Há duas semanas, o proprietário da Baía do Coral, Vital Moeda Júnior (Vitalzinho) viu o cadeado do portão da sua unidade turística a ser arrebentado por um grupo de pessoas, do qual fazia parte o presidente da Câmara Municipal da Ribeira Grande de Santiago, Manuel de Pina, que pretendia visitar o covato de um familiar recentemente falecido.

Em declarações à Inforpress, o autarca ribeira-grandense justificou o acto dizendo que o acesso ao cemitério “não deve ser interditado a ninguém, sobretudo quando as pessoas vão lá visitar as sepulturas dos seus entes queridos”.

“Nesse dia, eu e mais alguns familiares quisemos ir ao cemitério visitar a cova de um parente e, quando chegámos no portão de entrada, deparámos que este estava fechado a cadeado. Alguém tentou ligar para o senhor Vitalzinho, mas este não atendeu o telemóvel, pelo que tivemos que arrebentar o cadeado”, precisou Manuel de Pina, mas negado que terá sido ele o autor do acto.

Vital Moeda Júnior, por sua vez, contraria esta versão dizendo que nesse dia não ouviu o toque do telemóvel, porque, muitas vezes, está  ocupado com suas plantas e animais exóticos e o aparelho fica num outro sítio, e que os trabalhadores também não se aperceberam porque se encontravam a laborar num local distante do portão.

“O portão tem cadeado para garantirmos a segurança não só dos turistas que nos visitam, como também do investimento que já temos feito até ao momento, mas o coveiro do cemitério tem uma cópia da chave, para abrir o portão sempre que houver necessidade”, justificou Vitalzinho.

Segundo ele, há tempos um turista checo foi atacado à facada, quando se encontrava a passear no interior do empreendimento.

“Quando aquele senhor chegou ao pé de mim todo ensanguentado, tive muita pena dele. Era um hóspede frequente, mas desde do incidente nunca mais veio cá”, afirmou, explicando por que razão decidiu fechar o portão.

“O coveiro tem uma cópia da chave do cadeado do portão. Por isso, não havia a necessidade de o senhor presidente da câmara mandar arrebentar o cadeado”, lamenta o proprietário da Baía do Coral.

Por sua vez, o autarca da Ribeira Grande insiste que a estrada de acesso ao cemitério é do “domínio público municipal”.

“O proprietário, quando foi lá fazer o seu investimento, já lá havia a estrada e o cemitério”, indicou Manuel de Pina, ajuntando que, por isso, “nunca devia cortar acesso” ao campo santo.

“Entendemos que ele tem necessidade de fechar a estrada para garantir segurança ao seu investimento, mas para isso teria que ter lá sempre e permanentemente uma pessoa para abrir o portão, sempre que  for necessário”, comentou Manuel de Pina.

Para evitar eventuais transtornos, o autarca sugere que Vitalzinho construa, a montante da sua propriedade, uma via de acesso ao cemitério e que a autarquia estaria na disposição de o apoiar.

“Da nossa parte, não haverá nenhuma objecção se ele decidir construir a referida estrada”, admitiu Manuel de Pina, insistindo que a referida via teria que ser dentro da propriedade do Vitalzinho, porque, afirmou, num outro sítio teria que contar com o “consentimento dos outros proprietários vizinhos”.

Instado se já tentou negociar com o proprietário da Baía do Coral, o presidente da Câmara Municipal da Ribeira Grande de Santiago asseverou que sim e que lhe garantiu que “não haverá nenhuma objecção” da parte da edilidade se o mesmo avançar com a construção de uma estrada alternativa   de acesso ao cemitério de Santa Marta, caso ele queira “valorizar o seu investimento”.

Confrontado com esta proposta, Vital Moeda Júnior admitiu que pode construir uma estrada a montante, mas que esta tem “custos elevados”, tendo em conta que será necessário “desmontar uma rocha” e que, mesmo assim, a via para chegar ao cemitério terá que passar por uma outra propriedade, cujos donos se dividiram no posicionamento quanto à permissão da construção da estrada.

Conforme garantiu à Inforpress, foi autorizado pelo então presidente da Câmara Municipal da Praia, Jacinto Santos [na altura, Ribeira Grande pertencia à Praia], a abrir, a partir do portão de Santa Marta, uma estrada, já que foi sempre por ali que passavam os funerais.

“Nós apenas quisemos repor a estrada para o seu local de origem”, acrescentou, ressaltando que, quando a pessoa que doou o espaço para o cemitério doou também uma estrada, que começa no portão de Santa Marta.

“Ninguém dá um terreno e, depois, diz para entrar pela propriedade do vizinho”, defendeu, acrescentando que a doadora deu também a entrada.

Para obter a autorização com vista à abertura da estrada, disse que comprovou com 22 assinaturas recolhidas junto de pessoas idóneas da Cidade Velha, São Martinho e Salineiro e do antigo dono da propriedade que o acesso ao cemitério foi sempre através do portão de Santa Marta.

“Abri a estrada devidamente autorizada e as pessoas começaram a utilizar este acesso para realizarem os funerais e efectuarem visitas às sepulturas dos seus entes queridos. Funcionou durante um mês e poucos dias até que apareceu o senhor Alcides Brito [nhu Ceci, hoje falecido] resolveu tapar aquilo com carradas de pedras”, queixa-se Vital Moeda, que até hoje não viu ainda resolvida esta problemática da estrada que atravessa a sua propriedade, não obstante, segundo ele, a Dona Fátima, uma das herdeiras, lhe ter autorizado.

Segundo o edil da Ribeira Grande, o acesso do portão de Santa Marta foi usado pelo pessoal de Salineiro e outras zonas vizinhas, enquanto as pessoas da Cidade Velha e S. Martinho usaram sempre a entrada que passa pela actual Baía do Coral.

Manuel de Pina assegurou, ainda, que, na eventualidade da realização de um funeral e, se for encontrado o portão fechado, e ninguém lá para o abrir, o “cadeado será de novo arrebentado”, porque a estrada é “pública e ninguém pode tirar este direito aos moradores da Ribeira Grande”.

“O cemitério é o lugar onde, a qualquer momento, as pessoas vão lá falar com os seus mortos. É uma questão cultural”, acentuou o autarca, que acusa Vitalzinho de ter “invadido a orla marítima e interditar acesso às pessoas a uma pequena praia que fica dentro da Baía do Coral”.

Vital Moeda, que se diz um fascinado pela Cidade Velha desde a década de 80, afiançou que o seu projecto mereceu “parecer favorável” por parte de entidades competentes de então, nomeadamente o Património Cultural e Histórico a Marinha Mercante e as Alfândegas.

Acredita, porém, que um dia este problema da estrada de acesso ao cemitério de Santa Marta será resolvido.

Inforpress/Fim

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