Porque é que Filomena Silva, 48 anos, a directora do jornal A Semana, é considerada uma das mulheres mais influentes, senão mesmo a mulher mais influente de Cabo Verde? O poder - qualquer tipo de poder - não é algo facilmente mensurável. A unanimidade em torno de uma afirmação é sempre discutível. Personalidades fortes provocam paixões e ódios. Mas, de colegas de trabalho a anónimos, de amigos a adversários, no país ou no estrangeiro, poucos deixarão de concordar que se trata de uma verdadeira Dama de Ferro das ilhas.

E de onde vem esse poder? Dirigir um semanário que é referência absoluta no panorama da comunicação social de Cabo Verde terá em muito contribuído para tal, sem dúvida. Goste-se dela ou não Filomena Silva  é uma referência incontornável em Cabo Verde. A sua história confunde-se com a história do próprio jornalismo cabo-verdiano das últimas décadas.

A sua marca mais forte? Coragem e ousadia, respondem todos. Para Álvaro Ludjero Andrade, director da TCV e ex-colega, "ela é capaz de trabalhar 26 horas; de um rigor técnico, quer no jornalismo quer na gestão, que é difícil de encontrar. Reconhece que a antiga colega "não tem um feitio fácil. Possui um temperamento forte. Aquilo que nas ilhas se chama de "mulher-macho". Mas, ao mesmo tempo, acrescenta Álvaro, "sente verdadeiramente a dor das pessoas".

Inconformista e desassombrada por natureza, Filomena Silva é conhecida pela sua forte personalidade e a frontalidade com que enfrenta os problemas. "O jornal A Semana é aquilo que é graças a essas qualidades", defende, por seu lado, a jornalista Marilene Pereira, que a considera a "verdadeira Passionária de Cabo Verde".

Temerária e de voz enrouquecida pelos muitos cigarros em noites de fecho de edições, ela enfrentou desafios difíceis ao longo da vida com grande determinação. José Vicente Lopes, companheiro dos primeiros tempos do jornalismo, recorda uma desses momentos: "Quando nos comunicou que íamos comprar as instalações do jornal entrámos em pânico! Com que dinheiro?, perguntámos; quatro anos depois as instalações estavam pagas." 

Famosas são as fúrias e a cólera com que defende os seus pontos de vista - "incapaz de aceitar um não como resposta", conclui Marilene Pereira. A excelência na qualidade é a sua medida. "Não sou uma chefe cool, isso é que não - não sou hipócrita", afirma a própria.

Apesar de tudo, é discreta na sua vida pessoal, não se lhe conhecendo relacionamentos amorosos. Divorciada e sem filhos, há quem afirme que a sua família é o próprio jornal. "Ela centraliza tudo, tem uma obsessão doentia pela qualidade", acrescenta Álvaro Andrade. Para a própria não é bem assim: "Sempre disse que não me haveria de casar, não me via no papel da mulher cabo-verdiana tradicional, submissa; aconteceu, casei-me e divorciei-me, podia ter dado certo, não deu". 

É uma mulher de bastidores, longe dos holofotes do protagonismo. Desperta admiração e alguma raiva contida. Pode ser muito afável, dócil; na opinião de muitos capaz de "dar coices" e de "verter lágrimas" pelos mais necessitado; de pagar do seu próprio bolso a evacuação de um funcionário doente para o estrangeiro ou de chorar a morte de um ex-funcionário difícil, antigo presidiário, a quem dera trabalho. "Tem um bom fundo", conclui Álvaro L. Andrade.

"É uma líder natural, lutadora", diz o director da Rádio de Cabo Verde, Carlos Santos, que recorda uma "briga feia", durante uma reunião de jornalistas.

"Corajosa?", pergunta Marilene Pereira, "uma vez ela foi ao Benim e colocou uma cobra piton em volta do pescoço - chameia-a de a Pitonisa das Ilhas".

Jornalista

Depois de concluir o curso de jornalismo, no final dos anos oitenta, em Cuba, Filomena Silva passa pelo jornal A Tribuna, antes de ingressar no Voz di Povo. O jornalismo cabo-verdiano vive então sob as regras do regime de partido único. Mas o jornal já era, na época, o viveiro de jovens jornalistas inconformados que viriam a destacar-se, anos mais tarde, como José Vicente Lopes, Carvalho Santos, Jorge Soares, Álvaro Ludjero Andrade, Arminda Barros.

Deputada

O jornalismo e a causa das mulheres foram sempre uma preocupação sua. Com a abertura política, de 1991, Filomena Silva integra a lista de deputados pelas Américas, do PAICV, sendo eleita para a Assembleia Nacional, na 1ª legislatura, como deputada suplente. O escritor Germano Almeida, na altura também ele deputado pelo MpD (vencedor das primeiras eleições livres) recorda-se da sua figura sorridente na bancada, "sempre simpática, afável, mas com poucas intervenções".

Para Filomena acabou por ser uma ´"experiência interessante", como ela própria recorda: "Empenhei-me em temas como o aborto, os direitos humanos e o respeito pela profissão e pelos jornalistas". "Nessa época", continua, "éramos recambiados para o quintal, enquanto esperávamos ser recebidos por algum governante, para junto dos motoristas e dos guarda-costas."

Mas as sessões parlamentares eram trimestrais, na altura. A ocupação principal continuava a ser o jornalismo. Entretanto, com a extinção do jornal Voz di Povo, Filomena Silva é convidada para a Direcção-Geral da Comunicação Social, dirigida então por Ondida Ferreira. José Vicente Lopes, colega jornalista, recorda esse momento curioso: "Todos os jornalistas do extinto Voz di Povo foram integrados noutros órgãos, menos eu e a Filomena; a ideia era a abertura de uma suposta Escola de Jornalismo que iriamos dirigir, mas na verdade era um 'presente envenenado': queriam colocar-nos na prateleira". Seis meses depois, Filomena Silva bateu com a porta.

Empresária

O jornalismo tornava-se cada vez mais difícil. Os problemas com o então governo do MpD começam a endurecer e vão ajudar a revelar o carácter determinante da jornalista. "Eu disse para mim que haveria de sobreviver de qualquer maneira". A ideia foi abrir um restaurante na capital do país, com uma amiga. Mário Matos, deputado do PAICV e colunista do A Semana, era um dos clientes habituais: "Chamava-se 'Só Comer' e era um dos restaurantes mais in da Praia, muito concorrido e com bom gosto na decoração". A mão férrea de Filomena conduz com sucesso a nova aventura. No seu novo restaurante recebe agora diplomatas e figuras ilustres, juntamente com delegações enviadas pela embaixada de Portugal. "Até o D. Duarte de Bragança foi meu cliente", recorda.

Mas, apesar do sucesso, José Vicente Lopes não tem dúvidas: "Aquilo tudo não passava de uma retirada estratégica". Filomena preparava o seu regresso ao jornalismo.

Tribunais

Um novo jornal, o A Semana, entretanto criado, ameaçava fechar as suas portas. Aos problemas económicos somavam-se os processos nos tribunais, uns por difamação, outros por "atentado ao bom nome e à honra" dos visados - uma acusação que viria a fazer parte do quotidiano de Filomena Silva. Com a saída do então director Jorge Soares para os Estados Unidos, Filomena Silva é convidada e assume, em 1995, a direcção do jornal. Se nos anos que se seguem - e graças à sua tenacidade e persistência - o jornal consegue sair do sufoco económico, o modelo inédito de jornalismo crítico, de investigação, num quadro político hegemónico, vai grangear para ela um número crescente de processos em tribunal.

"O Jornal saía à sexta-feira e na segunda já havia processos a darem entrada no tribunal", lembra José Vicente Lopes. "O banco dos réus do tribunal da Praia já tinha a forma da bunda da Filó", graceja Marilene.

Os amigos mais próximos temem pela sua segurança e chamam-na de louca. As condenações, amnistias, absolvições e penas suspensas sucedem-se. "A Filó só não foi para a cadeia por causa de um indulto", lembra Marilene Pereira. Mas, durante certo período de crise, é o próprio governo do MpD a permitir que o jornal seja impresso na gráfica da Imprensa Nacional, a custo zero: "Era preciso legitimar a democracia com a existência de um jornal independente", ironiza Filomena.

O ponto crítico chega no final dos anos noventa, com o jornal a ser condenado pelo tribunal a pagar uma indemnização avultada - o suficiente para o obrigar a fechar as portas. A situação nunca fôra tão grave. Procuram-se soluções. Alguém se lembra então de iniciar uma subscrição pública para salvar o A Semana. Em pouco tempo a notícia espalha-se pelo país e pela diáspora. De vários pontos do planeta chegam contribuições: EUA, Portugal, França, Holanda, Itália. "Nunca se viu uma coisa assim", recorda José Vicente Lopes. "Angariámos tanto dinheiro que deu para pagar a indemnização e ainda para comprar um carro para o jornal". O episódio serviria para criar na sociedade cabo-verdiana uma consciência de liberdade de expressão e fixar o A Semana como referência no país.

O país, entretanto, mudou, ganhou maturidade cívica e política. "Hoje é tudo diferente", afirma Filomena, "o Carlos Veiga e outros dirigentes do MpD são convidados para as nossas conferência e participam com muita qualidade e damo-nos todos muito bem."

Filomena continuou na sombra, onde sempre gostou de estar. A dedicação ao trabalho aumentou, com a chegada do A Semanaonline, o portal que inaugurou a entrada do jornal na nova era de informação. E férias continuam a não ser uma prioridades para ela. "Em oito anos anos ela tirou férias pela primeira vez", lembra Marilene, "e quando está fora fica a ligando a toda a hora para saber como estão as coisas".

Quinze anos depois, o seu orgulho, ela própria o confessa: "É formar bons profissionais e garantir a saída, todas as semanas, de mais edição do jornal". Num momento em que o Estado reconhece o mérito de alguns cidadãos, condecorando-os, Filomena é peremptória: "Chega-me o reconhecimento do público cabo-verdiano e continuar a fazer jornalismo, e que através disso possa trazer algo de bom às pessoas, mudar o seu destino, uma casa recuperada, um emprego recuperado, combater a injustiça - essa é a minha recompensa".

Filomena Silva faz uma pausa para recuperar a frase de um velho jornalista do New York Times, durante uma visita: "Não percam a ligação com o público, com os leitores que mais precisam de nós, disse-me ele, somos o elo essencial da cadeia - esse é o nosso prémio final."

Joaquim Arena

Foto tribunal: ecaboverde