Em 17 de outubro de 2003, enquanto o então presidente da Bolívia, Gonzalo Sánchez de Lozada, deixava o país em um voo para Miami, Carlos Mesa chegava à sede do Congresso para prestar seu juramento.

Como vice-presidente, o jornalista e historiador Mesa assumiu o comando do país após renúncia de seu antecessor, em meio a semanas de protestos e um massacre que deixou mais de 70 mortos e centenas de feridos.

Os incêndios ainda ardiam nas barricadas das cidades de La Paz e El Alto e, de tempos em tempos, eram ouvidas explosões de dinamite dos mineiros, quando Mesa jurava com o sinal da cruz e recebia a faixa presidencial.

Entre 2001 e 2005, a Bolívia teve cinco presidentes. Mesa foi um deles e mal conseguiu permanecer no poder por um ano e sete meses, em razão da turbulência instalada no país sul-americano.

Alvo tanto de manifestantes quanto de partidos políticos, Mesa acabou por renunciar ao cargo. Agora, 14 anos depois, se aproxima de uma segunda chance graças ao resultado da eleição presidencial deste domingo (20).

Com quase 90% dos votos contabilizados, ele deve enfrentar o presidente Evo Morales, que está no poder há quase 14 anos e busca o quarto mandato consecutivo, no segundo turno em 15 de dezembro.

Morales aparece com 45,28% dos votos, contra 38,6% de Mesa. Na Bolívia, para ser eleito presidente são necessários 40% dos votos e uma diferença de 10% para o segundo colocado, ou mais de 50% da votação.

Um segundo turno seria o primeiro em 37 anos, e um duro revés para Evo Morales, que só conseguiu o direito de disputar um quarto mandato — apesar de um pleibiscito em 2016 ter decidido contra sua reeleição — após uma decisão da instância máxima de Justiça do país, o Tribunal Constitucional.

Mesa chegou a esse ponto sob denúncias e críticas não apenas do partido no poder, mas também dos setores mais radicais da oposição boliviana, que o acusam de lavagem de dinheiro e corrupção.

Antes da política

Carlos Mesa, hoje com 66 anos, estudou em um colégio tradicional jesuíta de La Paz, onde desde o primeiro ano tornou-se amigo de Roberto Melogno.

Desde então, eles não se afastaram e hoje o segundo é um dos conselheiros da campanha presidencial de seu amigo.

Apoiadores de Mesa
Candidato Carlos Mesa integra a coligação Comunidad Ciudadana. créditos: Reuters

Melogno, em entrevista à BBC News Mundo (serviço em espanhol da BBC), lembrou que Mesa sempre demonstrou interesse por diferentes temas, como história, política, cinema e futebol, “mas não para jogar, porque ele não era muito habilidoso”.

Seu interesse passava pelos esquemas táticos e por décadas de estatísticas de diferentes times bolivianos, sabendo tudo de cor, segundo seu amigo.

Melogno também destaca a influência dos pais de Mesa sobre o hoje candidato, que eram ensaístas renomados envolvidos com pesquisas históricas de diferentes fases do país.

“As últimas edições do livro História da Bolívia (publicado pela primeira vez há 22 anos) já trazem a assinatura dos três, Teresa Gisbert, José de Mesa e Carlos de Mesa.”

Figura pública

Mesa terminou o ensino médio no início dos anos 190 e se graduou em literatura na universidade. Em paralelo, passou a ganhar espaço na mídia.

Entre 1980 e 90, se tornou uma figura pública e até fundou um canal de televisão privado com uma equipe de jornalistas.

A linha editorial passou a ser alvo de críticas, em razão do alinhamento com as medidas “neoliberais” da época, como a privatização das empresas bolivianas.

Na opinião de Sebastián Michel, atual embaixador boliviano em Caracas (Venezuela), Mesa se encantou com o discurso reformista e modernizador da época, o que o levou a ingressar no projeto político do bem-sucedido empresário de mineração e chefe do partido mais poderoso da Bolívia na época, Gonzalo Sánchez de Lozada.

“Ele se apaixonou por esse governo entre 1993 e 1997 com medidas de ajuste estrutural e estabilização econômica com alto custo social”, disse o diplomata à BBC News Mundo.

Michel acrescenta que o atual candidato da oposição acreditava nas políticas implementadas nos anos 1990, mas estas derivaram na crise social e econômica do início do século na Bolívia.

Mesa e eleitores
Mesa oficializou sua candidatura presidencial no final de 2018 créditos: Getty Images

Por outro lado, esta é a fase mais prolífica de Mesa como historiador e jornalista, momento em que fortalece sua equipe, obtém uma licença para ter um canal de TV e começa a ganhar prêmios nacionais e internacionais por sua produção jornalística.

Em 2002, já como um dos rostos mais famosos na mídia boliviana, aceitou o convite para ser o vice-presidente de Gonzalo Sánchez de Lozada.

O candidato (parte 1)

No início do século, o descrédito em torno dos partidos políticos na Bolívia era bastante elevado, com seguidas manifestações e bloqueios nas ruas, tendo Evo Morales como um de seus principais protagonistas.

O país enfrentava uma forte recessão econômica que atingia a maioria da população. De outro lado, vinham à tona diversos escândalos de corrupção envolvendo autoridades do país.

É nesse contexto que Mesa, que até então não havia se aproximado da política partidária, passa a ser colega de chapa de Sánchez de Lozada numa campanha voltada à “luta contra a corrupção”.

Evo con Mesa
Evo Morales convocó a Carlos Mesa para que fuera el vocero de la demanda marítima de Bolivia ante Chile. créditos: Getty Images

A chapa Lozada-Mesa venceu a eleição, mas o plantador de coca Evo Morales se colocou como um líder nacional.

Sem maioria no Congresso e com o país em meio a uma crise econômica e social, o novo governo assumiu em 6 de agosto de 2002, mas não durou 15 meses.

‘Outubro Negro’

As manifestações e os bloqueios nas ruas e estradas aumentaram à medida que crescia a rejeição a um projeto do governo para exportar reservas de gás para os Estados Unidos, considerado desvantajoso para o país.

A repressão violenta, que deixou mortos camponeses e indígenas, resultou em um cerco que passou a causar escassez de comida e combustível na capital La Paz.

Um dia após o chamado “comboio da morte”, operação policial e militar que acabou em mortos e feridos, Mesa rompeu com o presidente Sánchez de Lozada, mas anunciou que permaneceria no cargo de vice-presidente.

O rompimento foi considerado uma traição pelo governo à época.

Mesa presidente
Carlos Mesa recebeu a faixa presidencial em 17 de outubro de 2003 créditos: Getty Images

Poucos dias depois, na sexta-feira, 17 de outubro de 2003, a entrada de mineiros portando bastões de dinamite no coração de La Paz foi o golpe final no governo Sanchez Lozada e precipitou a chegada do historiador e jornalista à Presidência do país.

O período é lembrado na Bolívia como “Outubro Negro” ou “A guerra do gás”.

Mesa como presidente

Carlos Mesa fala de seu tempo à frente do país como uma “Presidência sitiada”, expressão que dá título às memórias que publicou sobre sua experiência como presidente.

Em sua descrição do período na obra, ele fala em “momentos em que os eventos aconteceram vertiginosamente”.

Ele presidiu o país entre outubro de 2003 e maio de 2005 sob fogo permanente de protestos, e com Evo Morales como um feroz adversário.

Mesa também não conseguiu apoio significativo no Congresso, dividido entre os partidos que foram parte da coalizão de Sanchez de Lozada e o grupo liderado por Evo.

Em seu breve mandato, Mesa organizou um referendo para definir políticas nacionais de hidrocarbonetos, mas a medida estava longe de atender à principal demanda na Bolívia naquela época: a nacionalização das reservas de gás.

Tampouco conseguiu pacificar o país ao anunciar a convocação de uma Assembleia Constituinte.

A controvérsia sobre os campos de gás permaneceu até o último dia de seu mandato, quando o Congresso aprovou sua saída em uma sessão de emergência fora de La Paz, realizada sob o cerco de organizações sindicais.

Tanque em La Paz
Havia tanques nas ruas de La Paz quando Mesa assumiu a Presidência créditos: Getty Images

Ao longo de anos, aliados do governo de Morales não pouparam críticas ao mandato de Carlos Mesa, que se qualifica como o último presidente “neoliberal” da história da Bolívia.

Mesa é frequentemente responsabilizado pelas dificuldades econômicas que o país enfrentou quando ele era presidente.

“Se algo marcou o governo de Carlos Mesa foram suas hesitações e contradições”, afirmou o hoje ministro da Comunicação, Manuel Canelas.

Para o embaixador Sebastián Michel, essas indecisões levaram Mesa a desperdiçar a oportunidade histórica que teve quando se tornou presidente.

“Essa é uma das grandes frustrações políticas que ele sofre”, conclui o diplomata.

O candidato (parte 2)

Em agosto de 2018, em uma reunião com seu grupo de amigos mais próximos e conselheiros políticos, Mesa falou da possibilidade real de voltar à política.

Era a primeira vez em que as pesquisas o colocavam como candidato com mais oportunidades de derrotar Evo na disputa pela Presidência.

A oposição boliviana busca alternativas para derrotar Morales há 14 anos, mas uma candidatura única nunca foi acertada em todo esse tempo.

Evo Morales
Governante há mais tempo no poder, Evo Morales tenta se reeleger para um quarto mandato consecutivo créditos: ABI

Mesa, no início da disputa, se afastou de líderes de diferentes regiões, especialmente os de Santa Cruz (leste), o Departamento (Estado) mais populoso da Bolívia. O candidato defende a diversificação da economia, para reduzir a dependência do gás, e a recuperação das instituições, que segundo ele foram cooptadas por Evo.

Na fase final das eleições presidenciais, o principal adversário de Evo Morales concentrava seus esforços em pedir o “voto útil” aos bolivianos e, assim, unificar os detratores de Morales ao seu redor.

O terceiro candidato mais forte da disputa era Oscar Ortiz, político e empresário da região, que concentrou grande parte de sua campanha em ataques a Mesa.

Desde que se tornou candidato, Mesa foi questionado sobre acusações de recebimento de recursos ilegais quando era candidato à vice-presidência de Sánchez de Lozada.

Ortiz, como outros oposicionistas e o próprio governo, critica a recusa do candidato em responder a esses questionamentos. Para Mesa, isso é “guerra suja”.

Ex-integrantes da coalizão de Sánchez de Lozada que não perdoam a “traição” de Mesa contra o então presidente afirmaram neste ano que o político recebeu dinheiro ilegal em troca de ser candidato a vice-presidente há 16 anos.

O partido de Evo Morales pegou carona e ampliou os ataques da direita mais conservadora da Bolívia para desacreditar Mesa.

Para alguns, o candidato se saiu bem em não responder às acusações. Outros argumentam que seu silêncio e sua hesitação sobre as denúncias foram o ponto fraco de sua campanha.

Parte do eleitorado se ressente até hoje com a renúncia de Mesa à Presidência enquanto o país enfrentava uma grave crise social e econômica.

‘Evismo moderado’

Uma fatia dos críticos aponta que o projeto dele é uma espécie de “evismo moderado”. Morales assumiu o poder em janeiro de 2006 e é o presidente boliviano que está no cargo há mais tempo na história do país.

Na última década, o país vem crescendo em média a 5% ao ano. O ciclo, que já foi chamado de “milagre econômico boliviano”, começou em 2006, quando Evo Morales chegou ao poder.

Uma das primeiras e principais medidas do presidente, que tenta se reeleger para um quarto mandato, foi a nacionalização do petróleo e do gás natural. Parte das empresas privadas foi transferida para as mãos do Estado.

Apesar de começar com uma política de nacionalizações, tipicamente identificada com governos de esquerda mais radicais, o modelo de crescimento boliviano não excluiu as empresas privadas. Pelo contrário.

Além das multinacionais de óleo e gás, o país também teve um aumento da presença de marcas internacionais em setores que vão de alimentação a moda e entretenimento, interessadas no incremento de renda no mercado doméstico, resultado, em boa parte, das políticas de transferência de renda.

O modelo foi batizado de “economia plural”, com a participação tanto de setores tradicionais quanto de pequenas e médias empresas e grupos indígenas.

É uma espécie de modelo misto, com forte presença do Estado de um lado, tanto no controle dos recursos naturais quanto nas políticas de transferência de renda para os mais pobres, e um ambiente bem mais amistoso do que se poderia imaginar à atuação de grandes empresas, muitas multinacionais.

Em 13 anos de governo, Morales conseguiu manter o nível de crescimento da Bolívia e controlar a inflação, que vem desacelerando e ficou perto de 2% em 2018.

Mas o desempenho de alguns indicadores acenderam sinal de alerta. Um deles são as contas públicas, que estão no vermelho desde 2014 e vêm se deteriorando. Em 2018, o deficit chegou a 8,3% do PIB — para efeito de comparação, no Brasil, o deficit foi de 1,7% do PIB no mesmo período. Há também a expansão do endividamento público sob seu governo, que passou de 36,8% do PIB em 2008 para 53,8% em 2018.

Morales é alvo de críticas de diversos setores, a exemplo de ambientalistas e indígenas, que criticam uma medida federal que ampliou a área permitida para queimadas controladas. Para esses grupos, o presidente boliviano aprova leis para anistiar desmatadores, promove a expansão da fronteira agrícola e demorou a agir contra incêndios na região amazônica.

Além da forte resistência popular à ofensiva de concorrer a um quarto mandato, o presidente é contestado também por ataques à imprensa, pela falta de transparência em contratos públicos (há acusações de favorecimento de aliados do governo) e pelo aumento da violência doméstica contra mulheres no país.

Para Mesa, é “preciso terminar com a concentração de poder e com a teoria de que a Bolívia não pode viver sem Evo”. Em sua avaliação, Morales “já fez o que tinha de ser feito”, como valorizar o conceito de ser indígena no país, ter administrado “razoavelmente” a economia e “não ter repetido o erro econômico da Venezuela”.


Já assistiu aos nossos novos vídeos no YouTube? Inscreva-se no nosso canal!

https://www.youtube.com/watch?v=X8RMUwzHKEU

https://www.youtube.com/watch?v=S0W0TkwAulU

https://www.youtube.com/watch?v=8WY3Yxdzofw

Escrito por: Boris Miranda (@ivanbor)* - BBC News Mundo

Na sua rede favorita

Siga-nos na sua rede favorita.
Os textos do parceiro BBC News estão escritos total ou parcialmente em português do Brasil.