A efeméride foi recordada a Inforpress pelo oficial superior das Forças Armadas, actualmente na reforma, António Carlos Tavares “Sabú”, também escritor, que, dos Estados Unidos, enalteceu a forma como os desalojados foram recebidos, pelas autoridades cabo-verdianas, e alojados nas instalações da Granja, em São Jorginho, e em residências dos familiares, “numa expressiva solidariedade”.

Enalteceu ainda a forma como várias instituições, particularmente a Cruz Vermelha de Cabo Verde e as Forças Armadas, tiveram um papel importante, no âmbito humanitário que teve sucesso nos refugiados que desembarcam no porto da Praia a bordo de um navio da Marinha Portuguesa.

Isto por causa da Guerra de 7 de Junho, que, segundo reza a história, provocou vários civis e soldados mortosguineenses, mas também oriundos do Senegal e da Guiné Conacri.

Dário Dantas dos Reis, que nessa época assumia as funções de presidente da Cruz Vermelha de Cabo Verde, confirmou a Inforpress o sucesso desta operação jamais realizada no país, tendo recordado que antes da chegada desses refugiados o então primeiro-ministro, Carlos Veiga, convocou uma reunião de emergência entre organizações não-governamentais (ONG) e departamentos governamentais para receber “este número considerável de refugiados”.

Dario dos Reis disse que sugeriu ao chefe do Governo que o Hospital da Trindade, que estava devoluto há anos, fosse aproveitado para albergar as pessoas, por serem “instalações perfeitamente dignas”, equipadas com refeitórios, cozinha e grande parque à volta, mas que uma parte, por falta de espaços, teve de ser deslocada para o instituto em São Jorginho.

Afirmou que a Cruz Vermelha foi a organização encarregada de organizar esta recepção, assumindo, inclusive, toda as despesas da alimentação e que dois meses depois os refugiados receberam a visita de uma delegação do Programa Alimentar Mundial (PAM), manifestando o interesse em ajuda, mas que não passou de promessa, quando a esta instituição humanitária cabo-verdiana tinha uma despesa mensal de dezenas de contos.

A Cruz Vermelha, recordou, assegurava também o serviço diário de enfermagem, procedia consultas médias duas vezes semanais nas instalações da Trindade, ao mesmo tempo que organizava reuniões frequentes com grupos de refugiados, uma forma encontrada para mitigar possíveis problemas sociais.

Dario dos Reis disse que o grupo de refugidos foi incumbido a responsabilidade das logísticas, que passava, inclusive, por assegurar a higienização e o horário da entrada e saídas como forma de evitar a movimentação das pessoas da Cidade da Praia que pretendiam conquistar as raparigas.

Isto, contou, levou com que a Cruz Vermelha precavesse com distribuição de preservativos e anticoncepcionais para evitar que começasse a surgir grávidas, quando havia problemas internos com os próprios refugiadas que “não entenderam o gesto de solidariedade”, porquanto os abrigados estavam convictos que Cabo Verde recebia ajudas internacionais, mas que “com uma forma diplomática” a Cruz Vermelha soube contornar a revolta.

Esta experiência foi para Dario dos Reis “gratificante” ainda que se mostra apreensivo por “falta de reconhecimento, nem das entidades oficiais”, ainda que o objecto fundamental foi cumprido em acolher as pessoas, neste “papel tremendamente interessante”, quando Cabo Verde não estava preparado para tal operação.

Uma disputa entre os altos responsáveis políticos e militares, por alegado envolvimento de uns e de outros no tráfico de armas para os rebeldes da Casamança, foi apontado como o mote que desembocou num conflito armado que durou 11 meses e que terminou com a deposição do então Presidente “Nino” Vieira.

A vinda a Cabo Verde era para alguns dos refugiados uma alternativa para alcançarem Portugal, país que, facilitou a entrada no território lusitano, mas houve uma parte que ficou definitivamente na Cidade da Praia, ao passo que outros regressaram a Bissau.

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