"O verdadeiro custo da COVID-19 em África vai ser medido mais pelo seu impacto nas outras doenças, seja por causa das crianças que não foram vacinadas ou por um aumento de mortes de sida porque as pessoas não receberam antirretrovirais ou de malária e tuberculose por causa da falha dos serviços para tratamento destas doenças", defendeu Peter Sands.

O responsável do Fundo Global falava ontem durante uma conferência 'online' sobre o apoio a África na luta contra a COVID-19, em que participaram também a comissária para os Assuntos Sociais da União Africana, Amira El Fadil, e o responsável pela Aliança para as Vacinas (GAVI), Seth Berkley.

Ressalvando não pretender desvalorizar a ameaça da COVID-19 no continente africano, onde o número de infeções ascende a mais de 70 mil e as mortes atingiram ontem as 2.406, Peter Sands lembrou que o número anual combinado de mortes de sida, tuberculose e malária se situa nos 1,3 milhões, a maioria em África.

"Uma das grandes conquistas dos últimos anos foi a redução da mortalidade infantil devido à malária. O 'truque' é a criança ser diagnosticada e tratada em 24 horas e isso não vai acontecer se houver disrupções dos serviços de saúde, se os médicos estiverem doentes ou se os pais tiverem medo de levar a criança ao médico", disse.

"A epidemia de Ébola na África Ocidental (2015-2016) provocou mais mortes devido a óbitos adicionais de malária do que do próprio Ébola", acrescentou.

Ainda assim, estimou Peter Sands, o número de mortes devido à COVID-19 em África vai "piorar muito" porque, segundo disse, muitas das medidas tomadas para conter a doença "serão muito difíceis de manter" no médio prazo.

Como exemplos, apontou as medidas de confinamento obrigatório ou distanciamento social, impraticáveis no contexto africano, a que se soma a capacidade médica "extremamente limitada" de muitos países.

"Por isso, se África quer controlar a COVID-19 tem de dar o salto para a testagem massiva e para a monitorização de casos, não apenas para impedir que as pessoas morram de COVID-19, mas para evitar que morram do impacto da pandemia no atendimento a outras doenças", afirmou.

Peter Sands adiantou, no entanto, que para manter a luta contra a sida, tuberculose e malária, é preciso combater a covid-19, tendo o Fundo Global introduzido a possibilidade de os países usarem parte destes fundos no combate à nova pandemia.

De acordo com o responsável, até ao momento 75 países e cinco regiões, incluindo Cabo Verde, Moçambique e Timor-Leste, optaram por destinar parte do dinheiro do fundo à COVID-19, num valor global de 500 milhões de euros.

"Percebemos que não seria suficiente e libertámos mais 500 milhões de euros para ajudar os países a adaptarem os seus programas de sida, tuberculose e malária à COVID-19", disse.

Por outro lado, o Fundo está também a apoiar a resposta de emergência fornecendo equipamentos de proteção para o pessoal de saúde e testes de diagnóstico.

"África respondeu muito bem e rápido, mas estamos o início e a escala dos recursos e o compromisso necessários para manter este esforço vai ser enorme. Temos uma grande batalha à nossa frente, que vai requerer liderança do continente, mas também muito apoio do exterior", disse.

O Fundo Global contra Sida, Tuberculose e Malária é uma parceria entre governos, sociedade civil e setor privado concebida para lutar contra a sida, tuberculose e malária, mobilizando anualmente 4 mil milhões de dólares para apoiar programas em mais de 100 países.

Peter Sands lembrou que o Fundo Global foi criado em resposta à última pandemia que atingiu a humanidade, a HIV/Sida, considerando que é preciso aprender com o que correu mal na busca pelo acesso global a um tratamento para a doença.

"Na altura, a questão também era o acesso global a antirretrovirais e uma lição que temos de aprender é que fomos muito lentos. Milhões de pessoas morreram porque não levamos os antirretrovirais para sítios como África suficientemente rápido", disse.

"Temos de aprender com isso, não apenas em relação a uma potencial vacina, mas também aos meios de diagnóstico e terapêutica. O acesso global, em massa e em condições de igualdade é extremamente importante porque há muitas vidas em risco", acrescentou.

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