Cerca de 10 por cento das adolescentes cabo-verdianas com idades compreendidas entre os 15 e 17 anos, deixam a escola por causa da gravidez precoce.

Esta constatação é feita pela socióloga Antónia Teixeira, quem considera que com esse comportamento, os jovens cabo-verdianos estão a mostrar, nessa fase de adolescência, uma curiosa contradição, pelo facto de estarem a começar a ter relações sexuais cada vez mais cedo.

“Actualmente a maternidade antecipada já é a principal causa de evasão escolar de meninas nesta faixa etária. A maioria vem de famílias mais carenciadas e com uma cultura enraizada e de difícil influência”, salienta a socióloga.

A propósito deste tema, a Inforpress fez uma ronda por várias escolas secundárias do concelho da Praia, com o fito de auscultar a opinião dos alunos. Na realidade, constatou que apesar de conhecerem todos os mecanismos de precaução, as meninas deixam-se engravidar conscientes das consequências.

Na reportagem, onde abordou estudantes e directores das referidas escolas, alguns alunos dizem não ter nada contra, e afirmam até com toda a tranquilidade, “que a virgindade deixou de ser levada a sério. A primeira relação sexual inicia por volta dos 14 anos e a virgindade é coisa do passado”, defendem.

A esse respeito, explica a socióloga, a gravidez realmente está se tornando um grande problema na educação, pois, existem dois caminhos possíveis: anular a matrícula e perder um ano escolar ou abandonar os estudos para cuidar da criança.

“Normalmente, as adolescentes jogam os filhos para os avós criarem e tentam trabalhar para sustentá-los. Muitas deixam a escola e nunca mais voltam. Esta atitude provoca uma geração de pais inexperientes e confusos, cujos filhos podem se transformar em adultos sem referências”, adverte.

Entretanto, as escolas, cumprindo directrizes do Ministério da Educação, negoceiam com todas as partes envolvidas a melhor forma de recompensar a jovem estudante de forma a não abandonar o sistema educativo.

Na Escola Secundaria de Achada Grande, o director Vlademir Silves Ferreira confirmou dois casos no primeiro trimestre, um mês depois do início das aulas, que já solicitaram anulação de matrícula para o desenvolvimento do feto.

“Neste caso, a direcção, os alunos e os encarregados de educação negoceiam a melhor forma de resolver o problema. Se for uma jovem com um percurso escolar excelente pode retomar as aulas no segundo trimestre, mas se for uma cujo historial não permite acompanhar os outros, aconselhamos sempre anulação de matricula”, disse.

Conforme apurou a Inforpress, o Liceu Domingos Ramos, na Praia, foi confrontado no ano lectivo 2008/2009, com sete anulações de matrícula por motivo de gravidez.

Este ano, segundo a directora, Rosa Silva, já foram apresentados dois pedidos de anulação à instituição.

“O caso mais gritante é de uma aluna do primeiro ciclo, com os seus 15 anos, em que a própria mãe veio à direcção solicitar anulação porque a filha grávida já se tinha casado com um senhor de 25 anos de idade. Não compreendo isso, porque, em se tratando de uma menor, a lei devia agir de outra forma e não permitir o casamento”, interrogou a directora, sem explicações.

Na Escola Técnica Cesaltina Ramos, em Achada Santo António, apesar de se falar de mais casos, o director apenas confirmou dois deles. “Nós já recebemos dois pedidos de anulação de matrícula. Quanto ao resto não podemos confirmar, pois, não somos médicos”, precisou.

Perante este cenário, a socióloga Antónia Teixeira é de opinião que a gravidez na adolescência é um fenómeno complexo associado a vários outros factores, nomeadamente, individual, familiar, social, cultural e educacional.

“Este fenómeno não se explica por uma única causa ou factor, mas por um conjunto de factores que influenciam os contextos de vida dos jovens, cujos padrões e regras mudam nas transacções que o indivíduo estabelece com o seu meio”, conclui.

PC

Inforpress