Viriato Fernandes, de 95 anos, antigo professor da aldeia, assistiu, além da erupção que se iniciou em 23 de novembro de 2014, também às de 1995 e 1951.

“Não tenho medo, acostumei-me com o vulcão”, conta, em crioulo, o “mais velho” de Chã das Caldeiras, aldeia que ainda se vai reconstruindo, cinco anos depois da última erupção que então cobriu as casas e terra fértil de lava.

De rosto cansado e com movimentos limitados, Viriato conta à Lusa algumas das memórias da erupção de 1951. Era ainda um jovem, de 27 anos, a dedicar-se à agricultura, antes mesmo de ter sido convidado pelo administrador local para ser o professor da escola primária da aldeia.

“Me lembro sim. Tinha terreno onde cultivaram milho, mas foi coberto pelas lavas. Destruiu casas, mas nunca senti medo, fiquei acostumado”, relata.

As três erupções a que assistiu, com os seus "rios de lava e fogo" que ocuparam a aldeia, destruindo tudo pelo caminho, nunca fizeram vítimas mortais. Na última, a escola em que dava aulas, reconstruída em 1970, foi destruída e hoje as crianças da terra ainda têm aulas num espaço improvisado.

Chã das Caldeiras é apresentado como o único caso de um assentamento humano dentro da cratera de um vulcão ativo, mas apesar das dificuldades que ainda se sentem, aos 95 anos e depois de breves passagens pelos Estados Unidos (um ano e meio) e por Portugal (seis meses) quando era mais novo, assume que não deixa a aldeia.

“É a minha terra”, diz.

O vizinho Ramiro Montrond, mais novo, com 62 anos, aplaude e assume igual convicção.

“Não saímos daqui porque é aqui que a nossa vida está, é aqui que vivemos melhor. Fora daqui não conseguimos viver bem”, conta à Lusa, sempre divertido, mesmo quando recorda o que foi ver a lava entrar-lhe pela loja, que é também a sua casa, na erupção de 2014, no lugar da Bangaeira.

“A lava entrou na minha casa, chegou até ao teto, espalhou-se pelos lados. Depois do fim da erupção começamos a trabalhar na reconstrução, com os familiares e apoio de outras pessoas para retirar a lava. Trabalhamos até aqui, onde estamos, preparamos um espaço para dar acesso à casa e continuámos a fazer a nossa vida como ela era antes”, recorda, junto ao que era então o portão da casa, ainda hoje totalmente envolto em rocha, a lava que entretanto solidificou.

A Casa Ramiro é hoje ponto de visita para os turistas que chegam à terra do vulcão e ali encontram tudo o que é produto tradicional de Chã das Caldeiras, conhecida pelas suas vinhas, produção de vinho, café, fruta, legumes e outros produtos.

No interior da loja, as paredes ainda são escuras, da lava que as queimou, e as prateleiras de madeira apresentam-se quase carbonizadas. Assim ficaram desde que a erupção terminou, 77 dias depois, já em fevereiro de 2015.

“Não vamos mexer nas paredes, é uma recordação. Reconstruímos e agora é vida está melhor, porque agora temos muitos clientes, principalmente turistas, para verem o que ficou da erupção vulcânica. Há turistas que visitaram aqui antes da erupção e regressam agora para ver como é que as coisas ficaram”, explica, sempre em crioulo, embora entenda o português.

No interior a loja ostenta quadros explicativos sobre a aldeia, o vulcão e as tradições de Chã das Caldeiras, em várias línguas, a pensar nos turistas.

Ramiro garante que vive num “lugar muito bom” em que “basta chover para termos uma vida boa”.

Sobre o perigo do vulcão, relativiza, até porque, como todos fazem questão de recordar na aldeia, “nunca ninguém perdeu a vida nas erupções”.

“Nem eu, nem a minha família, nem amigos, mais ninguém da população. O que se perdeu, reconstruímos, e é o que vamos deixar. Mas também não é só aqui que isso acontece, ouvimos falar de erupções em outros países e mais duros. A nossa é normal”, atira.

Por isso mesmo, sair de Chã das Caldeiras nem sequer é hipótese.

“Daqui não saio, só depois da morte. Enquanto estou vivo gosto é daqui. E não sou o único, também todas as outras pessoas desta caldeira. Porque aqui é diferente, muito bom”, garante.

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