Dados disponibilizados anteriormente pelas autoridades britânicas indicavam que pelo menos 21 pessoas tinham estado expostas ao agente neurotóxico, um componente químico que ataca o sistema nervoso e que pode ser fatal.

Este número não incluía Serguei Skripal, a sua filha Yulia e um polícia, que estão hospitalizados.

O inspetor-chefe adjunto da polícia do condado de Wiltshire (que integra a cidade de Salisbury), Paul Mills, confirmou hoje que foram identificadas 131 pessoas que estiveram expostas ao agente neurotóxico e que “cada uma foi contactada para garantir o respetivo estado de saúde”.

“Nenhuma delas desenvolveu qualquer sintoma que indique que estiveram em contacto com o agente”, acrescentou o responsável, salientando que a natureza e a magnitude desta investigação “não têm precedentes”.

A polícia de Wiltshire também confirmou hoje que 46 pessoas foram ao hospital daquela cidade por receio de uma eventual contaminação.

Os serviços de saúde britânicos esclareceram, entretanto, que consideram como improvável que as roupas e os objetos daqueles que tenham almoçado ou tenham bebido no mesmo restaurante e no mesmo bar em que estiveram Serguei Skripal e a sua filha possam ter sido contaminados.

As autoridades reiteraram que, até agora, apenas o ex-espião, a filha e o polícia identificado como Nick Bailey apresentaram sintomas de intoxicação.

A diretora regional do organismo britânico de saúde pública, Jenny Harries, insistiu que “o risco para os cidadãos é baixo”.

“Só existem três casos no hospital. Nenhum cidadão foi afetado e esta é uma mensagem importante”, salientou a responsável.

De forma a gerir os receios dos cidadãos, funcionários da câmara de Salisbury e os serviços sanitários locais vão deslocar-se no sábado ao mercado semanal local para tentar esclarecer as dúvidas dos habitantes.

No terreno, quase 500 efetivos da polícia e cerca de 200 militares prosseguem os trabalhos de investigação, segundo o inspetor-chefe adjunto da polícia do condado de Wiltshire.

Paul Mills indicou ainda que o isolamento da área afetada poderá prolongar-se por vários meses.

As autoridades de Salisbury já admitiram que este incidente pode prejudicar a reputação internacional de Salisbury, uma cidade com uma componente turística, e ter um impacto negativo na economia da localidade.

A par da investigação interna, Londres decidiu enviar uma amostra do agente neurotóxico para a Organização para a Proibição das Armas Químicas (OPAQ), organismo da ONU.

O ex-espião duplo de origem russa Serguei Skripal, de 66 anos, e a sua filha Yulia, de 33 anos, foram encontrados inconscientes no dia 04 de março, num banco num centro comercial em Salisbury.

Dias depois, o chefe da polícia antiterrorista britânica, Mark Rowley, revelou que o ex-agente duplo russo e a sua filha tinham sido vítimas de um ataque deliberado com um agente neurotóxico.

Os dois têm permanecido hospitalizados, nos cuidados intensivos, em “estado crítico, mas estável”.

Também hospitalizado está um polícia, um dos primeiros a chegar ao local para socorrer o ex-espião russo e a sua filha. O elemento das forças policiais está consciente e encontra-se em “estado grave, mas estável”.

Informações vinculadas pelas autoridades britânicas referiram que as vítimas tiveram contacto com uma substância conhecida como Novichok, uma arma química desenvolvida pela então União Soviética no final do período da Guerra Fria.

Este caso está a provocar um clima de forte tensão entre a Rússia e o Reino Unido, com Londres a acusar Moscovo de ser responsável pelo envenenamento do ex-espião.

Na quarta-feira, a primeira-ministra britânica, Theresa May, anunciou várias medidas de retaliação visando a Rússia, incluindo a suspensão de contactos bilaterais de alto nível com Moscovo e a expulsão de 23 diplomatas russos do Reino Unido.

A Rússia nega qualquer implicação no caso e o chefe da diplomacia russa, Sergei Lavrov, já assegurou que Moscovo está a preparar medidas para responder a Londres e que estas serão anunciadas em breve. Entre essas medidas estará a expulsão de diplomatas britânicos do território russo.

Este caso está a merecer a condenação internacional e, na quinta-feira, os líderes de França, Alemanha, Estados Unidos e Reino Unido repudiaram, em conjunto, a utilização do agente neurotóxico Novichok como uma “violação do direito internacional” e uma “ameaça à segurança de todos”.