Anderson França apresenta-se como empreendedor social, professor, roteirista, escritor e ativista de direitos humanos. Cresceu numa favela do Rio de Janeiro e foi a sua voz contra Jair Bolsonaro que ditou a saída do Brasil, onde teve a cabeça a prémio por 10 mil euros.

Privou com Marielle Franco – a vereadora do PSOL assassinada em março de 2018 — e recorda esta morte como “o fim de um pacto”.

“Foi um recado dado: não adianta vocês elegerem uma mulher negra, lésbica, da periferia, que nós vamos matar vocês. A Marielle era a coroação de 20 anos de ativismo, simbolizava muito para nós, e quando foi morta, foi o fim de um pacto dessa sociedade brasileira, que se tornou neofascista, com os direitos humanos”.

Anderson França trabalhava na consultadoria política da antiga senadora Mariana Silva e ex-ministra do governo de Lula da Silva, quando Jair Bolsonaro foi eleito.

Nesse dia, o seu coração “desfaleceu” e sentiu que não podia continuar no Brasil.

“Eu morava numa região muito violenta do Rio de Janeiro. A milícia que matou Marielle Franco morava num bairro vizinho ao meu e eu já era uma voz muito conhecida no Brasil, pois denunciava os policiais pelo nome”, disse, referindo-se à denúncia do policial que matou o pedreiro Amarildo, na Rocinha, em 2013, num caso que se tornou um símbolo do abuso de violência policial.

“Eu denunciei esse policial e então eles invadiram a minha casa, roubaram material de tecnologia, máquinas fotográficas, porque tinham provas, (…) e em 2017 houve uma oferta de quase 10 mil euros pela minha morte na Feira Literária de Parati”, contou.

E prosseguiu: “Éramos ameaçados pelas redes [sociais], ameaçaram esquartejar a minha mãe”.

Andersen França foi aconselhado a sair do país e chegou a Portugal como visitante, pois “não havia tempo para pedido de asilo ou humanitário”.

Desses primeiros tempos em Portugal recorda o medo, mas também a descoberta de um país onde, pela primeira vez, passou quase um ano sem ouvir um tiro.

“Só tive noção do grau de violência verbal, psicológica e física quando cheguei a Portugal”, disse, enaltecendo a forma como a polícia portuguesa aborda os cidadãos.

No início, Anderson França ficava “absolutamente impressionado com o facto de não haver operação policial com helicóptero”.

No Brasil, explicou, “de uma forma geral, a polícia é truculenta: primeiro atira e depois pergunta o que aconteceu”.

“Como brasileiro vindo da periferia ainda trago muito peso psicológico e comportamental violento no qual eu fui inserido”, prosseguiu.

Embora sem violência, não tem sido fácil o caminho para o autor de “Rio em Shamas”, livro com que foi finalista ao prémio literário Jabuti, o mais tradicional no Brasil.

“Sou um escritor e um ativista reconhecido em todo o mundo, mas não consigo trabalhar como caixa num supermercado”, lamentou, adiantando que ainda aguarda por autorização de residência, uma vez que entrou como visitante.

Afirma-se disposto a trabalhar em qualquer coisa, embora reconheça a preferência pelo mundo dos livros e por isso lançou recentemente na rede social Facebook, na qual é seguido por milhares de cibernautas, um apelo a um emprego, tendo ficado surpreendido com algumas das respostas que recebeu.

“Recebi respostas de pessoas em Portugal que me disseram que não me contratavam por ser de esquerda, porque eu sou um exilado”, disse.

Dificuldades à parte, o ativista que foi acolhido nos primeiros meses por uma família portuguesa ligada ao partido comunista, começa agora a apaixonar-se por Portugal, a estudar a sua política e manifestações culturais e sente-me mesmo mais próximo de muitos portugueses do que de alguns brasileiros.

“Os brasileiros daqui são académicos de esquerda e burgueses e não consigo ter muita proximidade com eles. E os outros votaram em Bolsonaro”, adiantou.

E sublinhou: “Há portugueses aqui que são a minha família. Eles entendem a minha dor e se há coisa de que os portugueses sabem é a dor”.

Esta aproximação fê-lo desejar votar nas últimas eleições, ato para ele essencial.

“Eu queria muito ter votado. Eu preciso votar. Eu sou um sujeito político (…). Eu preciso de um chão, eu preciso de uma bandeira. Eu só sou feliz quando tenho um chão, quando tenho um povo. Eu sou um educador que precisa de um povo”.

Questionado sobre um hipotético regresso, Anderson França referiu que não faz ideia qual o Brasil que iria encontrar, embora acredite que Bolsonaro tem mais sete anos de poder.

“As pessoas falam de um Brasil atónico e sem reação, porque a esquerda se tornou académica e a esquerda académica tenta resolver tudo pelo simbólico, pelo simpósio, pelo seminário. Mas a esquerda pertence à classe trabalhadora”.

O ativista recorda Paris, onde “há manifestações todas as semanas da classe trabalhadora. Isso é democracia, isso é esquerda”.

“A academia é importante, a produção intelectual é importante, mas quando se chega a momentos extremos como chegou agora, o debate político, a fala, talvez não seja suficiente”, adiantou.

E sublinhou que, “enquanto a esquerda se tornava académica, as igrejas evangélicas – que são a base de Bolsonaro — ocuparam os espaços na classe trabalhadora, na periferia, nos subúrbios”.

“Nós, da classe trabalhadora, olhámos para a esquerda académica e dissemos: vocês erraram, agora é tarde, deviam ter estado connosco nestes anos, porque a igreja abriu todos os domingos falando de dinheiro, prosperidade, liberalismo, que deus dá dinheiro, e estávamos sozinhos e vocês não fizeram nada com a gente”.

Para Andersen França, o futuro do Brasil ainda vai passar por Lula da Silva.

“Não passaria se a transição democrática fosse mantida, se Dilma tivesse acabado o mandato, porque não foi encontrado nada contra ela. Este ministro da Justiça se dedicou muito a abrir caminhos para a chegada de um novo poder e a política é a arte da vingança. Nesse sentido, acho que o Brasil ainda vai ver o Lula”.

E acredita que “Lula tem condições para arregimentar forças políticas em torno dele. Mesmo preso e talvez principalmente por isso”.

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