O economista Olivier Blanchard considera que Portugal "consegue pagar a dívida sozinho" e que não deve sequer iniciar o debate da renegociação porque isso teria um "enorme custo de credibilidade" e iria colar o país à imagem da Grécia.

"Renegociar a dívida no sentido de perdoar capital não tem sentido para Portugal. Acho que Portugal consegue [pagar a dívida] por si e tentar [iniciar este debate] teria um enorme custo para a credibilidade", afirmou o antigo economista do Fundo Monetário Internacional (FMI) num encontro com jornalistas a propósito do estudo "Portugal: daqui para onde?", sobre os desafios do país nos próximos 10 anos, que assinou em coautoria com Pedro Portugal.

Blanchard disse mesmo que uma decisão neste sentido faria com que Portugal "fosse visto como a Grécia" e "a última coisa que [o país] quer é ser visto como a Grécia".

No final de 2016, a dívida pública portuguesa atingiu os 130,4% do Produto Interno Bruto (PIB), acima do rácio de 129% com que fechou o ano anterior.

A Grécia, que tinha uma dívida pública de 179% do PIB em dezembro de 2016, fechou um terceiro resgate com os credores internacionais no verão de 2015 e, no início de maio deste ano, foi anunciado um acordo preliminar entre o governo helénico e Bruxelas para desbloquear uma nova tranche de crédito de que o país precisa para pagar sete mil milhões de euros da dívida em julho.

No relatório que é apresentado hoje em Lisboa, os autores abordam também a possibilidade de saída do euro e concluem que "há boas razões para Portugal rejeitar esta opção neste momento", o que "não implica que o euro seja um sistema perfeito", mas consideram apenas que "sair do euro quase certamente não vale a pena para Portugal".

Olivier Blanchard e Pedro Portugal afirmam que "uma das maiores fragilidades da construção do euro é a dificuldade de ajustar os preços e recuperar a competitividade" e reconhecem mesmo que, se um país tiver um problema sério de competitividade e não conseguir resolvê-lo, "a discussão sobre uma saída do euro faz sentido", apesar dos elevados custos de transição, de muito provavelmente ser preciso reestruturar a dívida e de se perder o acesso ao mercado.

No entanto, no caso de Portugal, os economistas escrevem que "o problema de competitividade foi amplamente resolvido, ainda que não na totalidade", pelo que o argumento para uma saída da moeda única "é muito mais fraco do que possa ter sido antes".

Aos jornalistas, o professor do Massachusetts Institute of Technology (MIT) falou também sobre o racional subjacente ao resgate financeiro concedido a Portugal pelo FMI e por Bruxelas entre 2011 e 2014, admitindo que teria sido melhor se o programa tivesse sido "mais generoso".

Reiterando que o racional de que era necessário haver consolidação orçamental e reformas orçamentais "estava certo", Blanchard reconheceu que este ajustamento foi "demasiado rápido", mas que isso se deveu à dimensão do envelope financeiro negociado.

"A velocidade da consolidação orçamental foi determinada pelo montante do financiamento que receberam porque não tinham acesso aos mercados. Se teria sido melhor ter um programa mais generoso? Sim, acho que teria sido melhor ter um programa que permitisse uma consolidação mais lenta", defendeu.

A responsabilidade para o ritmo de ajustamento mais rápido do que o desejável foi, na opinião de Blanchard, partilhada entre a 'troika' - "que não queria gastar demasiado" - e o governo português - "que não estava com vontade de pedir demasiado".

Lusa