O colectivo vinha de uma longa travessia do deserto: seis anos sem campeonato nacional, o que paralisou o funcionamento da selecção. Ainda assim, menos de um ano depois, o “coach”, como é carinhosamente tratado pelas suas jogadoras, conseguiu cumprir o objectivo de levar a equipa ao Afrobasket Dakar 2019. Ali chegados a meta já era outra, mais ambiciosa. Não conseguiu atingir mais esse objectivo mas, não baixa os braços. O momento é de avaliar o trabalho feito e começar já a edificar o futuro.

Que balanço faz da participação de Cabo Verde no Afrobasket Dakar 2019, partindo das expectativas que tinha para a selecção cabo-verdiana?

Estamos no segundo dia depois da nossa eliminação da competição, então o sentimento ainda é de frustração e de alguma decepção por não termos conseguido atingir o objectivo que tenho a sensação que “estava lá”. Era possível. O objectivo era chegar aos quartos de final porque aí estariamos entre os seis primeiros lugares, o que nos daria acesso a mais uma competição. Sei que a equipa está a sentir que chegamos perto e temos consciência de que poderiamos ter ido mais longe. Então o sentimento maior é de frustração. Não tenho nada do que me queixar do grupo: a entrega destas jovens ... É uma equipe batalhadora, em campo deram tudo de sí, mesmo estando em desvantagem em vários aspectos, particularmente em termos de estatura. Via a sua luta, a sua entrega, e ficou claro que deram tudo o que podiam. Isso deixa-me satisfeito porque é uma equipa com essas caracteristicas que quero. Nessa caminhada temos que ser cada vez mais fortes, sabendo que estamos em desvantagem em termos físicos. O que pode cancelar ou equilibrar um pouco esta desvantagem é ser mentalmente forte. A equipa cresceu nesse aspecto. Estamos a bater à porta e sentimos que podemos entrar.

Como acha que as equipes adversárias vos vêem depois dessa participação?

Os adversários nos vêem com outros olhos. Com muito mais respeito. Ouvi de outros jornalistas que as outras equipas estavam convencidas de que iamos ganhar à RDC. Faz-nos sentir bem, porque queremos criar nome e para isso os adversários têm que nos ver com mais respeito. TMas estávamos já conscientes disso. De que temos talelento não apenas para chegar aqui e competir mas também para ganhar jogos. E é isso que nos tem um pouco decepcionados, porque sabemos que podiamos estar ainda em competição.

Acredita então que o facto de ter uma equipe com jogadoras de baixa estatura não é um impedimento para chegar mais longe.

É um jogo de povos. E nós somos um povo de baixa estatura. Sabemos que isso sempre será parte da equação e que teremos que melhorar a nossa selecção nesse aspecto. Havia atletas (mais altas) que poderiam ter cá estado mas não conseguiram devido a lesão e a assuntos pessoais. Deixaram falta. Isso vem à cabeça neste momento: “Ah, se tivessemos cá a Jenifer Monteiro... Se a Áurea estivesse recuperada da sua lesão...”. São jogadoras que, pela sua estrutura física, ajudariam. Quando é assim significa que outras têm que cumprir um papel ainda mais dificil. Penso que isso também contribuiu para a quebra física que algumas jogadoras tiveram por jogarem um pouco fora das suas posições habituais, e assim tiveram que batalhar muito mais. Uma delas foi a Ornela, que jogou lesionada contra a RDC. Embora nesse jogo também tenhamos cometido algumas falhas, nomeadamente não termos conseguido cancelar a vantagem de estatura que a equipa apresentava. Já sabiamos que elas iriam usar dessa vantagem. O que deviamos ter feito era pressionar bem a portadora de bola do adversário de modo a que ela não conseguisse passar a bola às jogadoras maiores. Falhamos na execução dessa estratégia. Mas pronto, o basquete também é um jogo emocional e às vezes não conseguimos cumprir da melhor forma.

Queixou-se da arbitragem e de incumprimento de regras.

Basquetebol tem regras e a regra dos três segundos (em que um jogador não pode ficar parado dentro do garrafão por mais do que três segundos) se não a cumprirmos a equipa com jogadoras mais altas e mais fortes ganha sempre, por usar a vantagem estando junto ao aro. A minha queixa é contra a arbitragem. Não me queixo da equipe da RDC, eles fizeram o que deviam ter feito. O árbitro é que não podia ter permitido. O facto de terem deixado de cumprir regras criou-nos dificuldades.

E agora? O que acontece daqui para frente e como se irão preparar para os próximos embates? O Afrobasket 2021 é uma meta.

Sim, claro. Mesmo no período que atravessamos sem competir, estes últimos seis anos, eu como treinador e a maioria destas atletas continuamos a nos preparar, à espera de que a situação melhorasse e acreditando que voltariamos a participar numa competição internacional. E foi isso que aconteceu e por isso entramos bem e a competir com garra porque estivemos todo esse tempo a trabalhar, mesmo que periodicamente, em grupo. Porque estavámos à espera dessa oportunidade. Agora que sabemo que temos uma federação que acredita no basquete feminino, iremos fazer a avaliação da nossa participação aqui e logo começar a preparar-mo-nos para as próximas competições. Esperamos ter oportunidade de competir no próximo ano, mesmo que sejam torneios amigaveis, algo que nos permita manter o nível. Claro que teremos que melhorar a equipa, recuperar as atletas lesionadas e conseguir a aprovação da FIBA quanto a atletas da diáspora que, acreditamos, será favorável. Como treinador é esse o meu foco: melhorar a equipa e conseguir manternos em competição. Se formos esperar apenas pelo Afrobasket, que é  de dois em dois anos, não teremos o time preparado em termos de frequência de jogos. Recebemos convite do Senegal para participarmos de um torneio prévio ao Afrobasket e infelizmente não estavamos em condições de aceitar, por razões financeiras. Todas as equipas que participaram desse torneio passaram agora à próxima ronda do Afrobasket. É o problema do basquete feminino e de qualquer desporto em Cabo Verde. Não há condições financeiras, não há investimento que chegue. Não tivemos a melhor preparação porque não tinhamos condições: poucos dias de treino colectivo. Há jogadoras na diápora, nas ilhas... o tempo juntas é muito pouco. Quanto mais tempo a trabalharmos juntos, melhor o preparo. Sei que a Federação está a trabalhar duramente para termos as melhores condições. Contudo, nós estamos aqui a representar o país, e quem tem o poder tem que ter um pouco mais de mão na massa e garantir-nos melhores condições. Eu acredito que podemos chegar mais longe mesmo sem nos darem essas condições mas, claro que com melhores condições poderemos passar isso às atletas e sei que isso faz diferença. Mas acredito que isso no futuro irá melhorar.

*A jornalista acompanhou o Afrobasket Dakar 2019 a convite da Federação Cabo-verdiana de Basquete, com o patrocínio da ONU Mulheres Cabo Verde

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