O Djibuti começou a diminuir as medidas de bloqueio na segunda-feira (11.05), apesar de o país ter o maior número de casos da Covid-19 na África Oriental: cerca de 1.189 pessoas, numa população de 1 milhão, tiveram resultado positivo para o novo coronavírus.

"As apostas são altas, mas não há outra opção, as pessoas precisam ganhar a vida e ir trabalhar", disse o ministro dos Negócios Estrangeiros do Djibuti, Mahmoud Ali Youssouf, admitindo que a mudança poderia levar a uma nova onda de casos.

Os cidadãos do Djibuti não foram favoráveis às restrições impostas pelo Governo do Presidente Ismail Omar Guelleh, que provavelmente concorrerá à reeleição no próximo ano.

Além de considerações políticas, muitos Governos africanos estão preocupados com o impacto das restrições na economia. O crescimento económico havia sido lento em todo continente, mesmo antes da crise da Covid-19, que estatisticamente não atingiu África com tanta força quanto outros continentes.

No entanto, a Organização Mundial da Saúde (OMS) alertou na segunda-feira (11.05) que o coronavírus pode matar entre 83 mil e 190 mil pessoas em África - e infetar entre 29 milhões e 44 milhões - durante o primeiro ano, se não for contido. Apesar disso, o Ruanda, Namíbia e Zimbábue também decidiram afrouxar as medidas de contenção.

Sul-africanos divididos

O dilema também divide os sul-africanos. Um dos primeiros Estados do continente a introduzir um bloqueio rigoroso, em março, a África do Sul - o país mais afetado pela pandemia na África subsaariana - está a debater um novo alívio das restrições, depois que algumas medidas foram relaxadas na sexta-feira (08.05).

A África do Sul tem mais de 10 mil casos confirmados do novos coronavírus, incluindo 194 mortes, anunciou o Departamento de Saúde do país no domingo (10.05).

Desemprego

O impacto social e económico do bloqueio são negativos, o que dividiu opiniões sobre como proceder. Alguns partidos da oposição que apoiaram o Presidente sul-africano, Cyril Ramaphosa, quando as medidas de contenção foram implementadas agora estão a pedir o fim imediato do bloqueio.

"A verdadeira tragédia que está a ocorrer aqui não é mais o coronavírus, mas o bloqueio em si, porque esse bloqueio custará muito mais vidas do que se pode salvar", disse John Steenhuisen, líder da Aliança Democrática.

Alguns especialistas dizem que até 7 milhões de empregos serão perdidos se as restrições atuais forem mantidas. Mas também existem aqueles, como Omphile Maotwe, da oposição Economic Freedom Fighters, que dizem que é muito cedo para facilitar as medidas.

"Apelamos ao Governo para fortalecer e apertar as regras e regulamentos do bloqueio", disse Maotwe.

A experiência do Gana

A experiência do Gana em afrouxar o bloqueio de três semanas nas cidades de Accra e Kumasi a 19 de abril não é um bom presságio para a tendência atual em muitos países africanos.

No fim de semana, o Presidente Nana Akufo-Addo anunciou que um trabalhador de uma fábrica de processamento de peixe na cidade de Tema infetou 533 colegas. Por isso, o Governo estendeu a proibição de reuniões públicas até ao final de maio. Escolas e universidades permanecerão fechadas até ao final do mês.

As infeções estão agora em 4.700, a taxa mais alta da África Ocidental. Respondendo aos críticos que temem que o Gana tenha agido muito cedo, o Presidente Akufo-Addo sustentou que o aumento foi devido a uma reserva de 18 mil testes e que o Gana "se adaptaria à medida que a situação mudasse".

A Nigéria seguiu o exemplo dos demais países africanos ao relaxar as restrições na capital, Abuja, e na capital económica do país, Lagos. O bloqueio, em vigor desde 30 de março, será aliviado gradualmente nas próximas seis semanas.

As empresas foram autorizadas a reabrir, desde que sejam adotadas medidas para garantir o distanciamento e a desinfeção social - uma medida criticada pelo presidente da Associação Médica da Nigéria (NMA), Francis Faduyile, que descreveu a medida como "muito prematura", sugerindo que isso poderia aumentar a taxa de infeções - um "cenário assustador".

Tarde demais para o Chade?

O Chade está na direção oposta. Na sexta-feira (08.05), houve o anúncio de que as 22 principais cidades do país, incluindo a capital, N'djamena, passam a ficar isoladas do resto do país por 15 dias. O setor da saúde do Chade tem lutado para acompanhar a pandemia. Vários profissionais foram infetados devido à falta de equipamento de proteção.

Younouss Mahadjir, presidente do Sindicato dos Trabalhadores da Saúde, disse que as autoridades de saúde parecem estar sobrecarregadas com a situação. "A Covid-19 pegou todos de surpresa, especialmente num país como o nosso, onde a desordem reina mesmo no topo do Estado. As pessoas estão confusas", disse.

"Pedimos ao ministro da saúde, mas ninguém nos respondeu. Agora, muitos trabalhadores deram positivo e alguns morreram. Está ficando sério", completa o presidente do sindicato.

Muitos chadianos acreditam que as autoridades de saúde não estão mais a controlar a situação. A estudante Amane Nare quer que o Governo peça ajuda à China. "Acho que a quarentena dn cidade de N'Djamena não vai resolver nada", disse a estudante. "A doença está em todo o país”. Especialistas em saúde do Chade também dizem que a decisão foi tomada tarde demais.

Alguns tanzanianos podem dizer "antes tarde do que nunca". Isso ocorre porque o Presidente John Magafuli negligenciou a crise a um ponto em que até a OMS achou oportuno criticar abertamente o Governo.

Com 509 casos confirmados e 21 mortes - incluindo três deputados e o ministro da Justiça do país - a Tanzânia não estava entre os países mais atingidos. Mas Dar es Salaam falhou continuamente em publicar os últimos números diários. E especialistas em saúde alertam que a falta de medidas adequadas ainda pode transformar o país no novo epicentro da pandemia em África.

por: Cristina Krippahl, mo

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