Maurício desapareceu na companhia da mãe trinta dias depois de ter nascido. Foi a 28 de Agosto de 2017, que Edine Jandira deixou a casa em Achada Grande Frente (Praia) alegando que ia levar o bebé para o controlo no PMI (Programa Materno-Infantil), na Fazenda, Cidade da Praia. Mãe e filho nunca mais foram vistos.

Anilda da Silva, avó de Maurício, mostra-se “indignada” com aquilo que classifica de “descaso” por parte das autoridades cabo-verdianas, que segundo ela, não se têm preocupado em disponibilizar informações sobre o andamento das investigações.

“A última vez que a PJ (Polícia Judiciária) nos contactou foi em Junho de 2018, quando chamaram o meu filho Carlos Alberto (Má) para lhe dizerem que lhe podiam ajudar, se confessasse onde teria enterrado a mãe e o filho”, lamenta, estupefacta, porque “não esperava” que as autoridades iam usar esta “estratégia estranha” para arrancar confissão ao filho por um crime que não cometeu.

Segundo ela, isto aconteceu em Junho de 2018 e, a partir dessa data, “nunca mais nos disseram nada”.

Em Castelão, um dos bairros de assentamentos informais da Cidade da Praia, o sentimento é ainda de tristeza e dor. Clarisse Mendes (Nina) e Sandro Mendes (Filú), que viviam com a avó em Achada Limpa, saíram de casa para comprar açúcar em Água Funda, nunca mais foram vistos. Tinham nove e onze anos de idade, respectivamente. Os dois meninos desapareceram no dia 03 de Fevereiro de 2018.
Márcia Mendes culpa as autoridades por se terem despertado “muito tarde” em relação ao caso dos dois primos.

“Na tarde em que os meus primos desapareceram, depois de buscas infrutíferas em casa de familiares, ligámos para a Polícia, a fim de comunicarmos o caso”, revela, avançando que foi atendida por uma agente que lhe disse que só depois de 24 horas podiam encetar a procura.

Márcia Mendes contou ainda à Inforpress que na mesma noite pediram apoio ao quartel militar situado nas mediações de Achada Limpa, “mas nada fizeram”.

“Dois militares que iam de folga para a casa disponibilizaram-se a ajudar-nos na procura, até ao amanhecer, mas sem resultados”, comentou a informante da Inforpress, lamentando o facto de as autoridades policiais só terem contactado os familiares “48 horas depois do desaparecimento do Filú e Nina”.

Entretanto, para assinalar o Dia Internacional das Crianças Desaparecidas, a Associação de Crianças Desfavorecidas (ACRIDES) antecipou esta sexta-feira uma marcha que percorreu a Avenida Cidade de Lisboa, na Cidade da Praia, até ao Palácio do Governo.

Para a secretária executiva da ACRIDES, Carmen Delgado, o Dia 25 de Maio é uma data para uma “forte reflexão” por que razão as pessoas estão a desaparecer em Cabo Verde.

No entender desta activista social, o surgimento de novos casos de desaparecimento de pessoas, sobretudo na ilha de Santiago, é “preocupante” e estas situações “não têm tido respostas por parte das autoridades competentes”.

Por sua vez, Ermelinda Cabral, tia de Nina e Filú, que também tomou parte na marcha, é de opinião que as autoridades “não têm dado a devida atenção” ao caso dos sobrinhos e de outras pessoas desaparecidas.

Eunice Maria dos Reis Garcia, uma outra participante que se mostrou “preocupada” com a situação do seu filho Lee Haney Garcia Barbosa Vicente, desaparecido há um ano e meio, e até hoje não se sabe do seu paradeiro.

“As autoridades têm sido insensíveis com os problemas dos pobres. Se fossem filhos de ricos ou dos governantes, mobilizariam tropas para procurarem aquelas crianças”, deplorou Eunice Garcia.

A Inforpress cruzou-se ainda com Maria de Fátima Vieira da Cruz, que afirmou estar “desesperada”, porque o filho Odair José Sanches Cardoso, 38 anos, está desaparecido desde o passado dia 09 de Maio.

A marcha terminou em frente à sede do Governo, onde os participantes fizeram um minuto de silêncio, tendo de seguida, em lágrimas, soltado balões, em memória das pessoas desaparecidas.

Contactado pela Inforpress sobre o desaparecimento de crianças e adultos, o gabinete de assessoria de comunicação da PJ limitou-se a dizer que o “processo de investigação estão em curso e seguem os seus trâmites normais”.

“Assim que tivermos algumas informações disponibilizá-la-emos ao público, aos familiares e à comunicação social”, concluiu a mesma fonte.

O número de pessoas de que não se sabe o paradeiro não pára de crescer. Entretanto, a PJ comunicou esta sexta-feira que a estudante de Direito na Universidade Jean Piaget, Maria de Jesus Garcia Furtado, mais conhecida por Tita, de 20 anos, que “estava desaparecida” desde o dia 22, já apareceu. A mesma, que teria saído de casa por livre e espontânea vontade, “está bem de saúde”.

O desaparecimento misterioso de pessoas já levou à realização de várias manifestações de rua, sobretudo na capital do país e altas entidades têm expressado inquietude em relação a esta problemática.

O Presidente da República, Jorge Carlos Fonseca, exprimiu a sua preocupação no concernente a estes casos, tendo afirmado que a situação “exige resposta por parte das autoridades”.

O Cardeal Dom Arlindo Furtado também considerou que a situação é “muito preocupante, grave e chocante” e, segundo ele, há “qualquer coisa que está a acontecer que não dá para entender”.

Na sua rede favorita

Siga-nos na sua rede favorita.