O futebol mundial, na esmagadora maioria, foi suspenso, devido ao surto do novo coronavírus. O futebol africano não foi exceção à regra. A Confederação Africana de Futebol (CAF) suspendeu todas as competições em março. A situação no continente é complicada e difere muito das realidades na Europa.

África já travou lutas, recentemente, com outras epidemias, como por exemplo, o surto de ébola, em março de 2014, o período mais mortífero da doença desde a origem detetada em 1976. Durante o surto, a CAF optou por não suspender o futebol. Os jogos nos países onde a epidemia eclodiu foram deslocados, para evitar uma ameaça regional.

Tendo em conta o pesado histórico de surtos, pode-se afirmar que, para já, o continente africano não está a sofrer com a pandemia do coronavírus, como outros continentes. Até ao dia 11 de maio, África tinha registado pouco mais de 64.500 casos de Covid-19 e cerca de duas mil mortes, números que ficam na sombra das taxas de infeção e mortalidade registados na Europa e no continente norte-americano.

Apesar das previsões alarmantes sobre os potenciais impactos da crise sanitária, foi levantada a questão de saber se o futebol africano pode regressar.

Recomeço sem data

Ahmad Ahmad, presidente da CAF, em entrevista à DW África, salientou a diferença de contexto, salientando que não é fácil tirar conclusões, devido à pequena quantidade de testes realizados.

"Como podemos observar, o rácio de testes que têm sido realizados nestes países é alarmante, porque falta-nos visibilidade na gestão desta pandemia", afirmou.

Como resultado, a CAF continua a ser cautelosa. Ahmad tem sido claro quanto ao futuro de um provável recomeço do futebol. Para o dirigente máximo do futebol africano, há algo mais importante para o povo africano neste momento.

"Há falta de visibilidade. Temos de esperar. Como presidente, convido todos a terem muito cuidado e a esperarem que a situação normalize, dentro do possível. Para além disso, também não quero que o futebol seja uma fonte de desestabilização para as medidas de precaução tomadas pelos vários governos, na luta contra esta pandemia", acresentou Ahmad Ahmad.

CAF ajuda na luta contra a pandemia ao manter o futebol suspenso

Ahmad confirmou à DW, que as competições não serão retomadas, enquanto a situação da Covid-19 em África não estiver controlada. As ligas e taças tinham até 5 de maio para dizer ao órgão dirigente como iriam proceder.

As decisões foram, sem surpresas, muito diversas. A maioria dos países cancelou os campeonatos sem vencedores, despromoção ou promoção. A Mauritânia suspendeu o campeonato até setembro. Já a Tanzânia, tenciona retomar o campeonato, à porta fechada, enquanto o Burundi reiniciará a sua actividade a 1 de junho.

Para os clubes que se encontram em dificuldades, a CAF procura soluções e formas de prestar apoio em conjunto com as autoridades de cada país, segundo Ahmad. Entretanto, a confederação tem prestado ajuda financeira aos clubes em competições continentais, "libertando muito rapidamente o dinheiro dos prémios, sem esperar pelo final da época".

Impacto financeiro para o futebol africano

Quanto às repercussões financeiras a curto prazo, os clubes africanos são frequentemente propriedade de empresários milionários que investem os seus fundos pessoais e, por conseguinte, não têm as mesmas obrigações que os seus homólogos europeus.

Embora a crise tenha um impacto a nível nacional, em geral, os clubes não terão necessariamente de reiniciar as ligas para pouparem a nível financeiro, uma vez que não há tanta liquidez no desporto.

As competições de clubes continentais, como a Liga dos Campeões de África e a Taça das Confederações, não geram tanto dinheiro como as competições europeias. Os acordos de direitos televisivos para as competições permanecem relativamente baixos e a maioria dos clubes só obtêm lucros se chegarem às semifinais.

O bónus de qualificação para as fases de grupos da Liga dos Campeões de África entre 2017 e 2020 foi de 507.705 euros. Entretanto, o vencedor em 2019, o Tunísia Esperance Sportive de Tunis, embolsou uma soma de dois milhões de euros.

É um pouco menos de meio milhão de euros do que as equipas europeias recolhem para uma vitória na fase de grupos da UEFA Champions League. Entretanto, o ES Tunis's Liverpool terá embolsado um total de 74,35 milhões de euros durante a campanha do título em 2019.

Solidariedade contra a Covid-19

Ahmad salientou a solidariedade espontânea demonstrada pela família do futebol africano. Antigos futebolistas como Samuel Eto'o e Didier Drogba, assim como estrelas atuais, como Sadio Mané e Mohamed Salah, contribuíram financeiramente, de forma significativa, para a luta contra a pandemia no continente e participaram em várias campanhas de sensibilização sobre medidas preventivas, como a lavagem das mãos e o uso de máscaras.

Enquanto não for encontrada uma saída para a crise da Covid-19, o futebol não será a prioridade do continente africano. Para Ahmad, "a prioridade é a saúde". Se esta crise persistir, é como qualquer fenómeno da vida humana". Não podemos enviar os nossos jovens para a morte", finalizou, em entrevista à DW.

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