A identidade do proprietário do Banco Insular de Cabo Verde, que está no centro das alegadas irregularidades que levaram à nacionalização do BPN, foi ocultada durante anos através de uma 'offshore' de Gibraltar.
Segundo documentos a que a Agência Lusa teve acesso o Banco Insular é controlado por uma sociedade denominada Insular Holdings Limited, sedeada em Londres. Por sua vez, e de acordo os registos britânicos esta sociedade é detida em partes iguais por duas empresas 'offshore', a Fiduciary Nominees Limited e a Fiduciary Trust Limited, ambas controladas pelo Fiduciary Group, de Gibraltar.
A própria sede social da Insular Holdings tem a mesma morada que a filial do Fiduciary Group na capital britânica, no número 45 da Welbeck Street.
A Fiduciary Nominees e a Fiduciary Trust actuam como sociedades fiduciárias, isto é, gerem o património de terceiros, tornando muito mais difícil às autoridades apurar as identidades dos verdadeiros proprietários.
Terá sido desta forma que, segundo as autoridades, o BPN ocultou durante vários anos - 2002 a 2008 - o facto de controlar o Banco Insular.
Apesar disso, o controlo não era exercido directamente pelo banco, na altura era liderado por José Oliveira e Costa. Em declarações à Agência Lusa, pedindo anonimato, um alto responsável do grupo SLN/BPN afirmou que as 'offshores' que controlam o Insular estavam dependentes da casa-mãe do grupo, a Sociedade Lusa de Negócios (SLN) e não do BPN.
A mesma fonte afirmou que, quando o grupo SLN/BPN comprou a corretora Fincor (que era dona do Insular), em 2002, a administração de Oliveira e Costa insistiu que o banco cabo-verdiano fosse vendido em separado à Insular Holdings.
Nos anos seguintes, e perante as dificuldades do Insular em estabelecer-se como um banco universal em Cabo Verde, a relação com o BPN aprofundou-se significativamente, tornando-se quase o único cliente da instituição.
Estas declarações vão ao encontro do que foi afirmado no domingo pelo governador do Banco de Portugal, Vítor Constâncio, aquando do anúncio da nacionalização do BPN. Em 2002, quando o BPN pediu autorização para comprar a Fincor, a administração de Oliveira e Costa garantiu que o Insular já tinha sido vendido a uma instituição sedeada em Londres, a Insular Holdings, pelo que não seria comprado juntamente com a Fincor.
De acordo com Vítor Constâncio, "não houve nada posteriormente que indiciasse um relacionamento da Sociedade Lusa de Negócios com o Banco Insular". Até que, em Junho, o banco central foi informado do relacionamento entre o BPN e o Insular, bem como de um conjunto de operações de crédito num balcão virtual, com perdas de várias centenas de milhões de euros.
Estas perdas, que estarão situadas entre 700 e 800 milhões de euros, fazem com que o banco deixe de cumprir os rácios de solvabilidade exigidos por lei, pelo que o governo optou pela sua nacionalização, como forma de salvaguardar a estabilidade do sistema financeiro e os depósitos dos clientes.
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