O surto do novo coronavírus, designado Covid-19, expôs o estado atual do sistema de saúde chinês, "sobrecarregado, ineficaz, caro e caótico", no que "pode exacerbar a oposição da opinião pública chinesa à ajuda financeira ao exterior", disse Xun Zhou, professora de História moderna da China na Universidade de Essex, no Reino Unido.

A assistência financeira de Pequim ao exterior é frequentemente alvo de críticas no país, onde dezenas de milhões de pessoas continuam a viver abaixo do limiar da pobreza ou sem acesso ao ensino e saúde.

"Essas críticas existem desde as décadas de 1960 e 1970, quando a China era um país extremamente pobre, mas ajudava os países africanos", observou Zhou, numa entrevista por telefone.

Segundo a investigadora, "entre os jovens chineses existe também algum desconforto pela atribuição de bolsas de estudo a estudantes de países africanos, quando os alunos chineses têm cada vez menos acesso a apoios".

A China é já o segundo maior destino para estudantes africanos, a seguir a França, atraindo centenas de estudantes oriundos dos países africanos de língua oficial portuguesa.

Em 2018, o Presidente chinês, Xi Jinping, anunciou, na abertura da cimeira do Fórum de Cooperação China-África, um pacote de 60 mil milhões de dólares (51 mil milhões de euros) para países africanos, no formato de assistência governamental e de investimento e financiamento de instituições financeiras e empresas.

Na altura, a imprensa estatal chinesa minimizou a informação e os portais noticiosos do país encerraram as caixas de comentários àquele anúncio, após internautas terem manifestado insatisfação.

Eric Olander, jornalista especializado nas relações entre China e África, radicado em Xangai, descartou, no entanto, que a sociedade chinesa estabeleça agora uma relação entre as carências do seu sistema de saúde e os empréstimos concedidos ao exterior, devido ao aparelho de censura chinês.

"Não é algo que entre na conversa do dia a dia, ou que académicos ou outros analistas explorem, porque é demasiado sensível politicamente", referiu à agência Lusa.

O fundador do portal The China Africa Project reconhece que tem havido algumas "queixas" sobre a assistência ao exterior, ao longo dos anos, mas que estas são rapidamente abafadas.

"Isto tem também a ver com o facto de a China, tal como os Estados Unidos, não fazer um bom trabalho a explicar os seus programas de assistência externa à população", notou.

"As pessoas tendem a sentir que se trata de caridade, mas não. Parte significativa do montante anunciado em 2018 não é ajuda, mas sim empréstimos, pelos quais os bancos chineses cobram juros", apontou.

Segundo a unidade de investigação China AidData, desde 2000, Pequim concedeu mais de 110.000 milhões de dólares (94.000 milhões de euros) em financiamento aos países africanos, rivalizando agora com os Estados Unidos como principal credor do continente.

Durante o Fórum China-África, em Pequim, Xi Jinping prometeu ainda um perdão das dívidas que venceriam no final deste ano para os países mais pobres do continente africano e 50 mil bolsas de estudo destinadas aos jovens africanos.

Os empréstimos chineses inserem-se no projeto internacional de infraestruturas lançado pela China, a Nova Rota da Seda, que inclui uma malha ferroviária intercontinental, novos portos, aeroportos ou centrais elétricas, visando conectar Europa, Ásia Central, África e sudeste Asiático.

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