O Batuque FC está de parabéns. O clube do Alto de Mira Mar em S. Vicente completa 30 anos de existência. Em entrevista ao SAPO.CV o presidente do cube João José Cardoso da Silva, mais conhecido por Jota, explica como tudo começou: a aposta na formação, os primeiros jogadores a saírem para o estrangeiro, as digressões para torneios internacionais de futebol e o futuro do clube.

No início era assim…

Tudo começou há 30 anos, quando alguns colegas do Liceu Ludgero Lima resolveram fundar um clube de futebol. Jota e amigos aproveitaram os intervalos das aulas para contactar outros jogadores e dar início a aquele que viria a ser a melhor escola de formação de futebolistas em Cabo Verde.

Entre reuniões na garagem da casa do Sr Djen Morais, os contactos com o Sr. Chico da Casa Benfica para o primeiro equipamento, de repente estava o Batuque em digressões para as outras ilhas de Cabo Verde. Apostando na formação, o clube conta hoje com mais de 500 atletas espalhadas pelos escalões  de formação de futebol: escolinhas, infantis, iniciados, juvenis, juniores e seniores, além de equipas masculinas e femininas de andebol, tanto seniores como juniores.

Rolando, a jóia da formação

A maior parte dos jovens futebolistas cabo-verdianos que tentarem a sua sorte fora do país saíram do Batuque. Tudo começou em 1987 com Cau e Tony (Toy d´Sal) que foram para os juniores do FC Porto. De lá para cá, o Batuque conseguiu colocar mais de 110 jogadores em clubes estrangeiros. Nem todos tiveram o sucesso esperado mas alguns conseguiram uma carreira no futebol profissional. 

Cau jogou depois no Campomaiorense e Salgueiros, na primeira divisão, tal como Toy D´Sal que fez sucesso no Sp. Braga e Rio Ave nos anos 90. Tinaia e Rui César estiveram no Real Madrid B e chegaram a treinar com o plantel principal treinado por Capello na altura; Tinaia depois fez carreira no Alverca; Bob passou pelas camadas jovens do Benfica e  jogou no Vitoria de Setúbal e no Santa Clara, e depois foi campeão em Angola no ASA e no Petro de Lunda; O Nando que agora é capitão da selecção de Cabo Verde e joga na Rep. Checa no Banik Ostrava, foi campeão na Tunísia juntamente com o Jerry, entre muitos outros.

Mas aquele que enche as medidas do presidente do Batuque é, sem dúvida, Rolando, defesa central do FC Porto, que passou pelo Campomaiorense e Belenenses antes de se singrar no eixo da defensiva dos “dragões”.

A ascensão meteórica no futebol do Mindelo e os primeiros títulos

Habituados a ganhar quase todos os campeonatos dos escalões de formação em S. Vicente, em 1998 o Batuque resolveu dar um passo em frente e entrar no disputa do Campeonato Regional. Esta entrada ameaçava a hegemonia dos grandes clubes da ilha, como Mindelense, Derby e Académica que rapidamente viram o Batuque intrometer-se na luta pelo título regional. Na estreia, foram vice-campeões, tendo perdido o título nos últimos minutos do último jogo.

Em 2002 chegou o tão aguardado título de campeão em S. Vicente. No mesmo ano o clube foi vice-campeão de Cabo Verde, façanha que viria a repetir no ano seguinte, depois de também renovar o título no Mindelo. Em 2010 viriam a ganhar o título no Mindelo pela terceira vez. O clube venceu ainda cinco Taças de S. Vicente, cinco Supertaças e outros títulos no Torneio de Abertura, isto tudo no escalão sénior, ao longo de 12 anos. Nos escalões jovens, o domínio do Batuque a nível de títulos é avassalador.

Levar o nome de Cabo Verde além fronteiras

Em 1990 o clube fez a sua primeira digressão para o estrangeiro. Na sua participação nos jogos do Atlântico, juntamente com as selecções de sub-16 dos Açores, Madeira e Canárias, o Batuque ficou em segundo lugar. Mais tarde mais digressões, agora para jogar com as comunidades cabo-verdianas no estrangeiro. Em 2006 começaram a participação em  torneios internacionais, organizados pela UEFA, depois de uma batalha de vários anos a tentar entrar nestas competições. Na estreia, em Nantes, um segundo lugar que despertou a atenção dos presentes, pela qualidade futebolística apresentada, por um clube que vinha de um país quase desconhecido a nível de futebol.

O primeiro título destas digressões viria em 2009  no Torneio de Le Havre, com Ryan Mendes a atrair as atenções do clube local, o que lhe valeu a assinatura de contracto. Este ano, no passado mês de Abril no Torneio de Saint-Etienne, o Batuque viria a ficar em primeiro lugar.

Além da vertente futebolística, Jota destaca a parte social deste tipo de intercâmbios, onde o Batuque conseguiu conquistar a simpatia dos organizadores. Os torneios tem servido como montra para os jovens do Batuque e a cada digressão, o clube regressa à casa com menos atletas, facto que deixa o presidente satisfeito. No ano passado, depois de uma digressão à Portugal, seis dos onze jogadores que habitualmente eram titulares, ficaram em Portugal, em clubes como o Marítimo e outros do terceiro escalão.

E o futuro?

Se o futuro à Deus pertence, ao Batuque apenas resta manter a política seguida até então. Pelo menos é o que garante Jota, que afirma que só apostando na formação é que se pode desenvolver o futebol cabo-verdiano. E critica aqueles que investem tanto nas equipas seniores com o objectivo imediato de vencer o campeonato de Cabo Verde, descurando a formação.  Porque segundo o próprio, o dinheiro que se gasta em assinaturas de contrato, prémios de jogo, e ainda desolações para o caso de clubes que jogam o Campeonato Nacional, devia ser investido nos escalões de formação, o que, na opinião de JJ, traria mais beneficio aos clubes e ao país.

“É uma questão de mentalidade. Os dirigentes tem de perceber que o futuro do nosso futebol passa pela formação. Se o jovem em Cabo Verde quer avançar para ter um futuro melhor para uma carreira profissional no estrangeiro, tem de ser potencializado, tem de jogar para desenvolver as suas capacidades. E tem de jogar ainda cedo, com 17, 18, 19 anos, no escalão sénior.

O clube neste momento está a preparar para lançar o projecto de construção da sua academia, uma infra-estrutura que deverá congregar todos os escalões de formação. Jota afirma que está à procura de parcerias para levar adiante este projecto. E promete continuar a investir na formação, a participar em Torneios no estrangeiro de modo a divulgar o nome do país e valorizar o futebolista cabo-verdiano.

Entrevista a Jota, Presidente do Batuque FC