Ribeira Grande, Santo Antão inteiro mobilizaram-se numa corrente de unidade, solidariedade e “djunta mó” tendentes a salvar o que era ainda possível salvar-se. Das outras parcelas do torrão pátrio - também da diáspora e dos países amigos - ecoaram vozes e sentimentos de consternação e de impotente revolta por não se poder suster o trágico acontecimento.

O Governo decretou três dias de luto nacional - findo segunda-feira, 9 -, com a bandeira a meia haste em todo o país e suspensão de todas as actividades e cerimónias festivas oficiais.

Na mesma ocasião, o executivo do Palácio da Várzea despachou para a ilha de Santo Antão uma delegação “para assegurar a coordenação das acções necessárias”.

Logo nas primeiras horas do acontecimento, numa altura em que as notícias ainda caíam a conta-gotas, tanto o Presidente da República como o primeiro-ministro, respectivamente Mascarenhas Monteiro e Carlos Veiga, manifestaram-se solidários com “as famílias enlutadas, incluindo as de cidadãos estrangeiros que se encontravam entre os passageiros, exprimindo as suas mais sentidas condolências”.

Ribeira Grande de luto

“Uma desgraça! Que tragédia!” Estas foram as formas como a quase totalidade da população da Ribeira Grande definiu o brutal acidente aéreo ocorrido em Santo Antão no passado sábado, 7, e que vitimou 18 pessoas, a maioria das quais naturais da Ribeira Grande.

A notícia propagou-se como um rastilho de pólvora e as pessoas que esperavam os familiares no voo desse dia eram a viva imagem da apreensão, na esperança (essa que é a última a morrer), de ouvirem dizer que, à última hora, algo aconteceu e que o seu familiar tinha perdido o avião, como mal menor.

Nada disso.

A fatídica verdade é que a tragédia atingiu dolorosamente várias famílias da Ribeira Grande - e não só -, no princípio da tarde do sábado passado, 7.

Algumas famílias viram-se drasticamente reduzidas, sobretudo, a da deputada Adlisa Delgado que, de uma assentada, perdeu cinco membros, outras perderam dois, outras um, mas a dor, embora repartida por toda a população, foi grande para todos.

A esperança de haver sobreviventes pôs de sobreaviso todo o pessoal do Hospital Regional da Ribeira Grande, mas cedo começaram a chegar testemunhas que punham de parte essa possibilidade, tendo em conta a violência da colisão.

Esse facto tem condicionado e dificultado a identificação dos restos mortais das vítimas do acidente cujos corpos ficaram mutilados e irreconhecíveis.

Para tentar facilitar a sua identificação, os familiares foram chamados ao Hospital Regional da Ribeira Grande para informarem sobre o tipo de roupa que as vítimas usavam no momento do acidente, as suas características físicas e sinais particulares, mas ao que tudo indica isso não é suficiente.

Para o efeito, um grupo de especialistas portugueses em Medicina Legal chegou na tarde de ontem, 11, a Santo Antão, para a realização de trabalhos técnicos que conduzam à provável identificação dos sinistrados.

“É que a área é mesmo deles, e em situações de catástrofe podem usar outros métodos e outras técnicas para identificar os restos mortais”, explica o delegado de Saúde da Ribeira Grande, o médico Víctor Costa, que não avança qualquer data para a realização dos funerais que só acontecem após a finalização dos trabalhos dos peritos internacionais.

Até lá, mesmo após o término do período de luto nacional decretado pelo Governo, as famílias enlutadas, o concelho de Ribeira Grande, a ilha de Santo Antão e todos os cabo-verdianos, em geral, vão continuar a chorar os seus mortos, e a rezar para que esse tipo de tragédia não volte a acontecer no nosso país.

Além desta, a catástrofe mais mortal registada em Santo Antão (ou em Cabo Verde?) data de 1961, aquando do desabamento de terras motivado por chuvas torrenciais que matou, na Vila da Ribeira Grande, onze pessoas.

Papa em oração

O Papa João Paulo II associou-se também à dor que abalou Cabo Verde. Em mensagem dirigida a Dom Paulino Livramento Évora, Bispo da Diocese de Santiago de Cabo Verde, por altura da dor e de luto que se abateram sobre o seu rebanho, João Paulo II “confia a Deus Pai de Misericórdia as numerosas vítimas pedindo para elas o eterno descanso”.

O sucessor de São Pedro rogou, ainda, a Dom Paulino Évora que transmita suas condolências às famílias enlutadas “sobre quem implora abundantes dons divinos de serenidade espiritual e esperança cristã”, em penhor dos quais lhes envia confortadora bênção apostólica.

TACV indemniza vítimas

O director-geral da TACV, Alfredo Carvalho, garantiu terça-feira, 10, na Praia, que a transportadora aérea cabo-verdiana vai indemnizar as famílias das vítimas do acidente ocorrido sábado, 7, em Santo Antão, do qual resultaram 18 vítimas.

“A primeira garantia que damos aos passageiros, ao iniciarem a viagem, com a TACV, é a sua cobertura por um seguro. Esse caso não fugia à regra”, disse Alfredo Carvalho, interrogado sobre uma eventual indemnização aos familiares.

Em conferência de imprensa, o director-geral da TACV indicou que a companhia “está a envidar todos os esforços no sentido de apoiar esses familiares, nesse momento de grande tristeza e muita dor, tentar minimizar o sofrimento”, afirmou.

“Já entrámos em contacto com os familiares de todas as vítimas do acidente”, disse o director-geral da TACV que se escusou a difundir a lista das vítimas.

“Legalmente, a TACV não deve difundi-la”, afirmou.

Interrogado sobre as condições atmosféricas de Santo Antão, no momento da saída do avião de São Vicente, Alfredo Carvalho afirmou que “as condições atmosféricas não eram péssimas”.

“O comandante sabia que a visibilidade não era a melhor e como em Cabo Verde a visibilidade pode piorar ou melhorar em pouco tempo, ele foi (estou a falar por ele, o que não devia estar a fazer) pensando que as condições iriam melhorar. Quando viu que a visibilidade não era a melhor, não aterrou e decidiu regressar a São Vicente”, disse.

Relativamente a uma informação da Lusa segundo a qual um avião da companhia brasileira VARIG, que se encontrava no espaço aéreo cabo-verdiano, teria captado um sinal no momento, Alfredo Carvalho disse que “se tratou de um sinal SOS”.

(Horizonte : Agosto de 1999)

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