Isaura Gomes ou "Zau", como é chamada, está na Câmara do Mindelo há quatro anos e é a única mulher à frente de uma autarquia em Cabo Verde. Este ano recandidata-se e tem como rival o ex-primeiro-ministro do seu próprio partido.

Eleita vereadora em 2000, como independente, conquistou a autarquia com o apoio do MpD (Movimento para a Democracia, maior partido da oposição) em 2004. Não só compete com o PAICV (Partido Africano da Independência de Cabo Verde, no poder, que concorre com Onésimo Silveira, antigo autarca da cidade), e com a UCID (União cabo-verdiana independente e democrática, com o líder do partido António Monteiro), Isaura concorre com outro forte candidato: Gualberto do Rosário, antigo líder do MpD e ex-primeiro-ministro, que se candidata como independente.

Isaura vem de uma família humilde, mãe vendedora no mercado e pai, que nunca conheceu, contrabandista de café. Apesar disso formou-se em Farmácia, na Faculdade de Coimbra, em 1967 e cedo começou a dar passos na vida política, lutando contra a ditadura.

A ela, o Mindelo deve o primeiro laboratório de análises clínicas de Cabo Verde, criado dois anos depois de ter voltado de Portugal e onde se fizeram muitas reuniões políticas: "Estava sempre a fazer reuniões clandestinas. A minha mãe ficava à porta de casa a fingir que estava a apanhar ar, e nós reuníamo-nos lá dentro", recorda.

"Fui a única mulher deputada. Era a responsável pelo PAIGC (Partido Africano para a Independência da Guiné-Bissau e de Cabo Verde, agora PAICV) aqui e liderei o processo da lei do aborto. Até 1980 fui deputada mas depois deixei. De 1981 a 1991 houve muita repressão, fizeram-se muitas atrocidades, passei muito mal", diz a antiga deputada (de 1975 a 1980).

Depois da morte da mãe, interrompeu o mestrado que fazia no Brasil e voltou para Cabo Verde, onde trabalhou para o Estado, no Hospital.

"Em 1989 fui agredida por um director do Hospital, porque critiquei a maneira comos os funcionários eram tratados, e fui expulsa. Fui buscar o meu equipamento todo e o laboratório ficou vazio", conta Isaura Gomes, recordando também que o primeiro-ministro apresentou uma queixa-crime contra ela por ter roubado o hospital e por ter montado o seu próprio laboratório e farmácia contra as ordens do governo.

Fala com orgulho da Associação de Mulheres Empresárias, que criou, do seu laboratório e dos quatros filhos, um dos quais foi presidente do conselho de administração de uma empresa de Gualberto do Rosário e que se demitiu, por solidariedade para com a mãe.

A autarca é generosa porque "dar felicidade aos outros é ser feliz" e considera-se uma mulher apaixonada, tanto no trabalho como nos próprios amores: "Adoro namorar, mas os meus namorados vivem na Holanda, só os vejo de três em três meses".

Presidente da Câmara e com a responsabilidade por seis pelouros, Isaura Gomes leva trabalho para casa. A partir das quatro da manhã, quando acorda, estuda dossiers e vai "à net". Às 06:00 dirige-se para a Baia das Gatas, corre na praia, toma banho, e antes das 08:00 está na Câmara. É sempre a primeira a chegar.

Zau não deixa o Mindelo por "nada", diz que já foi convidada para ser ministra ou embaixadora, mas o "amor" pelo Mindelo não lhe permite partir.

Não acredita na derrota no próximo dia 18 e promete que se for reeleita vai alcatroar a Rua de Lisboa e criar uma zona pedonal.

Mayra Fernandes@ com Lusa