E que texto poderias tu ser, cidade minha? Poderias ser um romance pois que és palco de tantas histórias e outros tantos diálogos; és uma amálgama de sentimentos gerados: amores, paixões, ódios e raivas; tens todas as personagens capazes de compor o mais belo romance de todos: tens aquelas que chegam e as que partem; as que de dia vêm em busca da vida e ao cair da tarde te deixam; as que se reúnem na pracinha de um café tem nome de rainha e ai entabulam conversas para matar o tempo e aconchegar a alma; tens o homens do táxi, e com este, se tiveres sorte, hoje te brinda com melodias que sossegam o espirito, mas pode calhar-te o azar de amanhã levares com o kotxi pó até que te doam as entranhas; tens também os homens que se juntam bem cedinho na tua cool e emblemática kebra kanela para o banho revigorante e dois dedos de conversa; tens as mulheres que desafiam a vida difícil e entoam canções onde não faltam a banana, o peixe, o pão, os chamados habituais “frequegesa kumpra-m…”, mas também fugas quando se apercebem que os homens de azul estão bem ali perto e nesse jogo de gato e rato, as vezes há gritos de revolta, há lagrimas…desafia-se a ordem, mas é preciso restabelecer a ordem para que não te transformes num texto caótico. E tens o Txico que, segundo a Dilva, descobriu as maravilhas das novas tecnologias e agora também quer ver-se figura do facebook; tens a Matilde da Via Nova, o João e a Maria de Fátima da Bela Vista, o Toi de Achada Grande ou o Henrique da Ladeira Sampadjudo, que veio do Fogo ainda criança de colo mas que se assume como um badio de gema; tens a Alia de um quintal que nos dá musica; tens o Romeu que te faz poema e paraíso; o Zeca, espelho duma juventude pujante e empreendedora; a Nhá Balila que não vê com os olhos, mas com o coração. É, cidade minha. Não te faltariam personagens capazes de te fazer romance.

Poderias ser um conto. Mas seria de uma tremenda injustiça resumir-te. É que tu és imensa, cidade minha, e tens tanto para contar e descrever. Seria uma injustiça deixar alguém de fora, eliminar espaços. Como poderia eu cometer semelhante injustiça? Não falar das achadas e das tuas colinas e nem dos teus bairros todos; dos teus sons e das tuas cores. E também dos teus cinzentos. Como não colocar no papel os ruídos das 132 mil almas que em ti habitam e que se misturam e se confundem numa cacofonia deleitante? Como não falar de como cresceste e hoje pareces uma mulher a quem os anos trouxeram a beleza que só a maturidade confere? Sim, minha cidade, tu és imensa para seres um conto. Tu não queres ser um conto. Sei-te insatisfeita, reivindicativa. E isso é muito bom. Almejas as luzes de Paris; a modernidade de Lisboa; queres ser a Nova Orleães do Atlântico ou a Quindao da Africa; queres a grandiosidade de Cape Town e Port Louis e as cores de Willemstad. Tu, cidade-mar, não podes ser um conto.

Tu, Praia Maria, és um poema. Que se escreve com diferentes entoações e pontuações. és uma exclamação que me sai do peito e da boca quando à tardinha em ti me passeio e contemplo o sol a namorar, sem pressa, o mar, que se espraia languido pela tua costa. Não há espetáculo mais harmonioso nem mais belo! És reticências… há coisas inacabadas em ti; há desequilíbrios aguardando pela harmonização; há caos aguardando a ordem; o cinzento clamando cores. Afinal, ti és a cidade-mãe, a principal. Deixas-me sempre nessa expetativa de te querer mais bonita, mais composta, mesmo que me deleite com as escadarias coloridas que nascem nos teus espaços principais, mas igualmente em desconhecidas vielas; és dois pontos: o farol e o seminário, guardiões intemporais; o miradouro e o Diogo Gomes sempre vigilante; o Platô e o mercado buliçoso, repleto de odores e cores; o Sucupira e a lisboeta avenida, sempre agitada e que, em hora de ponta, revela que é imperativo construir caminhos outros, nessa cidade que cresce a cada dia; és interrogações. Quero saber como serás amanha. E depois. E daqui a um mês, um ano. Uma década. Quero-te cosmopolita, hodierna, claro.  Assim como as outras cidades que abraçam o mar, quero-te vibrante e harmoniosa. Que sejas inspiração para artistas. Assim como Barcelona foi para Gaudi, Aracataca para Gabo, Praga para Kundera ou Beira para Mia.

Não te quero perdida entre betões, nem quero subir tao alto para ver o mar. Tu és um poema. E todos os poemas têm amor e esperança. E como de verde é a esperança, quero-me encontrar contigo, vestida dessa cor, nas esquinas, nos teus bairros, nos passeios e nos jardins que em ti hão de nascer. Seja uma Curitiba, uma Kampala ou uma Baia de Caráquez. Não te rendas ao capitalismo arrebatado. Guarda-te um pouco para o futuro e para os que irão a ti chegar e em ti querem viver melhor.

Praia Maria, tu és uma cidade cool. Magalhânica e magnânima. Do mundo. A nossa.

És um poema.

E hoje é o teu dia. Parabéns, paraíso Praia

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