Durante muitos anos, a supremacia da China no ténis de mesa era explicada pela forma secreta como os jogadores se preparavam, chegando aos torneios para arrebatarem a maioria das medalhas e títulos.

Este ano, a Associação de Ténis de Mesa da China (uma importante organização, num país com 80 milhões de jogadores) anunciou que pretende criar um centro de treino aberto a jogadores internacionais que pretendam aperfeiçoar as suas técnicas e modos de jogo.

“Queremos fazer como a Associação de Basquetebol dos EUA, que convida jogadores de todo o mundo e, com isso, melhorou muito a qualidade do desporto”, anunciou recentemente o secretário-geral da Associação de Ténis de Mesa da China, Yang Shu’an.

Esta mudança de atitude no ténis de mesa reflete bem o novo espírito de abertura ao mundo, iniciada no mandato do Presidente da China, Xi Jinping, que na terça-feira começa uma visita de Estado a Portugal.

O Presidente da China tem feito vários périplos por diferentes continentes anunciando os projetos de internacionalização da economia e da cultura chinesas e vem a Portugal dizer por que este país está na primeira linha dos planos chineses.

Quando apresentou a ideia do Plano “Belt and Road”, conhecido como a nova Rota da Seda, em 2013, Xi Jinping apresentou um mapa com um duplo corredor, para estabelecer novas rotas com o Ocidente (em particular com a Ásia Central, o Médio Oriente e a Europa) mas também passando por África.

Com um orçamento inicial de cerca de 900 triliões de euros / 1024 triliões de dólares (um número astronómico, mesmo para as medidas chinesas), a Rota da Seda inaugura uma nova era de globalização para a China, com um arrojado plano de investimento em 68 países.

O plano “Belt and Road” aposta muito na criação de infraestruturas físicas - como estradas, caminhos de ferro, aeroportos - mas também infraestruturas digitais – como operadoras de telecomunicações e formas de acesso à Internet.

O objetivo da China é desenvolver rotas de comércio que sejam capazes de impulsionar a economia mundial, apostando no desenvolvimento de regiões mais pobres e estabelecendo laços de cooperação com os países mais ricos da Europa central.

Portugal está na linha da frente deste projeto de expansão chinesa, com o investimento a começar desde 2006 e em crescimento constante na balança comercial dos dois países.

O vice-ministro chinês dos Negócios Estrangeiros Wang Chao lembrou recentemente que as duas partes têm cooperado "ativamente" na América Latina e África, através do Fórum para a Cooperação Económica e Comercial entre a China e os Países de Língua Portuguesa, estabelecido em Macau, em 2003.

Wang Chao lembrou ainda que Portugal foi o primeiro país da UE com que a China estabeleceu uma "parceria azul", depois de terem assinado um plano de ação para colaborarem na investigação e em projetos comerciais, no âmbito da economia do mar, que está a ser replicado com outros países europeus.

“Portugal é importante para a China por duas razões: pela sua influência em África e pela porta de entrada privilegiada na Europa comunitária”, explica António Rosas, investigador de cultura chinesa na Universidade de Birmingham.

O investimento chinês de grande montante em Portugal, sobretudo a aquisição de 21% da EDP pela empresa China Three Gorges, foi muito incentivada pela ‘troika’, no período de assistência financeira internacional a Portugal, e apoiada pelo governo alemão de Angela Merkel.

Contudo, recentemente, a chanceler alemã revelou alguma preocupação com o aumento da presença económica chinesa na Europa, nomeadamente em países financeiramente mais vulneráveis, como o caso de Portugal.

Em relação a Portugal, como em relação a Espanha (que o Presidente chinês visitou nos últimos dias), a China procura "encontrar parceiros suaves para o investimento na Europa e consolidar as suas posições", para contrapor às resistências da Europa central, explica Jean-François Di Meglio, presidente do 'think tank' Asia Centre, baseado em Paris.

A França, a Alemanha e a Itália reclamam há muito legislação que permita filtrar algumas operações de investimento, mostrando-se inquietas com a presença de grupos económicos estrangeiros, sobretudo vindos de oriente.

Pelo contrário, diz Di Meglio, a Península Ibérica é mais acolhedora, o que explica a tendência de crescimento de investimento chinês nesta região.

“A China é um parceiro económico essencial algumas áreas de negócio e a sua estratégia não pode ser descurada”, diz Nuno Botelho, presidente da Associação Comercial do Porto.

A atribuição de Vistos ‘Gold’ pelo governo português revela bem o interesse chinês em Portugal, com a entrada de mais de 195 milhões de euros / 222 milhões de dólares, nos primeiros oito meses deste ano (e que significam uma queda de 24% em relação a igual período em 2017).

Y Ping Chow, presidente da Liga dos Chineses em Portugal, olha para estes números como o resultado da maior procura de familiares de chineses que já vivem em Portugal: “Apesar de os salários não serem muito bons, é um lugar bom para viver, com pessoas simpáticas, que nos tratam bem”.

Com os setores de transportes e da energia no topo da agenda do plano da Rota da Seda, Portugal é um lugar apetecível para o investimento chinês, o que ajuda a compreender a aquisição de posições chinesas em empresas como a EDP, a REN, ou a TAP.

Outra das razões apontadas por analistas para o interesse da China por Portugal é a sua influência em África, nomeadamente nos países de expressão portuguesa, onde também a questão das infraestruturas físicas e digitais é ponto de interesse prioritário.

Isso ajuda a explicar por que o governo chinês anunciou um elevado investimento num novo aeroporto no sul de Moçambique, cujas obras de construção, com financiamento chinês de cerca de 50 milhões de euros, estão agora a começar.

Mas a China tem muitos outros planos de investimento para Angola e Moçambique, no setor de transportes, energia e telecomunicações, contando com a influência de Portugal para ajudar à sua implementação, com alguns desses projetos a terem sido discutidos quando da recente visita do Presidente de Angola, João Lourenço, a Portugal.

“Há muitos séculos que os chineses aprenderam que o controlo das comunicações é o controlo da economia”, explica António Rosas, para justificar por que as empresas de telecomunicações chinesas estão a formar autênticos monopólios em África, nomeadamente com a ajuda política de Portugal, país que consideram pelo prestígio que tem em várias regiões da sua nova rota de comércio.