Os produtores de grogue no Porto Novo só devem iniciar a safra de cana de açúcar a partir de janeiro, apesar da decisão do Governo em abrir um período “excecional e transitória” para o fabrico da aguardente, no arquipélago.

Através de um projeto de resolução, o Conselho de Ministros procedeu à criação de “um regime excecional e transitória” da legislação que aprova o regime jurídico de produção de aguardente de cana-de-açúcar em Cabo Verde, devido à ocorrência do mau ano agrícola.

Alguns produtores do grogue no município do Porto Novo mostraram-se “surpreendidos” com a decisão do Governo, mas admitem que as condições estão a ser criadas para que a safra comece a partir de janeiro, como acontece habitualmente.

O Governo propôs que se comece o fabrico a partir de dezembro, para que a cana que existe, neste momento, não se perca por causa da seca, mas no caso do Porto Novo, em quase todos os vales (à exceção da Ribeira das Patas), o problema de água ainda não se coloca no setor de regadio, pelo menos, nas zonas tradicionalmente conhecidas como “produtores do bom grogue”.

Além da Ribeira das Patas, onde já se nota “alguma escassez de água” proveniente de nascentes, Tarrafal de Monte Trigo e Ribeira da Cruz são os outros “grandes centros de produção” do grogue genuíno no município do Porto Novo.

Nesses vales, não se coloca ainda o problema de água, segundo os agricultores que preferem esperar para janeiro para iniciar a colheita de cana sacarina, prevendo, para 2018, “uma boa safra”.

A nova lei do grogue, em vigor desde agosto de 2015, exige que os alambiques sejam selados entre os meses de agosto e dezembro, período em que regista-se a escassez da cana de açúcar em Cabo Verde.

Os produtores querem, sim, que o Governo, através da Inspeção-Geral das Atividades Económicas (IGAE), crie as condições para que a fiscalização do cumprimento da lei, nesta matéria, seja cumprida, o que não se verificou em 2017, no seu entender.

Durante a safra de 2017, a ausência de fiscalização foi uma preocupação constante dos produtores do grogue em toda a ilha de Santo Antão.

Graciano Évora, no Tarrafal de Monte Trigo, e Emídio Alves, em Ribeira da Cruz, foram alguns dos produtores que se mostraram mais inconformados com a falta de fiscalização durante a safra de 2017, lembrando que a própria IGAE constatou que “várias unidades” de fabrico em Santo Antão vêm operando fora do período estipulado por lei.

O primeiro-ministro, nas visitas efetuadas a Santo Antão, ao longo deste ano, foi sempre confrontado com a inquietação dos agricultores, tendo prometido, para 2018, “uma forte aposta” na fiscalização tanto em relação à aguardente, como de outros produtos alimentares.

Os produtores do grogue em Santo Antão denunciaram, nos princípios de novembro, a chegada, “nos últimos tempos”, à ilha de “quantidade anormal” do açúcar e de outros produtos, que acreditam serão utilizados no fabrico da aguardente.

Para 2018, os produtores prometem “boa safra” e desejam que seja o “ano de efetiva fiscalização” para a salvaguarda da qualidade da aguardente tradicional, produzida em Sano Antão, há mais de 300 anos, e com “um peso enorme” na economia santantonense.

A produção do grogue em Santo Antão ronda, atualmente, os dois milhões de litros por ano, numa ilha onde a quase totalidade da área de regadio (mais de um milhar de hectares) é coberta por cana-de-açúcar.

A necessidade de se apostar num laboratório de controlo da qualidade e certificação do grogue em Santo Antão constitui outra preocupação dos produtores e da própria Confraria do Grogue (Congrogue), projeto que, segundo a associação dos municípios desta ilha, deve ser concretizado no ano que se aproxima.

SAPO c/ Inforpress