidade diminui no Gana de 3.55% para 0.71% enquanto que, o Senegal, registou um aumento de 0% para 1.09%.

Visto assim, só a taxa de mortalidade não dos dá uma clara perspetiva da possível evolução da epidemia em Cabo Verde.

Estaremos perante mais um assumido “milagre” africano, poupados da severidade da doença ou, devemos manter a vigilância e preparar para o pior?

Seria melhor, então analisar os possíveis motivos dessa divergência e como o nosso país se compara nestas outras áreas.

Primeiramente, o aumento da taxa de mortalidade, reflete o aumento da pressão que a epidemia exerce sobre os sistemas de saúde.

Por exemplo, no dia 12 de março, a Bélgica registava 399 casos da doença e 2 mortes. Um mês depois, no dia 12 de abril o país registava 3600 mortes e mais de 19500 casos. Hoje o país uma taxa de mortalidade de aproximadamente 15.5%, a maior registada no mundo. Enquanto isso, a vizinha Alemanha tem 3 vezes mais casos e uma das menores taxas de mortalidade da Europa, registada em 3.88%.

Uma das razões para esta diferença é a capacidade de resposta dos cuidados intensivos. Em 2012, Alemanha tinha o maior número de camas de unidades intensivas por 100.000 pessoas da Europa, tendência que se mantém até hoje. Por esta razão consegue dar mais resposta aos casos graves da doença, conseguindo uma melhor taxa de recuperação.

Mas esta razão, por si só, não responde à questão do porque da gravidade da situação na Bélgica. Afinal, Portugal tem um dos menores números de unidades intensivas per capita da Europa, mas uma das taxas de mortalidade mais baixas (3.9%).

Ora bem, Portugal têm, contudo, uma das maiores taxas de testes por um milhão de pessoas da Europa, ficando acima de países como a Alemanha, Itália, Bélgica, Suíça, entre outros. Segundo a Organização Mundial da Saúde, testar é uma das melhores ferramentas que os países têm para lidar com a epidemia.

Outro fator importante para o relativo sucesso de Portugal e da Alemanha, foi a rápida implementação e a continuidade dos seus estados de emergência.

Portugal decretou o estado de emergência no dia 18 de março quando contava oficialmente 642 casos e 2 mortes. A Bélgica já tinha declarado o estado de emergência no dia anterior, mas já acumulava 1243 casos e 10 mortes.  Aqui, o isolamento numa fase mais cedo da epidemia, permitiu ao sistema de saúde manter-se mais aliviado.

No caso de Cabo Verde, implementou-se o estado de emergência cedo, mas não foi possível garantir uma política alargada de testes desde o início da epidemia, pelo que não temos bem a noção dos casos infetados não testados que possam estar a circular no país.

Devemos notar também que registamos a primeira morte com um número de infetados confirmados, muito inferior aos países mencionados.

E quanto a idade média da nossa população? Pode esta garantir-nos alguma segurança? A verdade é que assim como a Itália e a Bélgica, a Alemanha e Portugal têm uma população igualmente envelhecida e, o que contou mais para a evolução da epidemia, foi a capacidade do sistema de saúde no caso alemão e a rápida resposta no caso de Portugal.

Mas e o fato da epidemia parecer ser menos leve nos países africanos? Podemos também contar com esta bonança? O fato é que não sabemos se os dados de muitos países africanos são fiáveis devido a limitada capacidade de testar para o vírus tanto nos vivos como após o falecimento.

Mas e o fato da epidemia parecer ser menos leve nos países africanos? Podemos também contar com esta bonança?

Porém, contrariamente ao que gostamos de acreditar em Cabo Verde, muitos desses países estão mais bem capacitados para lidar com epidemias, porque têm mais infraestruturas para lidar com doenças infeciosas.

A verdade é que não temos muitos médicos, nem ventiladores ou, uma grande capacidade em cuidados intensivos.

Temos de, como sociedade, ver os números de uma forma mais realista, porque se, no final tivermos “só” 1000 infetados e destes “apenas” 50 forem casos graves, conseguiremos salvar essas 50 pessoas?

Como cabo-verdianos temos de pensar se estamos dispostos a sacrificar nem que seja uma vida ou, se estamos dispostos a agir da forma mais responsável possível, para o bem de todos.

No final de contas, toda e qualquer analise epidemiológica não substitui a responsabilidade cívica e o bom preparo das entidades governantes. São esses dois fatores, que acima de tudo, ditarão como a epidemia irá evoluir em Cabo Verde.

*Os dados deste artigo são correspondentes aos números oficiais de covid-19 no di 29 de abril, 18:00.

Referências

https://www.worldometers.info/coronavirus/

https://ourworldindata.org/grapher/coronavirus-cfr

https://www.cebm.net/covid-19/global-covid-19-case-fatality-rates/

https://www.statista.com/chart/21105/number-of-critical-care-beds-per-100000-inhabitants/

https://www.statista.com/statistics/1104645/covid19-testing-rate-select-countries-worldwide/

https://www.portugal.gov.pt/pt/gc22/comunicacao/documento?i=decreto-do-governo-que-regulamenta-o-estado-de-emergencia-~

https://www.euractiv.com/section/coronavirus/news/belgium-enters-lockdown-over-coronavirus-crisis-until-5-april/

Rhodes, A., Ferdinande, P., Flaatten, H. et al. The variability of critical care bed numbers in Europe. Intensive Care Med 38, 1647–1653 (2012). https://doi.org/10.1007/s00134-012-2627-8

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