Cabo Verde não fica só em África. Cabo Verde está mesmo às portas de Lisboa. Esta é a ideia que o novo documentário do realizador português Rui Simões deixou aos que assistiram à primeira visualização de A Ilha da Cova da Moura, no cinema City Classic Alvalade.
Bairro problemático? Dor de cabeça para as autoridades? As queixas existem, principalmente por parte dos jovens que lá habitam - abusos por parte das autoridades, racismo, invasão domiciliária pela polícia e violação dos seus direitos enquanto cidadãos que aqui trabalham. É verdade.
Mas, no final, a ideia que fica é a de que os seis mil habitantes do bairro vivem no melhor dos dois mundos. Vive-se um Cabo Verde recriado nas ruas, nas festas, bailes de funaná, festas de Colá Sanjon, almoços com cachupa, casamentos, nascimentos, mortes, funerais. E depois, cedo pela manhã, atravessa-se a estrada e apanha-se o autocarro para um outro mundo:  o do trabalho, nas limpezas, na construção civil, nos supermercados, na Lisboa bem portuguesa.
O pedaço de Cabo Verde não é recriado. É real. Como são as maçarocas de milho colhidas nas hortas dos baldios. O realizador acompanha a vida de vários jovens nascidos no bairro, famílias fundadoras, histórias de casas inteiras construídas pela noite dentro, uma espécie de Djunta-Mon, carregando cimento e tijolos, levantando paredes. Vidas cruzadas. Uma luta constante pela sobrevivência. Outras estendendo o braço solidário, como os fundadores da Associação Moinho da Juventude.
Há gente feliz na Cova da Moura. Na verdade, há uma qualidade de vida só igualável à que deixaram para trás, nas ilhas. Tambores e som de búzios, vizinhança da terra. Gente feliz com estórias: cabo-verdianos, portugueses retornados das ex-colónias, guineeses muçulmanos, angolanos, santomenses, de outras Áfricas e do Leste Europeu.
Esta é a face real quando se convive pela casa adentro e quando o tempo não é o de uma simples reportagem para o telejornal. Mas a outra face nunca deixa de estar presente. O risco de uma educação dada por irmãos mais velhos, enquanto os pais labutam algures. Famílias onde coabitam a memória do irmão abatido a tiro, por um gang rival, e de outro a cumprir pena por homicídio.
Mas, quando se deixa o bairro fica a nostalgia, sente-se a falta dos vizinhos, a amizade, o ambiente festivo. “A vida nos prédios não é a mesma coisa”, diz uma jovem. “Os vizinhos não nos cumprimentam, se precisarmos de alguma coisa não podemos contar com eles...”
O novo documentário do realizador português Rui Simões é uma viagem ao coração de um bairro que fala pela sua própria voz. Produzido pela Real Ficção, do próprio realizador, o filme poderá contribuir para esbater a opinião veiculada de ser o Alto da Cova da Moura um dos bairros mais violentos e complicados da capital portuguesa.  
Mas se o objectivo final era o de tentar justificar as causas desta ideia de insegurança e perigosidade, o filme não o consegue de uma forma clara, especialmente para quem não está muito familiarizado com o tema, como um público estrangeiro. Faltaria talvez um melhor enquadramento histórico.
Para os que lá nasceram é um pedaço de um Cabo Verde que não conhecem. Para os mais velhos, apenas um bairro da cidade da Praia ou de Mindelo. Com a diferença de ter quatro estações num ano.
A Ilha da Cova da Moura é uma produção da Real Ficção e está seleccionado para o IndieLisboa 2010, Secção Pulsar do Mundo, dia 28 de Abril, às 19h00, na Culturgest, e tem a sua estreia comercial nas salas Lusomundo e New Lineo, em Maio.