A consideração é de João Divo Macedo, aquele que foi o mais jovem dos 20 presos políticos cabo-verdianos, tendo sido aprisionado aos 17 anos e passado quatro anos no local (1970 – 1974).

“Fiquei muito contente ao saber dessa iniciativa das autoridades de apresentar a candidatura do ex-Campo de Concentração para ser transformado num Património da Humanidade assim como aconteceu com Cidade Velha. É uma boa iniciativa e se efectivar será uma grande satisfação para nós. Sentimo-nos orgulhosos”, disse.

João Divo Macedo, hoje com 65 anos, goza do título de combatente da liberdade da Pátria e é considerado um testemunho vivo da memória do “campo da morte lenta”.

Quando questionado se gostaria de ser envolvido mais no processo e falar mais do tempo em que viveu, João Divo Macedo responde que sim.

“Sobre a candidatura só ouvi pela comunicação social. Nós somos testemunhos vivos. Vivemos a situação e estamos em condições de contar as nossas histórias. Eu nunca falei com ninguém, mas espero que outros colegas estejam a ser envolvidos”, disse.

Por outro lado, João Divo Macedo congratula-se com a possibilidade dessa candidatura ser abraçada pela Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), já que, conforme frisou, o estabelecimento prisional estava em Cabo Verde, mas os presos eram de quatro países, todos integrantes hoje da CPLP.

“Entendo que faz todo o sentido os países de onde vieram os presos, nomeadamente Angola, Guiné-Bissau e Portugal, apoiarem essa iniciativa de Cabo Verde”, realçou.

Enquanto preso político conta que o tratamento era diferente dos presos de delito comum. “Nós não passamos pela frigideira (que era a cela de castigos, cuja função era tentar aniquilar a vontade da resistência dos presos), mas tivemos também os nossos momentos desagradáveis, já que estávamos condenados ao isolamento e à morte lenta”, contou.

No total estiveram presos no então Campo de Trabalho de Chão Bom 20 cabo-verdianos. João Divo Macedo fez parte da segunda leva de presos integrados por 12 membros que estiveram envolvidos no assalto ao navio Perola do Oceano, em 1970.

A intenção dos mesmos era de ir para Guiné Conakry para receber instrução militar e depois ingressar no PAIGC na Guiné Bissau, plano que, entretanto, fracassou porque foi descoberto pelos dirigentes coloniais.

O Campo de Concentração do Tarrafal foi originalmente concebido para albergar os presos antifascista portugueses e posteriormente presos anticolonialista da África portuguesa, designadamente de Angola, Guiné-Bissau e Cabo Verde.

Foi “libertado” em 1974 como corolário da luta daqueles para os quais o campo foi construído. Em 2006 por meio de uma resolução do Governo, foi classificado património cultural nacional.

Neste momento, o Governo de Cabo Verde prepara o dossiê para em 2019 apresentar uma candidatura junto da UNESCO, visando a sua elevação à categoria de património da humanidade.