Da porta do seu atelier, em São Pedro do Estoril, vê-se o mar. Cá fora, David Levy Lima tem vários quadros a secar, ao sol, à espera de embarcar para Cabo Verde. Farão parte de uma exposição a realizar-se na cidade da Praia, no dia 26 de Fevereiro, integrados nas comemorações dos 35 anos da Independência de Cabo Verde.  
Quem vem dar uma ajuda é o irmão, Abraão Levy Lima, também pintor. Enquanto David escolhe as obras, ele tira as fotos. O tempo está estranho, ameaça chover. David está stressado. É sempre assim quando se trata de embarcar quadros. Mil preocupações.
David levy Lima, 64 anos, é o mais velho de uma família de artistas plásticos, natural da ilha de Santo Antão. Nos anos sessenta, abandonou os estudos de engenharia mecânica para dedicar-se à  arte, na capital portuguesa. Mas só doze anos depois participou numa exposição colectiva. “Até lá não me sentia ainda seguro para dar esse passo”, explica.
Seria a primeira de várias e um pouco por todo o mundo. No entanto, quando questionado, David Levy Lima não tem dúvidas: “As exposições que fiz em Cabo Verde foram especiais; normalmente eu monto a oficina e trabalho no local, em Santo Antão, por exemplo, vieram crianças de várias escolas e de repente eu tinha mais de quarenta jovens sentados atrás de mim. Na praia aconteceu a mesma coisa, com muito público em silêncio, enquanto eu trabalhava no Palácio da Cultura”.
Apesar de ter um estilo figurativo eclético nos seus motivos, Cabo Verde continua sendo a sua principal fonte de inspiração. “Para mim o mais importante são as pessoas, as suas vidas, o movimento também.” Temas que se cruzam em obras representativas das ilhas e mesmo de Portugal. Como é que os Cabo-verdianos e os Portugueses vêm a sua obra? “Da mesma maneira”, responde. O importante, explica, “É as pessoas identificarem-se com aquilo que estão a ver”.
A pintura está presente na família desde sempre, começando pelo pai, funcionário público: “Na época era difícil, quase impossível, dedicar-se exclusivamente à pintura; eu fui o primeiro e depois vieram os meus irmãos, mas a arte está presente em todos os outros, mesmo quando se dedicam a profissões como agronomia”.
A nova geração parece também fascinada com as cores, apesar da idade: “O meu neto, que só tem cinco anos, pega nos pincéis, vem ter comigo e diz-me – Avô, pinta!Pinta!”
Os quadros estão prontos para seguir para Cabo Verde e Abraão chega com as fotografias impressas. David está mais calmo. De um canto do atelier descobre uma garafa de ponche, o ideal para um brinde com as ilhas no pensamento.

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