O especialista falava em declarações à Inforpress, momentos antes de explicar aos estudantes e professores da Universidade de Santiago (US) e de outras instituições o conceito do populismo, com foco na sua própria concepção, as tipologias do populismo e a razão de ser dessas tipologias e a situação do populismo tanto na União Europeia e no Parlamento Europeu.

“(…) Foi a democracia que gerou o populismo e é a má qualidade da democracia que está a criar as condições para que este populismo passe de sombra à figura. (…) o populismo acompanha a democracia como uma sombra, e o problema é quando eles trocam de posição e já trocaram de posição em muitos países da União Europeia”, alertou o docente português.

“Penso que o populismo não é novo, é um fenómeno que veio do século XIX, mas por outra designação, vem desde que nasceu a democracia e não vai acabar. O problema que está não é acabar com o populismo que ninguém vai conseguir. O importante é controlar o populismo e controlar é possível”, disse.

Para tal, no seu entender, tem que haver uma melhor representação dos cidadãos e melhor qualidade na democracia.

E acrescentou: “O populismo não é uma ideologia, mas ele recorre aos elementos ideológicos, mas não é uma ideologia”.

“O populismo é uma forma de articulação do discurso, visando a luta pela hegemonia na dimensão política. E por isso mesmo que essa luta implica a criação de dois corpos pretensamente homogéneos – o povo sempre visto como puro e a elite sempre vista como corrupta”, apresentou como sendo a sua definição do populismo.

Essa luta, acrescentou, implica também uma mudança de lógicas: da lógica diferencialista, em que, segundo ele , se reconhece a autoridade a quem está no poder para uma lógica equivalencial, que significa que alguém se considera como que a reserva moral do povo e como tal acha que quem está no poder não tem autoridade, e como tal considera que é um enviado para resolver o problema do povo.

Esclareceu ainda que autoridade e poder são coisas diferentes.

Questionado se os populistas não falam em nome do povo, o conferencista disse que “mais do que falar em nome do povo, estes dizem que são a reserva moral do povo, isto porque, lembrou, numa democracia representativa quem é eleito diz que representa o povo.

“(…) O líder populista é diferente, diz que ele é reserva moral do povo, ele é povo, ele não o representante do povo (…)”, notou o docente, que centrou a sua comunicação no caso da Europa.

“O populismo na Europa e no Parlamento Europeu está grave. Não há um momento populista no seu todo, porquê? Porque, o populismo é muito diferente. Há um populismo de base identitário ou cultural, há um outro populismo socio-económico e há um populismo anti-sistema”, disse.

É que, segundo a mesma fonte, receava que o populismo atingisse um terço do Parlamento Europeu, mas ficou por 24%, mas, no entanto, informou que o problema é que o populismo é de três níveis, referindo-se aos três níveis do populismo (identitário ou cultural, socio-económico e anti-sistema), tendo ainda acrescentado um quarto – populismo 2 D – que é baseado na rede.

“O medo era que todos os populistas se juntassem, o que acontece é que alguns se juntaram e formaram um novo grupo no Parlamento Europeu, mas os populistas desconfiam uns dos outros, precisamente pelas políticas de alianças que têm”, lembrou, apontando de entre vários exemplos o caso de Salvini (Itália) com a Rússia.

De momento, informou que há deputados populistas espalhados por todos os grupos, aliás, segundo ele, há um grupo próprio de populistas.

Contrariamente às outras teses defendidas por várias especialistas sobre o populismo de direita e de esquerda, o professor universitário entende que o populismo tanto o da direita como e o da esquerda, “são formas oportunistas de se servir do povo e não servir o povo”.

“Hoje, temos uma situação preocupante: não há um momento populista, mas há um início de momento populista na Europa Central e na Europa do Leste”, alertou o especialista português.

Na ocasião, avançou que o índice de democracia nos países liderados pelos populistas desce, daí, segundo ele, se desceu, é porque eles não exercem o poder conforme prometeram que iam exercer, e que isso prova que o que eles chamam de democracia liberal não é democracia.

A conferência intitulada “a ascensão do populismo no cenário político europeu” decorreu na sala de conferências do Campus da Bolanha da US, em Assomada.

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