O resultado da cimeira do G5 Sahel frustraram alguns analistas que observam a instabilidade provocada por grupos jihadistas na região. O encontro reuniu os chefes de Estado de França, Mali, Burkina Faso, Níger, Chade e Mauritânia na cidade francesa de Pau, a 85 km da fronteira com a Espanha.

Os chefes de Estado anunciaram que seria criada uma estrutura de comando comum para coordenar a "Operação Barkhane"- levada a cabo pela França com 4.5 mil militares presentes na região desde 2014 - e o exército comum do G5 Sahel, que conta com efetivo de 5 mil homens. A França enviará mais 220 soldados e uma nova força-tarefa, a "Takuba", será criada para integrar forças especiais de outros países europeus, além daqueles que fornecem apoio logístico, como Reino Unido, Dinamarca e Alemanha.

O General Dominique Trinquand, consultor militar e ex-chefe da missão militar francesa na ONU, elogiou as medidas. "Precisamos uma coordenação melhor entre as diferentes forças na região - especialmente porque a situação de segurança está a deteriorar-se de forma drástica. Embora eu ainda esteja esperando para ver como essa estrutura comum vai realmente funcionar", disse à DW Africa.

Trinquand acha que a região do Sahel deveria ser um dos principais focos na luta contra o terrorismo não apenas para a França. "Há um perigo real de que os terroristas possam estabelecer um novo estado islâmico, um califado - o Sahel pode se tornar a nova Síria", explicou. O consultor militar acha que combatentes islamistas poderiam ser enviados de lá para a Europa para ataques terroristas.

A declaração comum da cimeira reafirmou o "desejo dos Estados do Sahel de continuarem com compromisso militar com a França na região e a vontade de reforçar a presença de tropas internacionais ". O Presidente da França, Emmanuel Macron, insistiu que os chefes de Estado ponham um fim à "ambiguidade gerada pelo sentimento antifrancês".

A rejeição à presença francesa

Há sete anos, a França enviou pela primeira vez tropas ao Mali para combater jihadistas no norte do país. Desde então, a reacção contra a presença das tropas estrangeiras parece crescer no Sahel, especialmente no Mali. Com um número crescente de baixas, as comunidades questionam a eficácia da operação militar.

Um grupo de 50 jovens africanos a apenas 600 metros do castelo onde ocorreu a cimeira deu voz ao ceticismo compartilhado por alguns no Sahel. "Marionetas africanas a serviço do sistema francês, ouçam o seu próprio povo ou saiam daqui", lia-se numa faixa. "É nosso trabalho cuidar dos nossos próprios países", um jovem gritava ao microfone enquanto manifestantes aplaudiam.

Como a maioria dos manifestantes, Abdoulaye Adouwal viajou de Paris para Pau a fim de ter a oportunidade de ficar por algumas horas mais perto dos dirigentes do seu país. O nigeriano de 24 anos é estudante de enfermagem na França. Para ele, as tropas francesas tem que deixar a região.

"Os nossos chefes de Estado trouxeram exércitos estrangeiros que, segundo eles, garantiriam a segurança dos nossos países, mas eles chegaram e os ataques continuam a acontecer. Seria melhor se treinassem os nossos jovens para que pudéssemos proteger os nossos países", sugere.

Dominique Moïsi, do Instituto Francês de Relações Internacionais e conselheiro especial geopolítico, afirma que esse ceticismo já começa ser percebido também entre os franceses. "A dúvida surgiu entre a elite francesa quanto ao sentido da operação na região do Sahel, dada a falta de eficácia", explicou à DW África. "Cada vez mais pessoas se perguntam se a França não deveria repensar prioridades e concentrar-se em desafios mais urgentes, como o fortalecimento da Ásia, [a questão do] Irão e da Turquia".

Falha de abordagem

William Assanvo, um pesquisador sênior do Instituto de Estudos de Segurança da Costa do Marfim, entende as frustrações, mas acredita que que sem os franceses a situação seria pior. "Os países do G5 não podem ficar sem a França, eles precisam do apoio militar", afirmou.

No entanto, Assanvo não ficou empolgado com o resultado da cimeira. "Estas medidas não são nada de novo e não atacam as razões subjacentes ao aumento do terrorismo - especialmente a má governação", disse.

O especialista lembra que muitos jovens se juntam a grupos terroristas locais porque "não há força policial nas suas áreas de origem ou a força policial se tornou corrupta". Para Assanvo, aderir a uma milícia local é, algumas vezes, a única maneira de se manter seguro. "Se realmente queremos erradicar o terrorismo, precisamos melhorar a polícia, a justiça e o sistema de governança desses países", defende.

O General Trinquand acrescentou a isso outra questão que precisava de ser abordada: a economia. "O número de pessoas que vivem nesses países disparou - em Burkina Faso, por exemplo, quadruplicou, chegando a 20 milhões de pessoas em poucas décadas", disse. O consultor militar observa que " quase não há empregos para os jovens, a não ser para ingressar nas milícias, que pagam bastante bem".

Tanto a Operação Barkhane como o G5 aplicam programas de desenvolvimento económico. A França prometeu até 7 mil milhões de euros por ano para a ajuda ao desenvolvimento em 2022, a maior parte para países africanos. A declaração comum da cimeira menciona um compromisso de restabelecer o Estado de direito, mas poucas medidas concretas conduzem a algum otimismo.

por: Lisa Louis

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