Falando em nome do grupo, o tratador que se apresentou como Caco “e nada mais”, de 30 anos, revelou que trabalha no caís da Praia há 18 anos. Conforme referiu, estudou até o 10º ano de escolaridade, altura em que decidiu ir trabalhar no caís de pesca da Praia, carregando gelo para os botes, mercadorias e tratando peixes.

Foi desta forma que Caco conseguiu construir a casa própria no bairro de Achada Grande Trás, arredores da cidade da Praia. Aliás faz questão de enfatizar que nesses 18 anos nunca foi preso por roubar um peixe sequer, ou “qualquer outra coisa”.

“Aqui encontro o sustento para a minha mulher e os meus filhos honestamente”, explicou este tratador de peixe, apontando o dedo para o “preconceito” que as pessoas têm em relação àqueles que encontram o sustento da família no caís da Praia.

Caco conta ainda que ao contrário de alguns colegas nunca dorme no caís. “Chego aqui por volta das 07:00 ou mais tardar às 07:15 e regresso à minha casa por volta do meio-dia. Mas dependendo do meu feeling posso sair daqui às 15:00”, narrou.

Sentado à sombra de um caminhão, este “homem do cais” aproveitava ainda o momento de pausa para fazer a barba com um barbeiro ambulante que trabalha nos arredores do cais da Praia, enquanto falava da vida no caís. Relembrou com “muito orgulho” o facto de estar a conseguir criar os dois filhos, um de 6 anos e outro ainda com poucos meses de vida, com o dinheiro que ganha no caís, “no meio dos peixes, mar, sol, e a agitação dos trabalhadores”.

Este entrevistado queixou-se ainda das dificuldades que enfrenta no dia-a-dia.

“A Polícia não nos deixa tratar o peixe no caís e se for tratar dentro de um bote, o dono ameaça chamar a polícia”, lamentou Caco, que enquanto falava, recebia o apoio dos companheiros, defendendo, embora longe do gravador da Inforpress, por timidez, ser necessário um lugar para tratar os peixes, uma vez que não podem tratá-los nem dentro do caís nem dentro dos botes.

“O que podemos fazer? Querem que a gente roube? Eu acho que é o que querem”, questionou exaltado Caco, completando que ele e os companheiros muitas vezes pedem para tratar os peixes para em seguida limparem o lugar, apanhando os restos e os colocando nos contentores, mas que nem todos os policiais autorizam.

Este tratador de peixes revelou ainda que, muitas vezes, sente falta de uma organização de tratadores de peixes, ainda mais quando não se sabe o número exacto de tratadores existentes no cais da Praia, por serem muitos.

“Por vezes queremos fazer uma greve, mas nem todos os tratadores apoiam”, relatou o entrevistado, dizendo que conhece bem a vida do caís, uma vez que foi “um dos primeiros” a receber o cartão de tratador.

Outro tratador, Edery, 29 anos, que andava apressado, de um lado para outro, durante a reportagem da Inforpress, resolveu parar para dar o seu depoimento. Contou que há 9 anos carrega atum e trabalha como tratador de peixes. De segunda a sábado. Fez saber que chega ao caís às 06:30 da manhã e que não tem hora para regressar a casa.

“Há atuns que chegam do Porto Mosquito, Cidade Velha e chamam-me para a conserva, por isso eu não tenho uma hora específica para voltar a casa”, explicou Edery, completando que o trabalho de tratador de peixes “não é muito justo”, porque nem sempre os 50 escudos que recebem, compensam o peso do peixe que carregam.

Este disse ainda que, por vezes, “o atum pode ter 90 e tal quilos ou 100 e tal”. “Quando damos o nosso preço as peixeiras não nos pagam”, lamentou este entrevistado, revelando que consegue ganhar de entre 800 a 1000 escudos por dia, “dependendo da lua”.

“O que ganhamos depende da lua, quando há lua não há peixe. Quando não há lua ganhamos um bom pão de cada dia”, referiu Edery que, assim como Caco se queixa da falta de uma organização de tratadores de peixes e um lugar para se situarem.

“Às vezes há uns policiais que chegam aqui e querem nos injuriar. Por vezes deixam-nos tratar o peixe dentro dos botes, mas os botes não são lugares para tratar os peixes, os botes são para ir ao mar”, reclama para quem o que falta é um “lugar para trabalhar com dignidade”.

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