O pedido de ajuda de Angola ao FMI exemplifica o novo ciclo africano, cujas economias deixaram de ter uma "extraordinária resiliência", penalizadas pelos erros de política económica, evidenciados pela significativa descida do preço do petróleo.
"Estes países tiveram de ir de chapéu na mão às instituições financeiras multilaterais pela simples razão de que as suas economias viram o tapete ser-lhes puxado de repente", comentou à agência financeira Bloomberg um sócio da consultora britânica Lauressa Advisory.
Nicholas Spiro acrescentou que "as deficiências institucionais e estruturais ficaram reveladas, até porque muitas destas economias africanas nunca pouparam para os tempos sombrios e agora chove a potes".
As declarações do consultor exemplificam as dificuldades que várias nações africanas, começando por Angola, mas também a Nigéria, o Gana, Moçambique, o Quénia e a Zâmbia.
Só no último ano, Angola, Moçambique, Gana e Quénia já recorreram ao Fundo Monetário Internacional, e a Nigéria, a maior economia africana, está a explorar as opções para uma emissão de dívida internacional, possivelmente em moeda chinesa, e um empréstimo de mil milhões de dólares do Banco Mundial.
Menos de dois anos depois de a líder do FMI, Christine Lagarde, ter elogiado África pela sua "extraordinária resiliência", algumas das principais estrelas do continente parecem agora, assim, menos brilhantes.
"O principal fator que realmente correu mal nos últimos anos foi que, com dinheiro fácil e disponível por causa das taxas de juro globalmente baixas, e com os investidores à procura de lucros maiores, a qualidade da política económica não foi suficientemente tida em conta", explicou o chefe do departamento de pesquisa africana no banco Standard Chartered.
"Com o virar do ciclo, estamos agora a ver que a política económica de facto interessa", vincou Razia Khan.
A abrupta e continuada redução no preço do petróleo desde o verão de 2014 desequilibrou as finanças de vários Estados africanos habituados a ter na exportação desta matéria-prima uma fonte de receitas tão significativa que desencorajava qualquer tentativa de diversificação da economia.
A redução nas receitas fiscais, a desvalorização da moeda, a que se juntam problemas internos como a fraca qualidade da governação pública e questões mais específicas, como a prolongada seca e as dúvidas do FMI sobre as finanças de Moçambique ou os problemas de saúde pública em Angola, obrigaram os governos a recorrerem aos mercados internacionais para compensar essa quebra nas receitas.
As altas taxas de juro cobradas pelos investidores durante a última década ajudaram os africanos a 'ignorarem' o FMI e lançarem-se no mercado financeiro internacional, mas tornaram-se incomportáveis com a descida do preço das matérias-primas para os valores mais baixos dos últimos 17 anos, e essas instituições financeiras tornaram-se o último recurso para uma região que vai crescer apenas 3% este ano, o valor mais baixo da última década.
Lusa
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