A pandemia de covid-19 chegou à América Latina há mais de um mês, e um dos países que viu seu número de infectados e mortos crescer exponencialmente foi o Equador.

Até sábado, 28 de março, 1.823 infecções haviam sido registradas no país e 48 pessoas tinham morrido devido ao novo coronavírus. Para tentar interromper o contágio, o governo anunciou um toque de recolher prolongado, que começou a entrar em vigor na quarta-feira.

O Equador é o segundo país em número de infecções e mortes na América Latina, depois do Brasil.

Mas sua população é doze vezes menor do que a brasileira. Já seu território, 30 vezes menor.

Além disso, foi o terceiro país da América Latina a registrar um caso positivo de covid-19, em 29 de fevereiro, antes de outros países maiores e mais populosos, como a Argentina ou a vizinha Colômbia.

“É uma soma de vários fatores, mas o principal é que no Equador não seguimos rigorosamente todas as medidas que devem ser tomadas para enfrentar uma emergência dessa magnitude, nem as pessoas prestaram atenção aos alertas do governo”, disse Esteban Ortiz, epidemiologista equatoriano da Universidade das Américas, à BBC News Mundo, o serviço de notícias em espanhol da BBC.

O presidente Lenín Moreno
Conexão do Equador com Espanha pode ser um dos fatores que explica alto número de casos confirmados no país créditos: Getty Images

E a isso se acrescenta o fato de que, em meio à crise da pandemia, a ministra da Saúde, Catalina Andramuño, renunciou ao cargo na sexta-feira passada. Juan Carlos Zevallos foi nomeado para substitui-la.

“Não queremos negar que o que está acontecendo no Equador é uma situação séria. Mas deve ficar claro que fomos os primeiros no continente a tomar as medidas mais estritas para conter infecções por coronavírus na região”, diz Zevallos à BBC News Mundo.

“No entanto, o comportamento das pessoas não tem sido ideal e isso causou graves surtos de infecção”, acrescenta o ministro.

Mas, quais são as razões que explicam o alto número de infectados e mortos no Equador em comparação com outros países da região?

A conexão com a Espanha estaria entre os fatores, dizem os especialistas.

“Os equatorianos são a principal comunidade de migrantes da Espanha. E muitos dos parentes dessas pessoas (emigradas) entram constantemente no país, especialmente no início do ano”, observa Ortiz.

Segundo a embaixada equatoriana em Madri, atualmente existem 422 mil equatorianos residindo em solo espanhol, tornando-os a maior comunidade latino-americana naquele país europeu.

De fato, o primeiro caso relatado no Equador foi o de uma mulher equatoriana que retornara em 14 de fevereiro e que tinha residência fixa na cidade de Torrejón de Ardoz, perto de Madri. Esta “paciente zero” de 71 anos morreu em decorrência do vírus.

“Ela veio da Espanha e passou vários dias na casa de sua família, participando de reuniões sociais, onde infectou outras pessoas, incluindo sua irmã, que também morreu do coronavírus em poucas semanas”, diz Ortiz.

“E não havia, naquele momento, um controle rígido após sua chegada”, acrescenta o especialista.

O governo garante que monitorou quase 180 pessoas com as quais a mulher infectada teve contato.

No entanto, outros casos semelhantes em que as pessoas infectadas não cumpriram as regras determinadas pelo governo teriam ajudado a espalhar o vírus.

Além disso, haveria casos assintomáticos no país antes de as medidas serem adotadas.

Entre essas medidas estão também o fechamento das fronteiras. O governo equatoriano foi um dos primeiros a proibir a chegada de voos internacionais, de acordo com um decreto de 15 de março, e só permitiu a saída de algumas aeronaves levando vários estrangeiros de volta para seus países de origem.

“É verdade que é um fator que influenciou o número de infecções – embora não seja o único – especialmente em Guayaquil e Quito, onde estão os aeroportos internacionais e onde a maioria dos casos ocorreu”, explica Zevallos.

Soma-se a isso outros dados que vinculam a curva de contágio equatoriano à Espanha.

Por exemplo, de acordo com o Ministério da Saúde, a região mais afetada por covid-19 é a província de Guayas (cuja capital é Guayaquil, a cidade mais populosa do país), onde quase 77% dos casos são registrados.

Guayas é, ao mesmo tempo, a região de maior procedência dos equatorianos na Espanha, 22%, de acordo com um relatório publicado pela embaixada equatoriana em 2017.

Comportamento

Além disso, como diz à BBC News Mundo Dome Cevallos, médico especialista em questões de saúde pública da Universidade Central do Equador, os casos estão concentrados nas duas principais populações do país: Guayaquil e Quito.

O Equador tem 285 mil km² de território e é o terceiro menor país da América do Sul, depois do Uruguai e Suriname.

“Por ser um país pequeno, os casos se concentraram nesses dois centros urbanos”, explica.

No Brasil, que até esta quinta-feira tinha cerca de 2.554 casos, a cidade mais afetada é São Paulo, com 35% dos contaminados. 90% das mortes ocorreram ali.

Por sua parte, o governo equatoriano diz que o terreno acidentado do país contribuiu para evitar uma maior propagação do vírus e, de fato, uma de suas primeiras medidas foi proibição a circulação de carros de passeio.

No entanto, um ponto em que especialistas e governo concordam é que o comportamento de indivíduos diante das restrições não foi adequado para romper a cadeia de infecções.

“Ontem (segunda-feira), além do relatório de infecções e mortes, o governo divulgou o número de pessoas presas por violar a quarentena: 841. Sem isolamento social, não podemos reduzir o número de infecções”, diz Cevallos.

Tanto especialistas quanto governo equatoriano concordam que sociedade não obedeceu às determinações para conter contágio.

“As crises expõem as desigualdades de um país, mas também a cultura e a consciência coletiva. E isso depõe contra o Equador, e por isso vemos uma curva de contágio crescente”, acrescentou.

Zevallos diz considerar que esse foi o principal fator que facilitou a rápida expansão do coronavírus pelo território.

“As pessoas que vieram com sintomas e que chegaram do exterior receberam ordens para ficar em casa, mas saíram para festejar, se abraçaram, se cumprimentaram e isso fez com que a infecção se espalhasse especialmente nessas duas regiões do país”, diz.

Equatoriano com máscara para se proteger do coronavírus e com óculos de sol e chapéu
Equatorianos são principal comunidade de migrantes da Espanha. E muitos dos parentes dessas pessoas entram constantemente no país, especialmente no início do ano créditos: Getty Images

Mais rigoroso

O cenário se repetiu em diferentes países ao longo das semanas: as primeiras medidas de isolamento social estabelecidas pelos governos foram seguidas por outras mais rigorosas.

O Equador não foi uma exceção à regra. Na terça-feira (24 de março), o governo do presidente Lenin Moreno reforçou as restrições, que começaram a ser implementadas desde 11 de março, impondo um toque de recolher prolongado, das 14h às 17h.

“A circulação é restrita, exceto as atividades essenciais. Quem deixar de cumprir será penalizado!”, escreveu o presidente em sua conta no Twitter, onde falou de três tipos de sanções, incluindo prisão para quem infringir as regras.

Na província de Guayas, o governo estabeleceu uma Força-Tarefa Conjunta, liderada pela Força Naval, para fazer cumprir o toque de recolher.

No entanto, especialistas como Ortiz assinalam que medidas mais rigorosas devem ser tomadas para se obter uma redução efetiva de infecções e mortes por covid-19, dentro de um período que os especialistas estimam que seria de um mês.

“O problema é que não temos dados suficientes para poder avaliar esses aspectos de maneira concreta e para tirar algumas conclusões sobre como o vírus chegou ao Equador e começou e continuou sua expansão”, ressalva ele.

Reagindo às críticas, o governo equatoriano diz à BBC News Mundo que o país foi um dos primeiros a tomar as medidas apropriadas.

“O governo adotou medidas de controle muito rígidas, como toque de recolher em todo o país , fechamento de aeroportos, fechamento de fronteiras e cancelamento de eventos públicos desde o início de março”, diz Zevallos.

“Além disso, agora estamos averiguando como nossa rede de saúde pode enfrentar essa emergência e como poderemos atender os doentes”, conclui.

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créditos: BBC

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Escrito por: Alejandro Millán Valencia - Da BBC News Mundo

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