A posição foi assumida em entrevista à agência Lusa, na cidade da Praia, pelo ex-primeiro-ministro (2001-2016) e ex-líder do Partido Africano da independência de Cabo Verde (PAICV), actualmente professor na Universidade de Cabo Verde.

“De um lado acho que há algum deslumbramento, dos novos governantes. E ultrapassada essa fase de deslumbramento, as coisas poderão funcionar com mais serenidade, com mais normalidade, com mais naturalidade”, disse José Maria Neves, garantindo que é preciso “mais diálogo” e “mais compromisso entre a maioria e a oposição”.

Desde as eleições legislativas de 2016 que o PAICV está na oposição, tendo o Movimento para a Democracia (MpD) obtido a maioria parlamentar, chegando ao poder uma nova geração do partido, que antes foi Governo durante 10 anos, até 2001.

No parlamento, os debates políticos têm sido marcados, nos últimos três anos, por acusações mútuas e ausência de consenso entre os dois principais partidos, o que inviabilizou até, em 2019, uma proposta sobre a regionalização.

“Essa disputa extremada entre os partidos, essa excessiva partidarização da sociedade cabo-verdiana, pode levar, a prazo, a um enorme desgaste das instituições, a um enorme descrédito dos políticos e da política e pode abrir espaços a outros movimentos populistas aqui no país”, advertiu.

Afirma que “há uma excessiva crispação” e “uma reduzida confiança mútua entre os partidos políticos”.

“Não há procura de entendimentos”, criticou ainda, reclamando uma “atitude diferente” a quem governa o país.
José Maria Neves afirma que as “responsabilidades são partilhadas entre a maioria e a oposição”, respectivamente o MpD, liderado por Ulisses Correia e Silva (que é também primeiro-ministro), e o PAICV, de Janira Hopffer Almada.

“Apesar de tudo, Cabo Verde mantém-se ainda como um país muito frágil, muito vulnerável a choques externos, e é preciso que quem governa, sobretudo nos tempos de hoje, tenha em conta esta fragilidade e trabalhe no sentido de construir mais pontes, mais compromissos, haver mais diálogo e mais consensos sobre o que é essencial para o país”, apontou.

Propõe mesmo que assuntos estruturais para o país, como os que envolvem a segurança nacional, a construção de infra-estruturas ou a educação, passem a necessitar de uma maioria de dois terços no parlamento.

“Tivemos muitos ganhos nestes 40 anos de independência, mas hoje, em 2019, temos de acelerar o passo”, afirmou.

Esta posição surge poucos dias depois de a maioria (MpD) ter aprovado uma Comissão Parlamentar de Inquérito à construção, durante o Governo de José Maria Neves e do PAICV, de três barragens, envolvendo uma linha de financiamento de Portugal, mas que apresentam problemas técnicos e que não chegaram a funcionar.

“Eu durmo absolutamente tranquilo e acho uma aberração o debate que se tem feito em relação às barragens”, criticou o ex-primeiro-ministro. Garantiu que a construção das barragens era apenas uma das componentes do programa de mobilização de água desenvolvido pelo Governo anterior, e que envolveu ainda dessalinização, perfuração, construção de reservatórios e diques de contenção, entre outras obras.

“Caso contrário, hoje a situação seria catastrófica”, disse José Maria Neves, numa alusão à seca que há mais de dois anos afecta Cabo Verde.

Nesse sentido, reforça a crítica ao Governo do MpD, pelas dúvidas lançadas aos programas do executivo anterior: “Cabo Verde não pode ter um Governo de contestação. Quem governa tem de assumir as responsabilidades da governação. Um Governo não pode estar, três anos depois de assumir [funções], a lançar suspeições e a contestar”.

Ainda sobre as barragens, cujas conclusões da Comissão Parlamentar de Inquérito deverão ser conhecidas em 2020, ano de eleições autárquicas em Cabo Verde, José Maria Neves recorda que o assunto “sempre foi polémico”, mesmo no tempo colonial, sobre a viabilidade desses projectos, mas que o executivo anterior avançou com as obras “inseridas numa estratégia global” para o arquipélago.

“Um Governo não pode assumir a governação de um país e tudo o que é bem é resultado dos últimos três anos e todos os problemas são do Governo anterior e uma pesada herança”, ironizou.

Na mesma entrevista mostrou-se preocupado com os níveis e qualidade da actual despesa pública do país, que ronda os 120% do Produto Interno Bruto (PIB), mas que diz ter aumentado, em termos absolutos, 47.000 milhões de escudos (428 milhões de euros) desde o último Governo do PAICV.

Enquanto primeiro-ministro de Cabo Verde, José Maria Neves lidou com seis homólogos em Portugal e três Presidentes da República portugueses, mas garante que ao longo do percurso as relações bilaterais, “foram excelentes”, tal “como acontece desde 1975”.

“Portugal tem sido fundamental para Cabo Verde”, assumiu, afirmando que o apoio vai “muito mais além” dos instrumentos financeiros.

“Por exemplo, não é possível contabilizar o apoio que Portugal dá a Cabo Verde no domínio das evacuações [médicas, para tratamento em hospitais portugueses]. Há este episódio triste [criança cabo-verdiana de 4 anos que morreu após dois meses a aguardar transferência], mas o acordo, desde logo precisa de ser revisto, revisitado, porque Portugal também tem os seus problemas, os custos, as despesas com a saúde, etc.”, disse ainda.

“Portugal tem sido um parceiro privilegiado no desenvolvimento de Cabo Verde e tem continuado, independentemente dos governos (…). São relações extraordinárias”, concluiu.

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