A média de 15.3 pontos marcados por jogo é mais um número nas impressionantes estatísticas que fazem a jovem de 1.85m ser apontada pelos treinadores da equipa como destaque. O mesmo já acontecia o ano passado, em Maputo, quando a FIBA apontou-a como um dos destaques do AfroBasket sub-18. E ela não só joga bem como joga bonito, tendo sido escolhida a top #1 numa das NikeTopPlays do evento, no jogo contra o Quénia, o único que Cabo Verde ganhou na competição

Campeã nacional aos 16 anos, Joseana Vaz tornou-se exemplo a seguir pelos seus irmãos. As duas mais novas e o irmão mais velho, agora também jogam basquete, e com o apoio da família. Meninas e jovens cabo-verdianas também seguem as suas pisadas e sonham repeti-las um dia.

A jogar actualmente pelo GDESSA Barreiro (Portugal), a jovem tem já sobre a mesa a possibilidade de rumar aos Estados Unidos da América com uma bolsa de estudos que incluiu ingresso numa equipa de basquetebol. Ao mesmo tempo que olha para o futuro, recorda os primeiros passos numa pequena equipa do seu bairro e ganha consciência daquilo que representa para dezenas de meninas que estão agora a iniciar essa caminhada.

Dezanove anos de idade e tanta coisa já te aconteceu.

Pois… No ano passado estreei-me no AfroBasket sub 18. Também participei dos Jogos da CPLP. E este ano...ainda melhor. Estou no escalão sénior e a jogar com as top do basquetebol africano. É muito bom porque estou a aprender muitas coisas. Tem sido uma experiência óptima.

Começaste a jogar basquetebol no teu bairro, não há tanto tempo assim. Conta-nos um pouco do teu percurso.

Comecei numa equipa da minha zona no ano em que foi formada, tinha eu 10 anos. O meu treinador era o Bruno Barros, que também jogava basquete. Daí comecei a frequentar o Gimno Desportivo Vavá Duarte. Fui evoluindo... Aos 15 anos já jogava numa equipe sénior. No ano seguinte, com 16, ganhei o campeonato com o ABC. Nesse mesmo ano participei nos Jogos da CPLP e algumas pessoas que me viram jogar, gostaram, e convidaram-me para ir jogar em Portugal. Fui e joguei numa equipa de Torres Novas, e depois outra do Barreiro. Fiquei fora uns dois anos. Este ano, terminei o escalão sub 19 com um campeonato nacional, o que é óptimo. E agora estou aqui, no AfroBasket. Espectacular.

E como foi a experiência? Sei que o objectivo era chegar pelo menos aos quartos de final, o que não conseguiram. O que tiras desta participação?

Tiro que precisamos nos preparar ainda mais. Temos um plantel variado, cheio de talentos mas, penso que o que mais nos falta é um poste bem alto. Somos pequenas em comparação com as outras selecções. Tiro que não estamos despreparadas, mas sim temos essa desvantagem. Vi que as outras equipas têm talento e muita força, um bom nível técnico.

Nos últimos anos vem aumentando as iniciativas de ensino do basquetebol às crianças, mesmo nos bairros ditos periféricos e inclusive as meninas de nove/dez anos, que antes não recebiam grandes incentivos para treinarem basquetebol.

Se não tivesse conhecido o meu primeiro treinador... Se ele não tivesse tido a iniciativa de criar sozinho uma equipe na minha zona... Não sei onde estaria. Eu gostava de futebol e jogava futebol na rua. Nunca tinha pensado em jogar basquetebol mas, um dia fui... Nunca pensei que mudaria tanto a minha vida. Não imaginei que viajaria tanto por jogar basquetebol. Já estive em Moçambique, Senegal, Portugal ... E agora a oportunidade de ir aos Estados Unidos. Quando comecei a jogar, pequenina, nunca pensei que isso me aconteceria. E isso tudo aconteceu porque comecei a jogar numa equipa que alguém decidiu criar na minha zona.

Tens a noção de que és um exemplo para meninas que agora jogam ou sonham jogar basquetebol? Que elas podem olhar para ti como um exemplo a seguir?

Sim! Tenho consciência disso. Recebo mensagens de meninas que me dizem que querem ser como eu, e dou-me conta de que sou um exemplo e tenho que mostrar que o trabalho que se faz “na zona” é importante. E, como no caso do meu primeiro treinador, é um trabalho sem apoios, em que se faz quase tudo sozinho. Bem, passados estes anos, aquela equipa evoluiu, as coisas melhoraram, conseguiram patrocínio. As minhas duas irmãs mais novas agora jogam basquetebol ali também. E o meu irmão mais velho também começou a jogar.

A tua família apoiou-te sempre?

Quando comecei a jogar basquetebol a minha família não punha muita fé naquilo e não ligava muito. Depois começaram a perceber que eu tinha talento e que poderia fazer algo da minha vida a partir do basquetebol. Agora eles me apoiam e o meu pai apoia as minhas irmãs a jogarem basquetebol (risos).

E tu, quando crescias, tinhas jogadoras que seguias e que te inspiraram a continuar no basquetebol?

Para ser sincera eu não acompanhava o que se passava no basquetebol. Mesmo agora, continuo a não seguir muito. Mesmo jogos da NBA só vejo raramente... Eu sou uma pessoa algo tímida, que gosta de estar no seu canto. Mas também gosto de brincar, fazer “doidices”...

Como encaras o futuro? O que de mais ambicioso pensas alcançar?

A minha visão para o futuro é ser uma jogadora profissional, a tempo inteiro. Já há nos Estados Unidos uma escola que me ofereceu uma bolsa, esperando que eu vá para lá em Janeiro do próximo ano. Mas há outras possibilidades e ainda estou a ponderar.

Depois da experiência em Portugal, estás preparada para este novo desafio?

Estava sozinha (tenho lá familiares, mas fiquei no internato do clube de basquete) e com o primeiro impacto o que pensei foi: “quero voltar para casa!”. A rotina era: estudar, treinar, casa.

Nos EUA, basicamente, vai ser também assim.

Estou preparada. Já enfrentei isso há três anos, já sei como é. Será um pouco diferente, mas vou encarar.

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