No relatório de síntese sobre o estado da segurança alimentar e nutricional e a vulnerabilidade na África Austral, publicado na quarta-feira, a SADC estima que a pandemia da COVID-19 possa aumentar “ainda mais o risco de desnutrição”, uma vez que as medidas de confinamento decretadas por vários Estados-membros para conter a propagação do vírus provocaram uma redução no acesso aos alimentos.

“À medida que mais restrições foram introduzidas pelos Estados-membros, diversas variedades de alimentos tornaram-se indisponíveis e inacessíveis para os agregados familiares mais vulneráveis”, lê-se no relatório.

A SADC acrescenta que devido à pandemia “existe o risco de os agregados familiares serem forçados a adotar práticas alimentares negativas”, como a redução da frequência das refeições ou a quantidade e qualidade de alimentos, para “se adaptarem às medidas de confinamento”.

Ainda que os efeitos da pandemia não sejam totalmente conhecidos, a SADC estima que, devido às medidas de contenção, “a subnutrição aguda em toda a região possa aumentar em 25% ou mais durante o resto de 2020 e até 2021″.

“Com estas considerações, espera-se que haja aproximadamente 8,4 milhões de crianças que sofrerão de desnutrição aguda em toda a região em 2020 e, destas, 2,3 milhões de crianças necessitarão de tratamento que salvará vidas”, aponta o relatório.

De acordo com a SADC, 72% das crianças afetadas encontrar-se-ão em seis países da região: Angola, Moçambique, República Democrática do Congo (RDCongo), Madagáscar, Tanzânia e Zâmbia.

Angola, Moçambique, Madagáscar e Zimbabué estão também sinalizados pela SADC devido à fraca produção de alimentos, o que “indica um início precoce da estação magra [período de escassez], que irá agravar ainda mais os efeitos da COVID-19″.

No mesmo documento, a SADC refere que quase 5% das crianças até aos cinco anos em Angola e 4,4% em Moçambique enfrentam desnutrição aguda global.

Entre os países da África Austral mais afetados, as Comores são as que apresentam uma maior taxa de desnutrição aguda global, com 11,2% das crianças até aos cinco anos nesta situação, seguindo-se RDCongo (8,1%), Botsuana (7,3%) e Namíbia (7,1%).

Por outro lado, Essuatíni (2%) e Lesoto (2,1%) apresentam a menor taxa de desnutrição aguda global.

No documento, a SADC analisa também a taxa de prevalência de atrofiamento entre as crianças da região, contabilizando mais de 18,7 milhões de crianças raquíticas.

“A prevalência do atrofiamento é superior a 30% – classificado como muito elevado — em nove dos 16 Estados-membros da SADC”, aponta a organização regional, acrescentando que “a redução do atraso de crescimento retardado está a ocorrer demasiado lentamente para cumprir os objetivos da Assembleia Mundial da Saúde 2025 ou os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável 2030″.

Os dados apresentados no relatório colocam Moçambique como o segundo país da África Austral com a maior taxa de prevalência de atrofiamento, com 42,3%, apenas atrás da RDCongo (42,7%), e à frente de Madagáscar (41,6%), Maláui (39%) e Angola, que ocupa o quinto lugar dos países mais afetados, com 37,6%.

No documento, a SADC recorda que a África Austral “é propensa a choques climáticos extremos recorrentes” e que em apenas uma das últimas cinco épocas de cultivo houve precipitações normais.

Em 2019, os “repetidos choques climatéricos extremos”, como os furacões Idai e Kenneth e a prolongada seca, resultaram “na maior insegurança alimentar aguda da última década”.

Atualmente, a organização regional estima que haja cerca de 44,8 milhões de pessoas em situação de insegurança alimentar.

Em África, há 18.887 mortos confirmados em quase 892 mil infetados pelo novo coronavírus em 54 países, segundo as estatísticas mais recentes sobre a pandemia naquele continente.

Entre os países africanos que têm o português como língua oficial, Cabo Verde lidera em número de casos (2.418 casos e 23 mortos), seguido da Guiné Equatorial (2.350 casos e 51 mortos), Guiné-Bissau (1.981 casos e 26 mortos), Moçambique (1.808 casos e 11 mortos), Angola (1.109 infetados e 51 mortos) e São Tomé e Príncipe (868 casos e 15 mortos).

A pandemia de COVID-19 já provocou mais de 667 mil mortos e infetou mais de 17 milhões de pessoas em 196 países e territórios, segundo um balanço feito pela agência francesa AFP.

A doença é transmitida por um novo coronavírus detetado no final de dezembro, em Wuhan, uma cidade do centro da China.

Na sua rede favorita

Siga-nos na sua rede favorita.