“A estrada já era”, afirma Marcelino Francisco a meio da viagem entre Chimoio e Beira, no regresso à sua cidade natal dez dias depois de o ciclone Idai ter atingindo o centro do país. Foi há um ano, na madrugada de 14 para 15 de março, e afectou dois milhões de pessoas e destruiu uma área de mais de três mil quilómetros quadrados.

Nesse dia de regresso à Beira, acompanhamos Marcelino. Entre dois autocarros, uma mototáxi e muitos caminhos enlameados e alagados, vimos negócios a fazerem-se na oportunidade de carregar sacos ou ajudar quem não queria molhar os sapatos. Ouvimos cantares de cortejos fúnebres e histórias de pessoas que procuravam corpos de parentes desaparecidos nas cheias. Ao fim de 16 minutos e meio de vídeo e duzentos quilómetros, chegámos à Beira.

Marcelino Francisco tem 24 anos e é Youtuber. Mostra-nos o regresso a casa e vai fazendo o ponto de situação da reconstrução de uma das cidades mais afetadas pelo ciclone através do seu canal.

“Eu só via estrangeiros a falar. Resolvi pegar na câmara e mostrar o que estava a acontecer”, afirma o jovem ao SAPO através de mensagens de áudio no WhatsApp. “Comecei a gravar os vídeos e achei que era uma boa forma de dar visibilidade a Moçambique na Internet. Queria que o mundo lá fora estivesse ciente do que tinha acontecido.”

Marcelino explica-nos que “as coisas não estão a cem por cento, mas estão a funcionar”. Há infraestruturas que estão a ser reconstruídas, outras que estão em locais temporários, como a sede do Governo, e outras que estão muito destruídas ainda, como a Casa da Cultura “sem telhado e que sempre que chove a água entra”. Há muitos edifícios “com muitas coisas quebradas, paredes sujas e húmidas”.

A casa de Marcelino e da sua família não foi destruída. Apesar dos vidros partidos e de alguns danos da cobertura e vedação, a casa de alvenaria e numa zona alta da cidade permitiu que a recuperação fosse rápida, mas não é exemplo. Explica-nos que “muitos perderam as suas fontes de rendimentos e não conseguiram reerguer as suas casas, outros ficaram a recuperar casas alagadas e outros tiveram de se deslocar. Não havendo sustento, a pessoa tem de se reinventar ou depender de ajuda.”

Neste momento, são dois milhões de pessoas que necessitam de assistência alimentar no país, afirma ao SAPO James Lattimer, diretor interino em Moçambique do Programa Alimentar Mundial (PAM) da ONU.

“Foi a pior altura para ter acontecido o ciclone, as colheitas iam começar e perdeu-se quase tudo, principalmente milho e feijão. Mas este ano estamos com boas expectativas. Acreditamos que a colheita vai ser boa para os que conseguiram plantar”, mas James Lattimer acrescenta logo de seguida: “De qualquer modo, há 500 mil pessoas que, mesmo que consigam plantar algo, precisam de ajuda alimentar continuada.”

Promessas não honradas cortam apoio alimentar a 525 mil pessoas

Em janeiro, o PAM começou a reduzir as rações alimentares em vários distritos das províncias de Sofala, Manica e Zambézia. Em fevereiro, interrompeu a assistência em algumas áreas destas mesmas províncias e agora em março espera cortar completamente o apoio alimentar, com exceção dos 27 campos de reassentamento, onde vivem 51 mil pessoas e para os quais há fundos previstos até junho.

“Infelizmente, temos de descontinuar o apoio alimentar na região centro porque não recebemos os fundos que precisávamos para continuar” – são necessários 48 milhões de dólares para apoiar estas comunidades nos próximos seis meses. No total, são 525 mil pessoas que ficam sem apoio alimentar.

James Lattimer é assertivo: “As entidades têm de honrar e responder às promessas que fizeram”. A promessa de 1,2 mil milhões de dólares foi feita na Conferência Internacional de Doadores, na cidade da Beira, em Junho, três meses depois dos ciclones e na presença de 700 participantes, entre eles o Banco Mundial, União Europeia, Nações Unidas e Banco Africano de Desenvolvimento. O montante era metade do que o Governo afirmou ser necessário para a reconstrução, mas o que chegou a ser doado até agora “foi menos de metade”.

“Muitas são pessoas que vivem nas comunidades, ficaram no mesmo local mas perderam quase tudo. Vivem em casas parcialmente destruídas e ficaram sem as colheitas. São dependentes de assistência humanitária. Neste momento, têm pedido que o apoio seja prolongado até junho ou julho com a expectativa de aí poderem usufruir das colheitas”, conta ao SAPO Espinola Caribe, o responsável pelo PAM em Sofala e coordenador de emergência na Beira.

Em Sofala, neste ano, as inundações afetaram 71 mil pessoas e uma avaliação preliminar do Instituto Nacional de Gestão de Calamidades estima que acima de dez mil hectares de campos agrícolas tenham sofrido danos irrecuperáveis.

“Sempre que há vento, as pessoas ficam com medo”

“Estes fenómenos vão repetir-se”, afirma João José Fernandes, presidente da Oikos, uma organização não governamental para o desenvolvimento (ONGD) portuguesa a trabalhar no terreno há trinta anos e com um projeto de recuperação agrícola a decorrer, que não tem dúvidas quanto às consequências das alterações climáticas.

Chuvas intensas na Beira lembram o
Ruas da cidade da Beira inundadas devido a chuvas intensas. 7 de dezembro de 2019 créditos: José Jeco/Lusa

E a população parece também acreditar na mesma ideia. Quem nos explica é Marcelino Francisco, que sai do Youtube para nos contar que se consulta muito a meteorologia e que há muita incerteza sempre que chove.

“Está a chover muito e sempre que faz muito vento as pessoas ficam com medo. Imaginam o dia do ciclone. Começou tudo com uma chuvinha básica e depois apareceu o ciclone. Chuva, vento e ciclone. Agora sempre que chove há uma incerteza nas pessoas. Há muitos bairros que ainda sofrem de enchentes. Há muitos bairros que estão sem sistema de esgoto. Sempre que chove há ruas alagadas…”

“A chuva está a chover até os poços começaram cuspir" é uma frase que vem escrita em Vozes Anoitecidas, o primeiro livro de Mia Couto e publicado em 1987, e esta ideia de água na cidade sempre que há chuvas parece manter-se até hoje. A memória do ciclone Claude, de 1966, também está ainda presente para muitos. “As chapas de zinco rodopiavam no ar e eram aves cegas e mortíferas”, descreve também Mia no suplemento literário do jornal britânico The Times, publicado em maio de 2019.

De qualquer forma, a ideia generalizada é que se hoje um ciclone chegasse à cidade, haveria menos estragos e formas mais imediatas de ação. João José Fernandes adianta: “É necessário criar sistemas de alerta, protocolos com a comunidade e que estruturas públicas tenham funções secundárias, como as escolas servirem de refúgio em caso de emergência, por exemplo.”

Moçambique
Benjamin Suomela Handout/Cruz Vermelha Finlandesa

É a pensar no futuro também que a Oikos arrancou no mês passado com dois projetos de dois anos para apoiar 22 500 pessoas, com o objectivo de garantir a segurança alimentar e nutricional das famílias e a restauração económica das comunidades de Sofala e Cabo Delgado, província atingida pelo ciclone Kenneth um mês depois de o Idai ter atingido a zona centro.

“Com os ciclones perderam-se as reservas de alimentos, os cultivos ainda estão muito destruídos e as pessoas não têm acesso a sementes, ferramentas agrícolas ou outros recursos que lhes permitam recomeçar. É urgente que as populações possam começar novamente a produção para não só garantir alimentos como para  ter uma forma de rendimento para si e para as suas famílias”, explica-nos João José Fernandes.

Resiliência e sustentabilidade são palavras-chave na conversa com o responsável por esta ONGD. Este trabalho pode passar ainda por “criar bancos de sementes, elevar celeiros para proteger as colheitas das cheias, criar espaços de armazenamento agrícola e pequenos sistemas de crédito”, deixando o alerta – “se a pressão alimentar for grande, toda a produção é consumida, inclusive as sementes.”

Aliada ainda à falta de segurança alimentar e à desnutrição, a zona centro enfrenta outro problema consequente: a pelagra, uma doença caracterizada pela falta de Vitamina B3 e diagnosticada em quase quatro mil pessoas. “Estamos a fazer um apelo porque precisamos de 8,7 milhões de dólares para travar esta doença”, alerta o responsável pelo PAM em Moçambique.

A violência a norte e a seca a sul

Além dos problemas ainda presentes no centro consequência do ciclone de há um ano,  a seca que afeta a região sul – 230 mil pessoas perderam a colheita pela seca – e a violência em Cabo Delgado, com centenas de milhares de deslocados, estrangulam o apoio humanitário ainda muito necessário na região central do país.

créditos: Adrien Barbier/AFP

Três meses depois do ciclone, Mia Couto, ainda no suplemento do The Times, escrevia com pesar: “Vai demorar muito tempo para a Beira se recompor. Muito tempo. Durante a maior parte desse tempo, o mundo se esquecerá da tragédia. Consumiu o drama imediato. Depois, quando as televisões se esquecerem, tudo regressará ao mesmo de sempre. Até a tristeza, hoje, se tornou descartável”.

Cada vez mais acontecem catástrofes naturais em todo o mundo e a atenção global vai-se dissolvendo. “Os países não fixam a sua atenção num país”, afirma o responsável da Oikos, explicando de seguida que este esquecimento compromete estratégias humanitárias e de desenvolvimento que precisam de tempo para serem implementadas e, assim, conseguirem um futuro sustentável que minimize estragos futuros.

Hoje, após quase um ano, João José Fernandes e James Lattimer, ambos com uma urgência mais pragmática, chamam a atenção para este mesmo ponto: a comunidade internacional tem-se vindo a esquecer de Moçambique, um país no sul do hemisfério sul e que ocupa os últimos lugares na tabela do Índice de Desenvolvimento Humano da ONU – é o nono país menos desenvolvido do mundo.

Com Cau Fontes

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