O coronel Assimi Goita era, antes da acção militar que depôs o Presidente, Governo e Parlamento, o chefe das forças especiais malianas, instaladas no centro do Mali, palco desde 2015 de violência jihadista e intercomunitária. Segundo fonte próxima de Assimi Goita, foi ele o instigador do golpe de Estado militar de 18 de Agosto, um homem que é considerado “muito rigoroso”.
Formou-se na sede militar de Kati, a 15 quilómetros da capital Bamako, de onde saem as elites do exército maliano. Obteve depois um diploma pela Escola Militar de Koulikoro, tendo-se formado juntamente com outros elementos da junta militar que tomou as rédeas do poder.
Contudo, vários jornais africanos avançam que Assimi Goita recebeu, ainda, formação nos Estados Unidos com agentes da CIA.
O coronel apareceu na televisão pública do Mali na noite de terça para quarta-feira, aquando do anúncio do golpe de Estado, mas não se pronunciou na altura. Mas na quarta-feira, depois de se ter encontrado com altos funcionários no Ministério da Defesa, apresentou-se como presidente do Comité Nacional para a Salvação do Povo – CNSP -, a junta militar que protagonizou o golpe, afirmando que o objetivo é uma transição política civil para preparar eleições gerais livres, num prazo razoável, e estabilizar o país.
Assimi Goita afirmou, então, que o Mali está “numa situação de crise sociopolítica e de segurança”, tendo ainda frisado que “não temos mais o direito de errar“.
Mas estas declarações não apaziguaram a condenação unânime da comunidade internacional ao golpe de Estado militar, com destaque para a ONU, União Africana, União Europeia e Estados Unidos, que exigem a reposição da ordem constitucional, do estado de direito e a libertação imediata do presidente deposto, Ibrahim Boubakar Keira.
Também a Comunidade Económica dos Estados da África Ocidental (a CEDEAO) condenou, desde logo, o que apelidou de “motim”, tendo ainda anunciado o encerramento das fronteiras com o este país e o congelamento das trocas financeiras entre os seus 15 países membros e o Mali.
O mesmo tom de condenação foi exprimido pelo Conselho de Segurança da ONU, o qual exortou os militares a regressarem aos quartéis, enfatizando a necessidade urgente de restabelecer o Estado de direito e a ordem constitucional no Mali.
Em França, antiga potência colonial que mantém um forte dispositivo militar no Mali - cerca de cinco mil tropas - para combater o jihadismo na região do Sahel, o Presidente Emmanuel Macron pediu a restituição do poder aos civis.
O porta-voz dos militares golpistas, o coronel-major Ismaël Wagué, Chefe de Estado-Maior-Adjunto da força aérea maliana, anunciou na quarta-feira, pouco depois da demissão do presidente Ibrahim Boubakar Keira, que “decidimos assumir as nossas responsabilidades perante o povo e a História”, tendo convidado a sociedade civil e os partidos políticos a juntarem-se ao Comité Nacional para a Salvação do Povo, para, juntos, prepararem a transição política e a organização de eleições gerais num prazo razoável.
Ismaël Wagué apelou a “população à calma e ao fim dos actos de vandalismo e de destruição de edifícios públicos”, prometendo tomar “medidas contra todos os que em uniforme forem apanhados em flagrente delito“.
Outro líder do golpe de Estado militar, também formado no quartel de Kati, é o coronel Sadio Camará, que se encontrava em treino militar na Rússia desde Janeiro e que regressou a Bamako (sob licença de um mês) cerca de 15 dias antes.
Nos próximos dias deverá ficar mais claro o enigma sobre o futuro do Mali, designadamente a correlação de forças entre os militares golpistas e os que se mantêm fiéis ao Presidente deposto.
Por outro lado, fica a dúvida sobre como é que os militares revoltosos vão realizar eleições livres e credíveis, quando são executores e juízes de tudo o que se passa neste momento no Mali. Por exemplo, um relatório da ONU, com data de 30 de Abril deste ano, dá conta da “multiplicação de execuções sumárias e desaparecimentos forçados ou involuntários” durante operações feitas pelos militares malianos, a que se junta um outro, ainda não oficialmente divulgado, que denuncia o papel de obstrução ao Acordo de Paz de 2015 - assinado entre a República do Mali e uma aliança de grupos armados rebeldes - por altas patentes do exército e dos serviços de segurança do Estado.
Há meses que o Mali enfrenta protestos populares contra a crise económica, a corrupção, a insegurança e a violência dos grupos jihadistas, uma situação de caos que persiste desde o último golpe de Estado militar, em 2012, que derrubou o então Presidente Amadou Mamadi Touré.
A oposição, liderada pelo M5-RPF, ou Movimento 5 de Junho, garante em comunicado “tomar nota do compromisso do CNSP” e indicou que irá cooperar com a junta militar no estabelecimento de um roteiro “para iniciar uma transição política civil“, juntamente com o que chama de forças vivas do país, tendo ainda apelado ao povo maliano que festeje a vitória dos militares golpistas nesta próxima sexta-feira.
Esta crise política, económica e de segurança teve a sua origem no norte do Mali, com o regresso progressivo da Líbia de combatentes independentistas tuaregues, após a queda de Mouammar Kadhafi.
A estes juntaram-se grupos jihadistas, que tornaram o norte do país muito instável, aproximando-se cada vez mais de Bamako, a capital e maior cidade do país, expandindo-se a partir da zona onde as fronteiras do Mali, Niger e Burkina Faso confluem. A este cenário caótico, junta-se a pandemia de covid-19 no país.
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