A insuficiência de pasto, sobretudo nos pólos de maior concentração de gado, maioritariamente caprino, leva criadores a imaginar e inventar “fórmulas” para salvar os seus efetivos e garantir a sobrevivência dos agregados familiares que dependem desta atividade.

A Inforpress auscultou um grupo de criadores de gado residente entre os povoados de Cabeça do Monte, no município de São Filipe, e Monte Vermelho, no de Santa Catarina do Fogo, que há vários anos vivem da atividade de pecuária.

A preocupação é a mesma, falta de pasto e água, em alguns casos, e a forma como ultrapassar a situação.

Agostinho, um jovem de 31 anos e que vive há 20 da criação de animais, disse à Inforpress que “a situação é péssima a nível da ilha e mais preocupante na sua localidade e que neste momento já não dispõe de maneira de alimentar os seus efetivos”, acrescentando que se parecer alguém interessado vai desfazer de parte dos animais na tentativa de salvar alguns.

“A situação é pior da crise de 2014”, disse Agostinho, indicando que naquele ano era possível adquirir pasto em outros pontos da ilha do Fogo, o que não é possível neste momento, acrescentando que já se deslocou a Tinteira (Santa Catarina) e Relva (Mosteiros) com intuito de adquirir alguma quantidade, mas que não foi possível devido à inexistência de pasto.

Segundo o mesmo, nas zonas de pastagem os animais estão “em cima de pedras e sem nada para comer”, afirmando ainda que, perante o cenário, os criadores são obrigado a reduzir os seus efetivos, embora isso represente um problema futuro, para não perder tudo, na esperança de que as autoridades, no quadro de plano de salvamento de gado, e consequentemente das pessoas que dependem desta atividade, o preço de ração e milho seja compatível coma realidade.

Augusto, criador da localidade de Monte Grande (São Filipe), que se dedica à atividade pecuária há vários anos, considera de difícil a situação e reitera que mesmo que venha ocorrer chuvas nos próximos dias o problema vai continuar, porque o pasto “está seco e não vai rejuvenescer”.

Nas zonas altas, conhecido como Serra, “existe algum pasto mas não em quantidade suficiente”, afirma Augusto, indicando que há o problema de falta de água, o que impede a transferência dos animais para este espaço, observando que será necessário fazer a recolha e transporte à cabeça para a zona intermédia.

Este criador defende que no quadro de uma campanha de salvamento de gado, o Governo não precisa dar nada aos criadores, mas sim disponibilizar ração e milho em quantidade e a preço razoável ou abrir uma linha de crédito aos criadores para que consignam dinheiro para aquisição desses produtos para salvar os seus efetivos.

O valor, sustentou, será reposto no ano seguinte, observando que, em 2014, por exemplo, ele teve crédito de uma casa comercial e que no ano seguinte liquidou todo o valor concedido.

Além de falta de pasto, Augusto queixa-se também do “deficiente serviço de assistência técnica” da delegação do Ministério da Agricultura e Ambiente (MAA), que neste momento, ajuntou, “não dispõe de uma técnica veterinária” para dar assistência, e que muitos animais estão a morrer não se sabendo se é por problemas relacionados à qualidade de pasto ou alguma doença nos animais.

A única veterinária da delegação do MAA encontra-se de férias neste momento, dai a queixa dos criadores.

Alfredinho, um criador de referência em Achada Furna (Santa Catarina), por seu lado, classifica a situação de difícil mas mostra-se esperançado que a mesma pode ser minimizada caso venha a ocorrer chuvas nos próximos dias ou meses.

Segundo o mesmo, a situação em Cabeça Fundão, área donde costuma recolher pasto ou levar o seu gado, “é ainda pior”.

“A situação é difícil para os animais e é mais difícil para as pessoas que vivem do rendimento dos animais”, disse Alfredinho, indicando que face a situação os criadores serão obrigados a reduzir os seus animais com reflexos no sustento da família no presente e no futuro.

Para este criador, além de um plano de salvamento de gado é necessário que o Governo crie emprego para as pessoas que dependem desta atividade.

Alguns criadores de Cabeça Fundão deslocaram-se com os seus rebanhos para a zona baixa, nomeadamente para a localidade de Saltos, mas estão a regressar a Cabeça Fundão porque a situação é praticamente idêntica, embora nessa localidade além de inexistência de pasto há o problema de escassez de água.

Em algumas localidades, o problema reflete-se na produção de queijos e, a título de exemplo, um criador que num ano normal produzia uma média de 60 queijos/dia, está a produzir menos de um quinto.

A Inforpress contactou também algumas das unidades semi-industriais de produção de queijo. O de Cutelo Capado está a produzir uma média de 200 queijos dias neste momento, mas a perspetiva é para “uma redução drástica” a partir de Janeiro de 2018.

Manuel Mendes de Suifogo, disse, por seu lado, que neste momento a situação é razoável porque nas zonas de Patim, onde está sediado, no Jardim/Batente há algum pasto e a empresa está a produzir 200 queijos/dia e que a ideia é aumentar até final de Outubro para 250, mas que a produção pode diminuir a partir de Janeiro.

Este pede que o plano de emergência seja implementado em tempo útil, no momento em que os animais estejam com capacidade para produzir leite e não deixar para mais tarde e numa altura em que já não dispõe desta capacidade, acrescentando que é necessário reforçar alimentação dos animais com ração e milho.

Quer a unidade de Cutelo Capado como a de Suifogo queixam-se do clássico problema de transporte com as ilhas turísticas como Sal e Boa Vista, de onde chegam várias solicitações mas que não são satisfeitas por razão ligada ao transporte aéreo e marítimo.

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