Página gerada às 05:50h, terça-feira 23 de Maio

Sangue crioulo na música americana: Horace Silver, o 'mensageiro' que colocou Cabo Verde no léxico do jazz

30 de Abril de 2012, 12:12

As origens crioulas do pianista Horace Silver nunca deixaram de estar presentes na sua música, havendo mesmo referências expressas à sua ligação a Cabo Verde, a terra do seu pai. São os exemplos de "Song for my father", talvez a composição mais conhecida do pianista,  e o álbum "Cape Verdean Blues".

O verdadeiro apelido de Horace é Silva, nome mais tarde anglicizado para Silver. Horace Ward Martin Tavares da Silva nasceu em Norwalk, no estado do Connecticut, em 1928, filho de João Tavares da Silva, natural da ilha do Maio, e de uma americana de origem irlandesa e africana.

Como todas as crianças da comunidade cabo-verdiana dos Estados Unidos, Horace foi exposto à música das ilhas nas tocatinas em que participava o seu pai. Na adolescência começou a ter aulas de saxofone e de piano, já bastante influenciado pelos cantores de blues, pelo estilo boogie-woogie e os pianistas do estilo Be Bop, como Bud Powell e Thelonious Monk.

O talento do jovem Silver atraiu as atenções do saxofonista Stan Getz, em 1950, quando este tocava no Sundown Club, em Hartford, no Connecticut, e tendo como banda suporte o trio de Horace. Getz gostou tanto da banda de Horace que os convidou para uma digressão. O saxofonista acabou mesmo por gravar três composições suas. Silver continuou com Getz durante um ano.

E em 1951, Horace Silver sentiu-se suficientemente confiante para se mudar para Nova Iorque e tentar a sorte da grande cidade, onde começou a acompanhar músicos como Coleman Hawkins, Lester Young, Oscar Pettiford e Art Blakey.

A entrada para a famosa editora Blue Note dá-se através de Lou Donaldson que o contrata para uma sessão no estúdio, e daqui sairiam também as suas primeiras gravações para esta editora e o início de uma relação de 28 anos com a Blue Note.

De 1953 a 1955 a carreira de Horace Silver conhece um novo impulso quando, juntamente com o baterista Art Blakey, forma os 'Jazz Messengers'. No ano seguinte abandona a banda para formar o seu primeiro quinteto.

Silver marcou a música americana em vários aspectos. Talvez a marca maior do músico crioulo no jazz seja o seu pioneirismo no estilo chamado Hard Bop, que combinava elementos do RnB e o gospel com o jazz, e que haveria de influenciar muitos pianistas.

Por outro lado, a estrutura do seu quinteto (trompete, sax tenor, piano, contra-baixo e bateria) iria servir de modelo para as pequenas bandas de jazz entre meados dos anos 50 até finais de 60. E vários jovens músicos talentosos, como Donald Byrd, Art Farmer, Blue Mitchell, Woody Shaw, Junior Cook, e Joe Henderson,  fizeram o seu 'estágio' profissional nos quintetos de Silver, acabando mais tarde por formar bandas similares.

Finalmente, segundo a crítica, Horace Silver refinou a arte da composição e de arranjos para os instrumentos elevando-a a um nível de excelência até hoje nunca ultrapassado no jazz. O músico é considerado um compositor prolífico e um dos poucos músicos de jazz a gravar quase exclusivamente o seu próprio material, num estilo que combina a simplicidade com a profundidade e, apesar da sua sofisticação, soa perfeitamente simples e normal.

Muitas das suas composições tornaram-se standards do universo do jazz, como "The Preacher", "Doodlin", "Opus de Funk", "Señor Blues", "Nica's dream", "Sister Sadie" e "Song for my Father".

Nhô João Silva Tavares

Cabo Verde no léxico do jazz

Em dois discos, "Song for my Father" e "The Cap Verdean Blues" Horace Silver recupera a sua herança cultural, quer no estilo musical quer no ambiente de busca de sonoridades diferentes.

"Song for my Father" - em estilo Bossa Nova - que também dá o nome ao álbum de 1965, uma das pérolas gravadas pelo Quinteto de Horace Silver, foi composição dedicada ao seu pai, João Tavares da Silva, cuja foto aparece na capa do disco.

Trata-se de uma homenagem ao homem que lhe deu a conhecer os sons de Cabo Verde quando ele ainda era criança. O disco é considerado um dos melhores álbuns do estilo Hard Bop e para muitos o melhor dos discos do músico crioulo, que aqui atinge o seu pico enquanto compositor.

Em "The Cap Verdean Blues" é toda a inspiração de umas ilhas imaginárias (Horace nunca visitou Cabo Verde) que ele tenta decifrar através da música, com composições mais dançáveis a apelar a ritmos mais tropicais, com um som funky de um jazz de tonalidades latinas.

Joaquim Arena@

Artigo relacionado:

Sangue crioulo na música americana: Paul Gonsalves, o sax tenor crioulo de Duke Ellington

 


Comentários

Critério de publicação de comentários

 

SAPO Jornais