Ondo Angue, citado pela agência espanhola Efe, referiu que se sente "preocupado" com o assédio que sofreu na terça-feira, quando "mais de 15" militares utilizaram "veículos com metralhadoras" para bloquear a sua casa.

"Eu fiquei bastante assustado. Nem sequer levavam algum documento oficial", afirmou o ex-presidente do Supremo Tribunal equato-guineense, referindo-se à chegada do grupo de militares.

O magistrado acrescentou: "A situação parecia típica de um grupo que vem para sequestrar pessoas e depois torturá-las. É bastante comum na Guiné Equatorial".

A situação levou Ondo Angue a alertar o embaixador espanhol no país, Guillermo López Mac-Lellan, que foi "imediatamente" para sua casa, onde também estavam presentes os embaixadores de França, Olivier Brochenin, e dos Estados Unidos da América, Susan Stevenson.

O magistrado referiu que os militares não abandonaram a sua casa sem exigir que este se apresentasse numa esquadra da polícia no dia seguinte, uma exigência que ignorou porque "a convocatória não foi feita atempadamente e de forma" correta.

"Alguns amigos acolheram-me porque não posso estar em casa", disse o ex-presidente do Supremo Tribunal equato-guineense, tendo sublinhado que não foi "notificado de um ato formal de acusação".

Durante o dia de ontem, o Governo da Guiné Equatorial acusou os embaixadores de Espanha, França e Estados Unidos da América de "interferência".

Os três diplomatas "abandonaram as suas funções e interferiram num processo judicial iniciado contra alguns cidadãos da Guiné Equatorial", referiu o ministro das Relações Exteriores, Simeón Yono Esono Angue.

Num comunicado divulgado na quarta-feira, o ministro disse estar indignado e criticou o comportamento dos embaixadores, que considerou terem incorrido numa "interferência nos assuntos internos" do seu país.

À televisão estatal, a RTVGE, o procurador-geral do Estado, Anatolio Nsang Nguema, confirmou que as forças de segurança iam deter o antigo presidente do Supremo Tribunal de Justiça, integrando uma investigação a uma alegada tentativa de golpe de Estado, em dezembro de 2017, apontada ao Presidente, Teodoro Obiang.

O Governo defende que um grupo de mercenários oriundos do Chade, Sudão e República Centro-Africana tentou realizar o golpe, com o objetivo de derrubar Obiang, que lidera o país há quatro décadas.

Num julgamento realizado num tribunal na província de Bata, descrito pela organização de defesa dos direitos humanos Human Rights Watch como "uma farsa", 112 pessoas foram consideradas culpadas, tendo 20 delas sido condenadas a mais de 70 anos por terem participado no alegado golpe.

Ondo Angue refere que está a ser investigado "por uma possível relação com juízes envolvidos numa tentativa de golpe de Estado".

"Isto é um pouco absurdo, porque quando o julgamento começou, em dezembro de 2017, eu ainda era o presidente do Supremo Tribunal", referiu o magistrado, citado pela Efe.

"O que deduzo é que a intenção é claramente eliminar-me, usando o pretexto da intenção", afirmou.

Juan Carlos Ondo Angue, filho da antiga embaixadora equato-guineense em Espanha Purificación Angue Ondo, foi afastado da presidência do Supremo Tribunal em agosto de 2018.

A destituição decorreu "sob proposta do Conselho Superior da Magistratura", segundo o decreto presencial então emitido, que não especificou as razões para o afastamento.

No início desse ano, o Presidente Teodoro Obiang Nguema, denunciou a corrupção no sistema judicial do país da África Central.

Angue foi então substituído por David Nguema Obiang Eyang, um antigo procurador-geral.

Desde que obteve a sua independência de Espanha, em 1968, a Guiné Equatorial tem sido considerada pelas organizações de defesa dos direitos humanos como um dos países mais repressivos do mundo, em particular com acusações de detenção e tortura de dissidentes e repetidas alegações de fraude eleitoral.

Teodoro Obiang lidera o país desde 1979, quando derrubou o seu tio Francisco Macias num golpe de Estado, sendo o Presidente que há mais tempo está à frente de um país.

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