A 5 de Julho de 1975, Osvaldo Lopes da Silva encontrava-se na Praia e viveu de perto as dificuldades para o acolhimento dos convidados estrangeiros, numa cidade que, segundo ele, contava com apenas duas pensões.

Diante desta situação, os militantes tiveram que ceder as suas casas.

“Na véspera [da independência nacional] a minha preocupa maior foi garantir a electricidade. A Central Eléctrica da Praia tinha três grupos com uma potência instalada de cerca de 400 kilowatts (kwa). Para agravar a situação, o responsável do pelouro da electricidade da Câmara Municipal da Praia dirige-se a mim e diz: ‘chefe, estamos aflitos porque não temos uma gota de combustível. Amanhã vamos estar às escuras’”, contou Osvaldo Lopes da Silva.

Entretanto, para resolver o problema, dirigiu uma carta à Shell a solicitar no sentido de disponibilizar o combustível e que o Governo que ia tomar posse proximamente assumia a responsabilidade de pagar.

“A estação de enchimento do gás, da minha iniciativa, surgiu em 1978. Foi por mim negociado ainda antes da independência. Foi um donativo da Alemanha Federal”, lembra o antigo ministro da Economia.

Segundo ele, na altura, o conjunto de garrafas que circulavam em todo o país era de 500 unidades.

“Era o ministro que tinha de se ocupar de ver quantas garrafas já tinham chegado de São Vicente, Boa Vista e outras ilhas para reunir umas 300 e mandar um barco às Canárias para as encher”, comentou o antigo governante.

Falou, ainda, da criação da companhia marítima Arca Verde, que, segundo ele, foi constituída com “barcos adquiridos pelo partido [PAIGC] e, depois, passou a património do Estado”.

Na sua perspectiva, o arquipélago continua a ser um País “extremamente frágil” e repartido em “dez pedacinhos, o que torna difícil a sua infra-estruturação”.

“Com um grande porto em São Vicente e um grande aeroporto no Sal e, se tudo isto estivesse junto, tínhamos um país com boas infra-estruturas”, sublinhou, acrescentando que, devido à descontinuidade geográfica, tem que se construir portos, aeroportos e serviços de saúde em todas as ilhas, funcionando, deste modo, cada uma como se fosse um país.

O antigo combatente da liberdade da Pária realçou, ainda, a falta de água em Cabo Verde como factor que dificulta o desenvolvimento do arquipélago.

“As Maurícias têm um nível de desenvolvimento bastante grande e com água suficiente para produzir a sua electricidade e Cabo Verde não tem isto”, salientou, ajuntando que no arquipélago se passa o contrário, ou seja, tem que se produzir, primeiro, a electricidade e, depois, a água.

Admite que é com “muito esforço e dedicação” que as várias gerações têm conseguido “pôr o País de pé”.

Para Osvaldo Lopes da Silva, os homens e mulheres da sua geração fizeram o seu trabalho na primeira República, transformando este território, reconhecidamente pobre, em País viável.

“Muitos nacionalistas cabo-verdianos viam na independência uma aspiração, um sonho, mas tinham algum receio”, afirmou.

Segundo a fonte da Inforpress, mesmo aqueles que, ontem, eram contra a independência de Cabo Verde hoje “são a favor”.

“Hoje, somos um País de rendimento médio e isto mostra que Cabo Verde avançou no sentido de se libertar, em certa medida, da dependência em relação à ajuda externa”, enfatizou Lopes da Silva.

A seu ver, para muitos dirigentes portugueses de então Cabo Verde era um “fardo”.

“Encontrei maior solidariedade e simpatia junto dos partidos de direita, particularmente entre os elementos da Marinha, sobretudo do então primeiro-ministro [de Portugal], Pinheiro de Azevedo, que conhecia Cabo Verde muito bem, onde fez várias missões”, revelou, acrescentando que o antigo governante luso reconhecera que não tinham feito nada pelo arquipélago.

Osvaldo Lopes da Silva, enquanto responsável do departamento governamental da Economia, segundo o próprio falecido Presidente da República, Aristides Pereira, no livro “Minha Vida Nossa Historia” travou “duras lutas” com os responsáveis do Programa Alimentar Mundial (PAM) no sentido de os convencer que os donativos deviam ser vendidos, mesmo que “a preço simbólico”, e não doados.

“Esta era a posição do PAM, baseada na experiência que tinham de países de grande miséria, situações como a da Etiópia e Somália e queriam transferir esta experiência para Cabo Verde. Eu disse-lhes: ‘não, não queremos transformar este país num país de mendigos, vocês dão-nos ajudas e seremos nós a administrar esta ajuda, criando postos de trabalho’”.

Reconhece que enfrentou dificuldades para levar avante esta política e teve que dar “prova de teimosia”, porque, ressaltou, se viu obrigado a enfrentar não só o PAM, na altura “o maior doador”, como também as estruturas do então partido no poder, PAIGC, que queriam assumir a distribuição dos donativos.

“Os secretários do partido nas ilhas queriam aparecer como os bonzinhos que davam ajuda aos necessitados e isto seria perverso, além de criar uma dependência terrivelmente grande da população em relação aos responsáveis partidários”, acusou Osvaldo Lopes da Silva, assegurando que ele queria um povo que acreditasse na sua dignidade, “e o que dá dignidade ao homem é o trabalho”.

Não se esquece do “apoio entusiástico” que teve da parte de Aristides Pereira na comercialização das ajudas alimentares oferecidas pelo PAM.

“Em 77, na sequência da seca que se prolongava, o secretário-geral adjunto da ONU visitou Cabo Verde, mostrei-lhe a política que estávamos a seguir, através as obras financiadas pela ajuda alimentar, tendo ficado encantado com a nossa experiência”, afiançou o então governante, supondo que terá sido a intervenção daquele alto responsável das Nações Unidas que “veio a alterar toda a situação em relação ao PAM”.

Conta, ainda, que pouco tempo depois esteve em Cabo Verde o antigo comissário da Comunidade Económica Europeia (actual União Europeia) Claude Chaysson, que pôde visitar, em Santo Antão, obras financiadas pela CEE, tendo ficado “maravilhado com o que viu”.

“A partir daí aumentou-se a ajuda alimentar da CEE, além da ajuda da França e da Áustria, sempre dentro desta visão de a ajuda alimentar ser fonte de financiamento de projectos de desenvolvimento e, graças a isso, foram construídos milhares de diques para a retenção do solo e da água”, pontuou.

Observou, por outro lado, que, devido à “grande política de mobilização da água”, mesmo em períodos de seca, os mercados nacionais foram mantidos “bem abastecidos”.

A transparência na comercialização dos donativos foi, segundo Lopes da Silva, “determinante” para que Cabo Verde ganhasse a confiança dos doadores.

“Fazia questão de produzir um relatório mensal que era distribuído a todos os departamentos [do Estado] e aos doadores, dando conta da quantidade de produtos recebidos e o montante resultante da comercialização”, precisou, acrescentando que cada relatório se fazia acompanhar do número de cada cheque a identificar os projectos, a fim de dar “credibilidade à iniciativa e tranquilizar os credores”.

Osvaldo Lopes da Silva foi deputado da primeira legislatura, mas diz não ter boas recordações desse tempo, porque nunca foi defensor de alguém ser ministro e parlamentar ao mesmo tempo.

“Todos nós éramos assim. O Abílio [Duarte], por exemplo, era presidente da Assembleia Nacional Popular e ministro dos Negócios Estrangeiros. Esta situação era anormal”, conclui.

A Independência Nacional é hoje considerada unanimemente pelos cabo-verdianos a data maior e um “marco importante e histórico” para o arquipélago.

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