Presidente do conselho de administração da Transportadora Aérea Cabo-verdiana, TACV, de Janeiro de 2003 a Dezembro de 2006, João Higino Silva fez essas considerações durante a sua audição na Comissão Parlamentar de Inquérito, sublinhando que a empresa já tinha dívidas à ASA na ordem de 1 milhão de contos; à empresa “Leasing” no montante de 1 milhão de dólares e às empresas fornecedoras de combustíveis em 200 mil contos.

Outrora embaixador de Cabo Verde em Portugal, Higino Silva disse ter sido despedido da TACV sem que tivesse qualquer conhecimento do contrato que dava a gestão da TACV à empresa islandesa “Starling” e que inclusive só teve conhecimento oficial desta medida “numa fase muito tardia”, em Dezembro de 2006.

Este antigo gestor da TACV recusou se pronunciar sobre os seus antecessores e das causas que levaram a empresa a esta falência técnica, “por questões de princípio”, mas ressalvou que sempre acreditou na empresa ainda que estivesse praticamente impossibilitado de fazer qualquer plano a longo prazo, pelo que a sua equipa privilegiou recuperar a tesouraria.

A este propósito, explicou que contraiu um empréstimo junto do Montepio, em Portugal, como “balão de oxigénio” no valor de 2 milhões de euros que serviu para dar uma certa credibilidade junto dos credores da TACV, mediante o pagamento diferido das dívidas, afora o adiantamento recebido pelo Ministério das Finanças no valor de 100 mil contos.

A partir daí, disse, a TACV andou com as “suas próprias pernas”, não obstante continuar na “situação de falência técnica”, mas assevera que à sua saída a TACV já estava a negociar a renovação da frota dos ATR, a entrada de um segundo “Boeing”, após a entrada de um primeiro em 2004, o “Emigrante”.

Entretanto, disse que não foi mais longe por falta de colaboração da Aeronáutica Civil, porquanto, conseguiu obter o certificado de operador aéreo, em Setembro de 2003, e que pretendia o certificado Etops para voar para o Brasil com aviões da própria companhia, mas que a Aeronáutica Civil não deu o seu aval positivo ainda que já fazia voos para EUA.

Revelou, por outro lado, que nessa altura já tinha planos para dotar a TACV de nova frota e que só não materializou o seu plano por objeção do primeiro-ministro da época que não considerava “oportuno a aquisição de qualquer avião nessa altura”.

Assegura que aquando da sua saída, em 2006, houve uma transformação da dívida da transportadora aérea para com a ASA, no valor de 800 mil contos em capital da TACV, “com a indicação de que a ASA teria direito a uma parcela das ações na privatização” e que o diferencial na ordem dos 400 mil contos foi saldado mediante amortizações em prestações.

Considera que os “aviões domésticos sempre deram prejuízos” e que apenas as rotas Praia/São Vicente/Praia, Praia/Sal/Praia e Praia/São Filipe/Praia eram lucrativas e que todas as outras eram negativas.

Esclarece que após uma análise de pistas exigidas pela Aeronáutica Civil os ATR que durante anos voaram para todos os aeroportos do País com a carga máxima tiveram de reduzir o peso para São Filipe, São Vicente e São Nicolau.