Esses dois espaços movimentam centenas e centenas de pessoas no fim de semana, e até ao anoitecer. Eu, que moro na Achada, vejo há anos o movimento, de crianças, jovens e adultos, praticamente em festa, voltando para casa depois de um dia na praia. Para mim era apenas mais um dia de sol e mar a celebrar. Isto até ao fim de semana passado, quando decidi percorrer as encostas da Quebra Canela no fim do dia.

Descobri, nesse caminhar, que o movimento nas rochas é mais intenso do que o na praia. Ali, nas encostas, de certa forma protegidos dos olhares de quem não lhes é próximo, famílias inteiras confraternizam-se, grupos  de amigos se reúnem para o seu almoço domingueiro, com as crianças a chapinhar alegremente por perto, nas poças formadas nas rochas, que se transformam, nas suas brincadeiras, em piscinas privadas.

Quem nunca passou pelo local a essa hora não faz ideia da vida, da alegria, da diversão que reina entre as pessoas que para ali se dirigem, a maioria gente simples desta cidade. Uma alegria traduzida no grito das crianças quando uma onda maior quebra na rocha e vem inundar a sua piscina privada, na música alta que chega a abafar o barulho do mar ou no movimento junto às grelhas improvisadas, numa caraca sem fim.

Impressionou-me tanta vida a pulsar naquele local. Diante do que vi, e do que encontrei hoje, novamente, no mesmo espaço, ficou-me a interrogação: para onde essa gente vai quando esse espaço não existir? É que, pela lógica, para mim sem lógica, com a qual andam ocupando as encostas de Quebra Canela, qualquer dia vão expulsar a vida que pulsa naquelas rochas. É o tal do desenvolvimento.

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