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Rima e poesia na voz dos rappers cabo-verdianos

10 de Julho de 2012, 19:15

O hip-hop tem vindo, cada vez mais, a ganhar adeptos. São vários os jovens a quererem fazer rimas e a cantar pelos quatro cantos do país. A música é usada como uma forma de expressarem os problemas político-social que a sociedade enfrenta. Tanto os rappers crioulos residentes no país como os da diáspora acreditam que a ferramenta musical é uma forma de protesto e consciencialização social.

“As temáticas político-sociais são muito importantes porque quando se faz este tipo de música estamos a mostrar aos nossos políticos que não estamos nada satisfeitos com o andamento das coisas, com a falta de emprego, falta de luz, desigualdade social etc, e que ainda é preciso mudar muitas coisas neste nosso Cabo Verde ”, afirma ao SAPO o rapper Aluízio Barros, também conhecido como “Poeta de Rua” .

Para o rapper Nelson "Netcha" do grupo KGB Squad os temas são abrangentes em qualquer parte do mundo e Cabo Verde não foge à regra. “Há pessoas que escrevem, por exemplo, sobre ter mais coisas do que as outras, sobre estilos e mulheres. Mas também temos rappers que falam sobre a nova ordem mundial, que tem um discurso mais político ou que levam uma mensagem de amor. É muito abrangente, o que é bom para a cultura”, conta.

“O hip-hop por ser uma ferramenta tão democrática, permite que cada um o utilize como quer. Inclusive há pessoas que o utilizam para fazer passar os valores de uma sociedade que nada tem a ver com o hip hop, como o dinheiro, a ganância e o sexismo. Outros utilizam-no para passar uma mensagem que tem uma filosofia e outros que criticam e não apresentam soluções”, afirma o rapper Chullage.

Ser um Mc é…

Os cantores de rap são conhecidos como rappers ou MC´s, que é uma abreviatura para mestre-de-cerimónias. "Para ser um MC é preciso ter em primeiro lugar a consciência do que és, do que queres e do que estás a fazer. Ter conhecimento e sabedoria de coisas que giram à tua volta e que estás a expor. Ter amor, visão e respeito pelas pessoas”, declara Expavi.

“Amar verdadeiramente a cultura hip-hop, mas acima de tudo ter bem presente a noção de que temos uma poderosa ferramenta nas mãos e há que saber utilizá-la”, revela Edson Silva, conhecido como "Batchart".

Já para Aluízio um MC “tem que ser um líder, uma pessoa com personalidade forte, capaz de pensar com a sua própria cabeça, com um certo à vontade em se expressar, e principalmente uma ideia fixa do que são os seus ideais, e daquilo que acredita e que quer defender”.

Tese também defendida por Chulage que afirma: “Hoje em dia os MC´s têm que ter a capacidade de serem um canal espiritual, filosófico e passar uma mensagem que continua. Pegar e entender o que é a oralidade africana, o que é isto de passarmos a nossa história através da oralidade. Por exemplo, o Cabral era um MC, a Nina Simone também era. Canalizar algo que vem para transformar o mundo, senão és um rapper e gravas discos.” 


Pôr o trabalho nas ruas

Em relação a gravar discos e lançar os seus CD's no mercado, os rappers afirmam que têm pouco apoio das editoras, uma vez que nem todas estão a investir neste estilo musical. “Hoje em dia produzimos os nossos próprios “beats”, com o nosso estilo. E em relação ao estúdio antes era complicado gravar um trabalho, mas já está bem melhor. Eu tenho o meu próprio estúdio e inclusive recebo a maioria dos MC´s de São Vicente que vão lá gravar”, relata Expavi.

“As editoras não apostam no hip-hop porque não vêem esse estilo musical como uma fonte de ganhar dinheiro, mas hoje em dia esse cenário vem mudando porque alguns produtores já conseguiram ver a força que o hip hop está a ganhar a nível nacional e na diáspora”, afirma Aluízio.

Opinião também partilhada por Netcha “Em Cabo Verde não temos cultura de comprar CD's, a música no país não vende, só se for para estrangeiros. Noto que todos os grandes artistas nacionais têm os seus mercados no estrangeiro. Música em Cabo Verde não rende muito, e esta é a principal razão das editoras ainda não apostarem nos jovens, claro que temos poucas excepções que fogem à regra como a Harmonia que produziu o primeiro trabalho do Hip Hop Art”.

"A internet democratizou a divulgação da música"

No que toca aos canais de distribuição para divulgar o hip hop no país, os meios ainda são escassos, tendo os rappers que procurar novas formas de partilharem as suas músicas.

“Neste momento o canal mais usado para divulgar as músicas e os vídeos são a internet e os pen drivers que muitos amigos vão passando na forma de dar conhecimento dos trabalhos que são feitos aqui na terra, já que não podemos contar com a nossa rádio nem televisão que pouco ou nada passam os vídeos ou músicas de hip hop feito aqui”, explica Aluízio

O rapper Netcha é da mesma opinião que a internet é o meio mais usado mas afirma também que usam a rádio. “Temos usado a rádio, só que é uma divulgação mais local. Em São Vicente as rádios que têm maiores audiências da juventude, são aquelas que são ouvidas mais localmente, podem até ter uma onda que atinge outras ilhas, mas não têm tanta fama. Em cada ilha usa-se a rádio que a população da zona vai ouvir, mas é difícil porque dificulta a divulgação do trabalho, uma vez que as pessoas das outras ilhas não vão ouvir a tua música e a mensagem não vai circular”.

Actualmente, a televisão e a rádio deixaram de ter o monopólio da divulgação das músicas, e os artistas usam outros meios para o conseguirem fazer. Os rappers usam muito o site “Soundcloud “, que permite criar, gravar e partilhar músicas na internet. Após a gravação das músicas nos sites os rappers publicam nas redes sociais.  “Posso falar da forma como o rap crioulo chega a mim, através do Youtube e dos post no Facebook. A internet democratizou, para aquelas pessoas que não tinham acesso às editoras, a divulgação da música. Acho que o rap crioulo é muito bonito deveria haver por parte das editoras uma aposta em edições físicas, nem que fossem em compilações de coisas”, revela Chullage.


O reconhecimento está a chegar

Conquistar o espaço e o respeito da comunidade foi uma das vitórias dos novos MC´s. O trabalho já é reconhecido no mundo musical, por exemplo, este ano o festival da Gamboa, o “Gamboa Jovem”, contou com uma novidade: 16 jovens oriundos dos vários bairros da Praia e que se dedicam ao hip hop subiram ao palco para mostrar o seu talento.

“O reconhecimento demorou um tempo por causa do meio onde vivemos, das poucas condições que tínhamos. Foram vários os factores que fizeram o hip hop evoluir e ganhar o seu espaço. Hoje em dia nos festivais vê-se que o hip hop crioulo é convidado para actuar. Também noutros eventos, inclusive estive num fórum e no final o Mário Lúcio foi dar-me - a mim e ao Batchart - os parabéns e ao pelo trabalho. Naquele dia várias pessoas disseram que o hip hop crioulo está num bom nível “, expõe Expavi.

Para Netcha “temos mais reconhecimento agora, devido a alguns concursos que têm surgido, por exemplo, o Vis a Vis que foi vencido pelo rapper Expavi, que deu grande notoriedade ao hip hop feito no país. A televisão também que tem transmitido alguns vídeos de rappers nacionais. E derivado a alguns bons trabalhos e participações de artistas de renomes, como Vlú, que permitem atingir um escalão alto e chegar à comunicação social.”

Nem todos os rappers partilham da mesma opinião. Para alguns o hip hop ainda não teve o reconhecimento merecido. “Não da forma que deveria. Hoje temos público e qualidade para estar nos maiores palcos do país e continuamos fora destes circuitos e aparecendo de vez em quando para “abrir palco”. Penso que merecemos mais e maiores oportunidades”, declara "Batchart".

Já para Chullage, o hip-hop em Cabo Verde não está a ser reconhecido transversalmente na sociedade. “Mas acho que já há pessoas que estão a entender a sua força e algumas vão querer reconhecê-lo, e outras vão querer oportunisticamente aproveitar-se dele.”


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“Hip-hop é hip-hop e gangues são gangues” - Aluízio


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@ Ziza Almeida c/ Odair Soares


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