Antes de mais, fala-nos um pouco de ti. Quem é o Paulino do Canto?

Nasci e cresci numa pequena comunidade de São Jorge, município de São Filipe, ilha do Fogo. Ali aprendi o valor da família, da escola, do sacrifício e da coesão social. Todos os dias, levantava-me às cinco e meia da manhã e às seis e meia já estava pronto para caminhar a pé cerca de cinco quilómetros, com o meu irmão mais velho e o meu pai, para ir à escola. Estudei até ao décimo ano na ilha e com 17 anos ingressei no seminário na Ordem dos Frades Menores Capuchinhos, em São Vicente, onde também fui estudar o terceiro ciclo no Liceu Ludgero Lima. Em 2011, suspendi a minha caminhada de vocação sacerdotal e entrei no curso de Ciências Sociais na Universidade de Cabo Verde, onde até hoje encontro-me a fazer o curso de mestrado em Integração Regional Africana.

E tens tido uma forte intervenção no campo social, seja pela via do voluntariado, seja pela escrita e estudos…

Sim. Em 2015, fiz um intercâmbio na Universidade de Brasília, que me despertou o gosto pela Antropologia Política. Nesse mesmo ano fui destacado pela Uni-CV para fazer parte de equipa de cinco monitores de terreno que foi para a CEDEAO, para um programa de treinamento anual denominado de Sistema de Alerta Precoce. Depois de cinco anos na cidade da Praia, regressei ao Fogo, onde desenvolvi um projeto sócio-educativo na escola primaria de São Jorge e na Escola Pedro Verona Pires. De regresso a Praia, conheci a Natacha Magalhães (risos), que me desafiou a escrever para os jornais da praça e recordo-me do meu primeiro artigo publicado no jornal “A Nação” ter sido escrito num telemóvel (risos). Em 2017, integrei, como assistente social, o projeto “Anjos da Noite” da Câmara Municipal da Praia. Também, tenho vindo a fazer alguns trabalhos de consultoria e estudos para as Nações Unidas e UniCV e continuo a prestar serviços de consultoria e de assistência social para câmara da Praia no projeto “Recognize and Change”, em parceria com a União Europeia

Essa paixão pela área social sempre existiu ou foi algo que surgiu no teu caminho, pelas coisas que foste observando?

Encontrei em casa. Os meus pais tinham e têm sempre essa vontade de ajudar o próximo. Contudo, devo confessar que a minha entrada nas Ciências Sociais foi “acidental”. A minha paixão foi sempre pelas ciências exatas, tanto que pedi transferência para São Vicente já matriculado em Ciências Tecnológicas, mas chegando lá o mestre do seminário matriculou-me em Humanísticas. Sofri imenso, não queria ir às aulas, mas numa conversa, fui convencido de que essa área seria uma mais-valia. Quando chegou a vez de escolher o curso superior, e depois de dialogar com o meu irmão, acabei por escolher um curso mais próximo às Ciências de Educação e optei pelas Ciências Sociais, sem noção do que se tratava. Porém, hoje sou grato por essa trajetória, pela forma como me permite dialogar com perspetivas diferenciadas e por ter esse instrumento de trabalho sempre presente comigo.

Fazem-nos falta mais olhares ao social cabo-verdiano?

A forma como se olha para o social em Cabo Verde é cheia de juízo de valores. Até hoje, não se utilizou suficientemente essa área nos mais diversos campos de atuação. Primeiramente, quando se pensa o social em Cabo Verde, as pessoas tendem associá-lo diretamente à resolução de problemas, de patologias sociais, ou seja, as coisas negativas que precisam ser remediadas, de assuntos que são postos à margem do processo de desenvolvimento de uma sociedade. As ciências sociais não têm merecido a sua importância na sociedade cabo-verdiana. Pelo contrário, nota-se uma propaganda institucionalizada contra as ciências sociais. Pior ainda quando vinda das universidades, como espaço preferencial da construção do pensamento crítico.

Como cientista social, como vês esta área sendo tratada e utilizada no nosso país?

Essa área é muito banalizada na sociedade cabo-verdiana, sobretudo na ótica da mercantilização e deixada à margem no processo da conceção das políticas públicas, inclusive de forma mais visível numa altura em que o responsável pela política do ensino superior foi um historiador, portanto, de Ciências Sociais. Ademais, é crucial ter em conta que essa banalização tem as suas consequências que até hoje são sentidas pela sociedade cabo-verdiana. As respostas aos maiores desafios que se colocam à sociedade cabo-verdiana encontram-se, direta ou indiretamente, nas áreas sociais. Mas estas têm sido colocadas à margem no processo de desenvolvimento de Cabo Verde e a sua utilização tem sido residual, tendencialmente numa perspetiva mais de reação face às problemáticas sociais, com destaque para os casos da pobreza, das desigualdades sociais, da delinquência/criminalidade, do género, do ambiente, etc. do que numa perspetiva proativa, com destaque para a construção de sociedade mais consciencializada dos seus deveres e direitos e até mesmo de um mercado melhor preparado.

Tens te engajado em algumas causas sociais. Lembro-me agora de um projeto de orientação escolar na tua zona, na ilha do Fogo e o Anjos da Noite. Fala-me destes projetos ou de outros que têm merecido o teu engajamento.

Após ter feito a minha graduação, voltei para a ilha do Fogo, pus-me a pensar como seria útil para a sociedade que me viu nascer. A partir dali, nasceu um projeto socioeducativo, com a preocupação de reduzir o consumo do álcool entre os jovens e dinamizar a comunidade de São Jorge através do desporto e das atividades socioculturais. Eu e a minha equipa, com apoio de diversas instituições públicas e individualidades da ilha, implementámos um projeto de duas semanas com diversas atividades, desde consulta aos idosos, workshops, futebol, campanhas de limpeza pública, visitas domiciliárias, entre outras atividades. Em 2017, entrei para o projeto “Anjos da Noite”, da CMP, onde até hoje faço voluntariado. Envolvi-me nele com alma, com carinho e até hoje somos mais do que uma equipa multidisciplinar, somos uma família. Digo que o que me tinha levado para o seminário foi encontrado na rua, com o projeto “Anjos da Noite”: o prazer de servir, de cuidar e de escutar, sem pressa para terminar de conversar.

Que impactos tiveram ou estão a ter os projetos por ti implementados?

O projeto implementado na comunidade de São Jorge teve o seu impacto no tempo útil para o qual foi planeado. Um dos pilares do projeto consistia em orientar os estudantes do 7º ao 12º ano da escolaridade e os resultados foram extremamente positivos. Tivemos muitos alunos(as) que, embora tivessem muitas dificuldades em ciências exatas, conseguiram ultrapassá-las e tiveram sucesso escolar. No início do projeto, a localidade de São Jorge tinha o maior número de alunos(as) indisciplinados(as) na Escola Secundaria Pedro Verona Pires, mas, atualmente, seis dos alunos de méritos dessa mesma escola são de São Jorge. Hoje temos uma comunidade relativamente mais dinâmica. Também apresentei um projeto para a implementação de um gabinete psico e socioeducativo para a referida escola, mas que até hoje não saiu da gaveta por uma certa falta de interesse. Queria fazer muito mais para a minha ilha, mas por politiquices, tenho sido relegado para a margem.

Paulino do Canto
créditos: Foto cedida

Atento à sociedade como é, como vês esse mesmo engajamento por parte jovens cabo-verdianos face aos grandes problemas da atualidade?

Essa pergunta fez-me lembrar num artigo que escrevi, em parceria com um amigo guineense, sobre a “reprodução do legado de Amílcar Cabral entre os jovens líderes comunitários cabo-verdianos”. Na apresentação desse trabalho, na Universidade Nova de Lisboa, em 2018, no âmbito da conferência internacional intitulada “Amílcar Cabral: O ‘Combatente Anónimo’ pelos Direitos Fundamentais da Humanidade”, durante o debate, um dos jovens disse essa frase: é percetível uma juventude que busca conhecer Cabral, mas, ao mesmo tempo, confrontada com ausência de políticas públicas do Estado que preserva e dá a conhecer Cabral”. Para dizer que temos jovens com forte sentido de responsabilidade, com sede para aprofundar os seus conhecimentos, que lutam para poder contribuir, mas, que no final, vêm os seus projetos frustrados por insuficiências ou ausências de estruturas e mecanismos capaz de aproveitar das oportunidades e dos talentos dessa juventude.

E de que forma isso pode ser negativo para o país?

As consequências face à situação tendem a piorar, com efeito direto na fuga, na emigração para outros países. Trata-se de um fenómeno que ainda é pouco encarado com seriedade pelas entidades responsáveis, mas que a longo prazo, terá efeitos na produtividade das indústrias, além da falta de mão de obra, bem como no despovoamento de alguns lugares das ilhas, como é o caso da ilha de Santo Antão. Acredito, que a juventude cabo-verdiana tem sede de trabalhar, sentir-se útil no processo de desenvolvimento do seu país, contudo, a incapacidade das estruturas e mecanismos para lograr dessas novas dinâmicas tem constituído grande barreira nesse processo. Ainda não se deu real atenção com políticas públicas claras para a associação juvenil ou comunitária para minimizar os fenómenos que atingem a nossa sociedade pela negativa.

A participação e o envolvimento da juventude, excetuando em eventos festivos, é fraca. Porque achas que os nossos jovens não se envolvem muito nas grandes questões do país, mormente na política que é o palco onde tudo pode ser mudado?

Tinha dito acima que temos uma juventude com sede de aprofundar os seus conhecimentos, com vontade de se sentir útil nesse processo de desenvolvimento. Porem, as estruturas atuais e os mecanismos disponíveis são insuficientes. O que temos? Não mais do que representações políticas, de relações públicas para conceber e projetar imagens do país nas arenas internacionais e, curiosamente, com agendas políticas importadas para estandartes de avaliação para as diferentes escalas de Índex.

E há ainda a questão política. Ou melhor, a politização excessiva da nossa sociedade…
Sim. A política é tida como tabu e como algo de muito negativo. Costumo dizer que a política é o que deveria mais importar à sociedade cabo-verdiana, para ser discutida sem qualquer timidez e implicações, contudo, é o que menos interessa a essa sociedade. O importante é perceber o porquê desse afastamento ou desinteresse da juventude. Digo que a intolerância face ao oposto, às opiniões contrárias e, consequentemente, a sua negação e falta de reconhecimento afastam os jovens desse círculo e a situação agrava-se mais quando uma boa parte dos jovens cabo-verdianos não confia na política e nem nos políticos.

Mas para os jovens, participar da política é necessariamente pertencer a uma força política. Aliás, não só para estes. A própria sociedade acaba por vincar essa ideia…
Verdade. Mas participar n(d)a política não quer dizer necessariamente fazer parte da lista A ou B dos partidos e nem se restringe às estruturas político-partidárias. Cada individuo é um político e, mais do que isso, deve interiorizar que, enquanto cidadão, tem o direito de vigiar o cumprimento das propostas legislativas, das decisões e dos programas políticos. Agora, a grande pergunta é como fazer tudo isso se o jovem não se sente representado pelos ditos representantes? Essa auto entrega voluntária de confiança em demasia nos representantes políticos cabo-verdianos tem assassinado aos poucos as dinâmicas sociais.

Quando olhas para esta geração da qual fazes parte, o que pensas? O que falta ao jovem cabo-verdiano para se inserir na aldeia global, para de facto impactar ao nível global?

Uma só palavra: mais oportunidades que sejam efetivamente realistas e menos cosméticas. A equidade é fundamental para se acabar com as lacunas fortes que as desigualdades sociais cabo-verdianas têm gerado, especialmente no âmbito do acesso ao mercado de trabalho, da educação de qualidade e de cargos de confiança. Os jovens cabo-verdianos têm se inserido na aldeia global de forma pro ativa e, grande parte, de forma isolada. Uma caminhada que começa com a vontade de fazer o curso fora do país e da pouca vontade de regressar, porque percebe que a falta de oportunidades tem gerado frustrações e autoestima baixa da sociedade cabo-verdiana.

E qual seria a teu maior desejo?

Trabalho. Após terminar a minha graduação, inserir-me no mercado de trabalho foi e é, até hoje, o maior desafio na minha vida. Faço várias coisas, mas não tenho um trabalho sustentável. Ou seja, sou de muitos e de ninguém (risos).

Alguma mensagem especial para a juventude cabo-verdiana?

Cada um de nós é o principal promotor da nossa mudança. Temos esse dever de provocar a mudança com as nossas atitudes, mesmo que as condições não sejam as melhores. Que cada luta de hoje sirva para nascer um sonho amanhã! Até agarrar uma oportunidade, que continuemos a aspirar nas nossas utopias!

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