Por estes dias, apenas cinco das 35 motosserras da Bertoua Consulting, uma empresa de corte de madeira do leste dos Camarões, estão a ser usadas. 90% das atividades da empresa foram reduzidas porque as empresas exportadoras de madeira da China estão ausentes.

O diretor executivo, Innocent Tataw, está à procura de alternativas para que os 35 trabalhadores da empresa e respetivas famílias possam sobreviver. "As empresas que contrataram os nossos serviços já não estão por cá há cerca de três semanas e andamos a empilhar a madeira há algum tempo. A madeira já devia estar na China agora, depois de passar por Douala. Agora sou obrigado a derrubar árvores e a vender lenha aos bairros de Bertoua e nas cidades vizinhas para garantir a sobrevivência das famílias dos meus trabalhadores e a minha. Esta questão do conoravírus já é um colapso económico", conta.

A Bertoua Consulting é apenas uma das empresas na África Central que a Comissão Económica das Nações Unidas para África (UNECA) diz estar a ser ameaçada pela pandemia de COVID-19. Segundo Antonio Pedro, diretor da UNECA para a África Central, prevê-se que o continente africano reduza o crescimento previsto para este ano para quase metade, passando de 3,2% para 1,8%.

"Esta crise expôs novamente a vulnerabilidade da nossa sub-região a choques externos", sublinha. "A maioria das nossas rotas de procura e oferta estão ligadas a alguns epicentros do coronavírus. Por exemplo, a China é o principal parceiro comercial de África e a Europa é o segundo maior parceiro comercial. Temos visto os preços do petróleo descerem de 65, 60 dólares para 30 dólares e, como resultado, países como a Nigéria, Angola, Argélia, Congo, Guiné Equatorial, Gabão e Chade têm sido muito afetados porque o petróleo representa uma componente muito importante da sua produção e exportação na estrutura económica", explica Antonio Pedro.

Consequências devastadoras

As consequências serão ainda mais devastadoras com o encerramento das fronteiras e a imposição de requisitos mais rigorosos de quarentena para conter a propagação do vírus. Além disso, as cadeias de abastecimento globais serão interrompidas.

O diretor da UNECA para a África Central diz que as colheitas já se estão a acumular, o que significa que os agricultores que contam com as exportações ficarão ainda mais pobres. "Outras mercadorias também foram afetadas: café, cacau, madeira, óleo de palma. Todas as projeções indicam que como a procura nos principais países importadores vai cair, porque as fábricas vão fechar, esses preços também estão a ser revistos em baixa e isso significa, portanto, que mesmo os países que não são países exportadores de petróleo podem ser afetados", destaca.

A indústria do turismo já está parada em todo o continente africano. Por isso, os especialistas da UNECA propõem que África diversifique a sua economia e deixe de depender dos países desenvolvidos - a começar pelo arroz, que pode ser cultivado localmente. Só no ano passado, os Camarões importaram 720 mil toneladas de arroz da China, apesar de ter capacidade de cultivo.

UE acompanha situação em África

A covid-19 já causou mais de 13.400 mortos no mundo desde que apareceu em dezembro, na China, e há mais de 308.130 casos de infeção oficialmente diagnosticados em 170 países e territórios.Em África, há mais de 1.100 casos de Covid-19 em 40 países e territórios, com registo de 38 mortes, de acordo com os dados mais recentes. A China anunciou esta segunda-feira (23.03) que voltou a não registar novas infeções locais pelo novo coronavírus.

O presidente do Conselho Europeu, Charles Michel, já garantiu que a União Europeia (UE) está a acompanhar os desenvolvimentos do surto no continente africano e assegurou a solidariedade do bloco perante um “vírus sem fronteiras”.

“Assegurei aos meus homólogos mauritano e nigeriano a atenção que a UE está a prestar ao desenvolvimento da pandemia de Covid-19 em África”, escreveu o responsável na rede social Twitter. Segundo Charles Michel, “perante um vírus sem fronteiras, a ação faz tem sentido se for coordenada, assim como a solidariedade só tem sentido se for global”.

O líder do Conselho Europeu conversou domingo (22.03) com os Presidentes da Mauritânia, Mohamed Ould Ghazouani, e da Nigéria, Mahamadou Issoufou, dado o adiamento da conferência sobre o Sahel, que se iria realizar em Bruxelas esta semana, mas foi adiada devido à pandemia. “O Sahel é uma prioridade para a UE e não vamos desistir”, prometeu Charles Michel.

por: Moki Kindzeka, ms, Agência Lusa

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