Mas qual o papel da “rainha de bateria” e que qualidades deve ela ter? Para quem assiste o Carnaval é fácil notar que esta figura desfila sua beleza, alegria, graça, samba-no-pé e muita sensualidade. Ela procura despertar o olhar sobre seus dotes físicos, e seus movimentos direcionam o olhar para partes do seu físico, quase sempre seminua. E, na maioria das vezes, com o corpo trabalhado no ginásio, a “rainha de bateria” desfila sua silhueta modelada para despertar desejos e ilusões. É uma alegria visual para o turista e quem acompanha o desfile.

Vão avaliar qual das crianças rebola mais?

Tudo isso é belo. Mas só enquanto não estivermos a falar de crianças. As nossas crianças não precisam de “concursos” para serem colocadas no palco para disputar a categoria de “Rainha de Bateria” (uma figura avaliada, também mas não só, pela sensualidade). Acredito que não é isso que grupos deveriam promover para as nossas crianças. Por isso apelo para que se pare de promover concursos para adultos avaliarem o corpo da criança. Raciocinem comigo: vão avaliar qual das crianças rebola mais? Qual das crianças desce até ao chão? Qual das crianças sensualiza mais para arrancar gritos do público? Vão cobrar dinheiro para as pessoas assistirem ao rebolado das crianças em nome da “rainha de bateria”? E porque não um concurso para avaliar a criatividade na música do Carnaval ou na ilustração do melhor traje?

Às vezes parece-me que a nossa sociedade tem uma relação bipolar com a nossa infância. Somos esta sociedade que tem um feriado nacional dedicado às crianças – as flores da nossa “revolução”. Por outro lado, somos a sociedade que tem uma alta taxa de crimes sexuais contra crianças. A mesma sociedade que ainda não se deu conta do alerta de que as nossas crianças estão a iniciar o consumo de álcool e outras drogas a partir dos nove anos. Nove anos. Sim, precisamos falar sobre as nossas crianças e combater as vulnerabilidades que enfrentam. Mas não é com “mini rainhas de bateria” ou “mini-misses”. Atenção, não estou a fazer uma causa-efeito entre estes eventos e a problemática que estamos a atravessar mas sim a questionar o que queremos promover para a nossa infância num ambiente actual.

É por isso importante lembrar aos grupos nas zonas e localidades de que têm um papel importante que pode e deve ser melhor usado nas comunidades. Principalmente com as nossas crianças. E proteger a nossa infância é isso também: saber que pior do que não organizar eventos para as crianças é organizar eventos potencialmente prejudiciais para a infância.

Câmara Municipal de São Vicente deve recomendar mudar o foco

Permita-me chamar a atenção à Câmara Municipal de São Vicente (CMSV), por ser uma das principais promotoras do Carnaval na ilha, a ter um papel pedagógico com os Grupos Carnavalescos recomendando que não seja feito eventos do tipo envolvendo crianças e com foco nos seus corpos. Eu sei que a CMSV tem alertado para as situações de vulnerabilidade das crianças na ilha e deverá mostrar-se sensível a questões do tipo. Falem com o Grupo Carnavalesco Cruzeiros do Norte. Falem com todos os grupos e lhes digam que as nossas crianças não precisam ser “rainhas de bateria”. Convençam este e outros grupos carnavalescos a fazerem eventos lúdicos que não tenham o corpo das nossas crianças como centro das suas atenções para serem avaliadas por adultos.

Avaliar as partes do corpo (ou a criança em partes)

Recordo-me que no ano passado tinha sido publicitado na cidade da Praia a realização de um “Miss Beleza Infantil”, evento que posicionei-me frontalmente contra por causa do perigo de promover a sensualização das crianças num país como Cabo Verde. Porque um país com tão graves problemas de crimes sexuais contra crianças não deveria apostar em eventos que apenas contribuem para a erotização das meninas-crianças.

Pelo que vejo da reação ao post publicado na página do “Cruzeiros do Norte”, muitas são as mães prontas para inscreverem suas filhas. Há até quem pergunta se a sua criança de oito anos pode participar. Uma das razões do sucesso desses eventos é que muitos destes concursos do tipo “rainha de bateria” (ou mini-misses) são incentivados pelas mães, que muitas vezes apenas estão a projetar nestas crianças um desejo próprio de suas vaidades. Infelizmente esses concursos não são assistidos apenas pelas mães babadas com as fofuras das suas crianças.

Assistem também (entre outros) sujeitos suspeitos que se deliciam com a exposição do corpo da menina (muitas das vezes em trajes curtos). Não devemos esquecer que esses eventos são originalmente criados para despertar o interesse pelos atributos dos corpos em desfiles. Os adultos criam eventos para adultos pelos momentos de alegria, glamour, libido e muito desejo.

Lembrem-se que assistem (entre outras) pessoas que irão filmar e fotografar para guardar o bom momento, mas também outras para guardar e usar as imagens dessas crianças como combustível mental para as suas taras e perversões. É nosso dever proteger a nossa infância.

Lembrem-se: quando faz-se um concurso com o objectivo de avaliar as partes do corpo (ou a criança em partes) fica difícil garantir que essas meninas não poderão ser alvos de assédio ou aliciamento das suas inocências que acreditam que exibir o seu “corpo de rainha de bateria” ou o seu “corpo de mini-miss” é o adequado a fazer nesta idade. Não, não é e não devemos promover eventos do tipo.

Precisamos indignar pelas nossas crianças. Denunciar pelas nossas crianças. Boicotar pelas nossas crianças.

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