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Família Vieira, São Nicolau: Um lar na Praia Branca

16 de Junho de 2011, 14:45

A família Vieira, com origens em Praia Branca, na ilha de São Nicolau, produziu dois dos melhores compositores de Cabo Verde: Paulino Vieira e Toy Vieira.

Toy Vieira, 48 anos, tem uma imagem muito difusa do pai, Santos Vieira, desaparecido quando ele tinha apenas cinco anos. O pianista e compositor recorda esses tempos "como num sonho que se apaga com uma borracha" e do qual apenas restam algumas fotografias do tocador de rabeca - a 'Mimosa', como o pai baptizara o instrumento preferido - da Praia Branca, ilha de São Nicolau.

Quando chegou a São Vicente para estudar a primária, na escola da Praça Nova - onde o avô era professor -, o irmão mais velho, Paulino Vieira, já era aluno da Escola Salesiana. Paulino dava os primeiros sopros no clarinete e já dominava o órgão. "Paulino já nasceu músico", confessa Toy.

O patriarca Santos e a rabeca "Mimosa"

Muitos anos antes, o pai, Santos Vieira, ficara conhecido como um dos melhores músicos de São Nicolau, percorrendo a ilha de lés a lés, animando festas, bailes e casamentos. Os mais velhos recordam-no como um homem pacífico, embora sempre um pouco adoentado, bastante reservado, e que acompanhava músicos da velha escola como Manê Pxei, Toy Quinha, Nhô Chico Djodje.

No final dos anos 60, a rabeca de Santos calou-se para sempre, com a sua morte, em São Vicente. O CD "Primero Lar" de Paulino Vieira foi dedicado à memória do pai, num registo mais perto de documento de pesquisa musical e reecontro com a terra natal e os primeiros acordes.

A mesma preocupação tem Toy Vieira. O pianista vem-se interessando por essas músicas antigas, fascinado por essa forma particular de tocar dessa época, para um trabalho a editar brevemente.

Apesar da sombra do irmão mais velho, Toy Vieira recorda que aos 12, 13 anos já compunha, quando morava no bairro da Ribeira Bote, em Mindelo. O primeiro grupo musical tocava com "instrumentos inventados, violas de frigideira, pianos de cartão e baterias de lata." E a primeira composição de que se lembra data dessa altura. Sempre sentiu, confessa, essa sua "veia de compositor". Mais tarde, já em Lisboa, as suas composições (Dança Ma Mi Criola, Marina, Coraja Irmon, etc) seriam gravadas por outros músicos, como Bana, Tito Paris, Lura, entre outros.

Paulino, o irmão ideal

Se Paulino Vieira, 54 anos, é, por unanimidade, considerado um dos génios da música de Cabo Verde, para Toy Vieira foi sempre visto "como um pai". A relação próxima dos irmãos começou muito antes da música. "Ajudou-me desde muito novo, carregava-me às costas, no cachaçinho, dava-me de comer", como que ocupando o lugar do pai desaparecido, para que a sua ausência não pesasse demasiado.

Enquanto músico, Paulino cedo representou um ideal perseguido por Toy: "Para além de me transmitir a experiência de vida, ensinou-me a ver a minha vida como músico; em criança, quando o ouvia tocar ficava fascinado, só pensava em tocar como ele quando crescesse."

E o irmão exemplar estaria na origem da sua vinda para Portugal, em 1982, na companhia de Tito Paris, para integrarem o grupo Voz de Cabo Verde, na altura liderado por Paulino Vieira. Os dois irmãos fariam ainda parte do grupo de músicos que acompanhou Cesária Évora, nas suas primeiras tournées mundiais, depois de ambos terem também produzido o disco Sodade, da diva crioula.

Após a dissolução da última geração do conjunto Voz de Cabo Verde, Paulino Vieira iniciou uma carreira a solo, produzindo sucessos como M Cria ser Poeta, uma das mais belas mornas de todo o cancioneiro cabo-verdiano, para além de produzir outros artistas africanos. Nos últimos anos gravou e editou dois discos - "Paulino Vieira na sua Aprendizagem" - em que interpreta, de forma primorosa, com a sua guitarra acústica de 12 cordas, algumas composições tradicionais das ilhas.

E foi nas gravações em estúdio, quando Paulino chamava o irmão para trabalharem juntos, que Toy aprimorou alguma da sua técnica de músico.

Apesar de ser hoje um dos compositores cabo-verdianos mais prolixos, Toy Vieira levou muito tempo a vencer a timidez e mostrar as suas composições, porque "achava que ainda não estavam suficientemente boas." A insegurança terminou quando Tito Paris, com quem morava, decidiu gravar algumas e começou a tocá-las em público.

Toy Vieira confessa que não passou por nenhuma escola de música, assim como a grande parte dos músicos de Cabo Verde. Aos 29 anos teve as primeiras aulas de teoria com um professor brasileiro, "mas ninguém me ensinou a tocar". O músico fez questão de não mudar a sua maneira de tocar. "Até hoje acredito no meu instinto musical, naquilo que vem de dentro", e que se junta, adianta "a tudo o resto que fui aprendendo na vida, com outros músicos, outras pessoas que conheci". A música, para si, conclui, "é o dia a dia, é uma coisa espiritual."

                                                                                        Toy Vieira

Augusto Vieira, 52 anos, é o terceiro irmão músico. Apesar de não ter seguido a música profissionalmente, 'Gusto, como é conhecido,  é um dos conhecidos guitarristas presentes nas noites cabo-verdianas de Mindelo.

Toy Vieira é o actual director musical da banda de Lura e pianista.

Simplesmente Vieira

Vilma                                    Polana

A nova geração dos Vieira na música parece estar assegurada com o projecto Simplesmente Vieira, de Vilma Vieira e Polana Vieira, filhas de Paulino, residentes em Portugal e Holanda, respectivamente. Depois de gravado o CD com o mesmo nome, em 2010 - em que interpretam a morna M Cria Ser Poeta, da autoria do pai - as irmãs Vieira estrearam o duo em espectáculos, em Portugal e Cabo Verde. Novas gravações estão previstas para breve.

JA@

As Cinco Famílias: Família Lobo, Família Alves, Família Paris, Família Mendes


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